ESTADO LAICO5

Democracia só existe com Laicidade

“Bancada Cristã” avança no Congresso enquanto partidos progressistas esquecem movimentos sociais e cortejam lideranças religiosas.
Resistência cresce, mas espaço cívico está ameaçado. Feministas alertam:
sem Estado laico, não há democracia real

No dia 19 de setembro, a organização LGB International viralizou com um vídeo polêmico declarando a sua “independência” do movimento LGBTQIAP+. A LGB International é uma federação de organizações nacionais de mulheres cis lésbicas, homens cis gays e pessoas cis bissexuais presentes em 18 países

 

Por Gabrielle Weber, professora da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP

  Publicado: 14/10/2025 às 22:06

No dia 19 de setembro, a organização LGB International viralizou com um vídeo polêmico declarando a sua “independência” do movimento LGBTQIAP+. A LGB International é uma federação de organizações nacionais de mulheres cis lésbicas, homens cis gays e pessoas cis bissexuais presentes em 18 países: da Austrália a Taiwan, incluindo, infelizmente, o Brasil. Seu objetivo autodeclarado é “fornecer uma voz global para representar e defender as opiniões de pessoas LGB em nível global, incluindo agências da ONU e instituições multinacionais”. Apesar de não se colocar explicitamente como uma inimiga da comunidade trans, apenas como uma defensora dos direitos e interesses das mulheres cis lésbicas, dos homens cis gays e das pessoas cis bissexuais, o seu discurso está repleto de apitos de cachorro que denunciam prontamente o seu compromisso com a agenda trans-eliminatória da extrema direita neofascista.

O apego a modelos coloniais, estanques e cientificamente ultrapassados da diferença sexual, característico da retórica transfóbica, está emaranhado à própria forma como se organizam. Em suas palavras: “Nós nos organizamos, nos reunimos e articulamos a nossa militância com base na realidade do sexo biológico e da orientação sexual e sem qualquer filiação política”. Uma das diretoras da Aliança LGB Brasil, Mariele Gomes, aprofunda: “Há uma grande discordância entre o que seria sexo e gênero. Para nós, o sexo é dividido entre macho e fêmea; é uma realidade material imutável”. Assim, enquadram o “sexo” como uma verdade biologicamente determinada e, por isso, cientificamente verificável, em contraste com o “gênero”, que, por ser maleável e mutável, poderia assumir uma variedade de significados a depender do contexto.

Esse contraste entre “sexo” e “gênero” é fundamental para a sua retórica. Sem a especificidade, inexorabilidade e inescapabilidade desse “sexo biológico”, é impossível negar a mulheridade de mulheres trans e, com isso, impedi-las de acessar espaços exclusivamente femininos, em particular, aqueles voltados para mulheres que sentem atração por mulheres. Neste contexto, justificativas como: “[…] porque espaços lésbicos agora acolhem homens” e “[…] porque homens não podem ser lésbicas”, elencadas como motivação para a tal “independência” do movimento LGBTQIAP+ escancaram toda a transfobia subjacente à organização LGB International. Mais do que isso, ecoando os argumentos típicos das feministas radicais trans-excludentes, evocam a maleabilidade do gênero como uma brecha de segurança que poderia ser explorada por homens predadores para se disfarçarem de mulheres e acessar esses espaços. Portanto, justifica-se falaciosamente a exclusão de mulheres trans em nome de uma suposta proteção e segurança das mulheres cis.

Por outro lado, a famigerada ideologia de gênero, supostamente criada pelos vis movimentos trans e defendida por organizações internacionais corruptas, como a própria ONU, é enquadrada como uma imposição ocidental que enfraquece a hegemonia masculina e ameaça os valores familiares a partir da destruição do binário de gênero que os sustenta. Tal desestabilização da ordem colonial é propagandeada como particularmente perigosa para as crianças, por isso defendem “o direito de adultos e jovens a amadurecerem, desenvolverem e explorarem a sua sexualidade e personalidade sem a interferência da ideologia de gênero.” Afirmam que “crianças devem ser protegidas de tratamentos médicos voltados para a transição de gênero” com justificativas vazias como: “porque garotas podem ser butch sem mudarem os seus corpos” ou “porque queremos destruir as normas de gênero e não os nossos corpos”.

Contudo, tal posicionamento extremamente transfóbico não deveria surpreender dada a origem desta coalizão na LGB Alliance. Desde que iniciou as suas atividades em setembro de 2019, no Reino Unido, tem atacado explicitamente os direitos das pessoas trans, que são colocados falaciosamente como uma ameaça direta aos direitos sexuais daqueles que sentem atração pelo mesmo sexo. Suas ações incluíram: opor-se à proibição da terapia de conversão que inclui pessoas trans, opor-se ao uso de bloqueadores de puberdade e opor-se à reforma do Gender Recognition Act. O grupo também interveio recentemente no julgamento do caso For Women Scotland Ltd v The Scottish Ministers, que definiu os termos “homem” e “mulher” a partir do “sexo biológico”, e que o termo “mulher” não inclui mulheres trans mesmo se elas tiverem obtido um certificado de reconhecimento legal de gênero. Além disso, a LGB Alliance está diretamente conectada com a extrema direita religiosa dos EUA, incluindo a Heritage Foundation e a Alliance Defending Freedom, grupos que há muito tempo fazem campanha contra a igualdade LGBTQ+, incluindo a oposição ao casamento igualitário e à parentalidade de casais homossexuais.

Portanto, este posicionamento da LGB International corresponde a uma estratégia segregacionista que busca aumentar as chances de assimilação de pessoas LGB cis frente ao recrudescimento da extrema direita em escala global a partir da marginalização das pessoas trans. Porém, como coloca Helen Clarke, a LGB International, assim como a sua predecessora, a LGB Alliance, “pode ser lida como uma (re)produtora de discursos nocivos relacionados à heteronormatividade, ao racismo e ao classismo que, em última análise, dificultam o progresso em direção à igualdade LGBTQ+”. Esquecem-se também do papel fundamental que pessoas trans, sempre na linha de frente, têm exercido em prol do movimento LGBTQIAP+. Como muito bem classifica a Antra, “todo LGB transfóbico é um traidor”.

 

fonte: https://jornal.usp.br/articulistas/gabrielle-weber/lgb-sem-o-t-estrategia-segregacionista-e-transfobica/