O Cfemea, organização feminista antirracista com 36 anos de luta, apoia e se irmana com a organização da Marcha das Mulheres Negras 2025

Cfemea - 19/11/2025
O processo de construção da Marcha das Mulheres Negras 2025 é um aprendizado para todas nós. Para o Cfemea, que esteve presente em 2015 e estará em 2025, é também um chamado e reforça nosso compromisso antirracista. À conclamação da Marcha, reafirmamos a compreensão do protagonismo das mulheres negras na luta feminista antirracista.
As Mulheres Negras já estão em marcha há mais de dois anos. Todos os dias de preparação as organizações e movimentos de mulheres negras estão marchando e estamos em seu apoio. Tudo é coletivo, desde a coleta de recursos, nos vários formatos de angariação de fundos para pagar o transporte e as condições de viver nos dias de ida a Brasília, assim como nos debates e discussões sobre o que move as mulheres negras em uma sociedade racista, machista e violenta. Mulheres negras estão na construção de cada passo de forma solidária, crítica e coletiva.
Assim como tem sido organizada coletivamente, o processo histórico de crítica e combate ao racismo e todas as formas de violência, preconceito e discriminação racial é um grito contra a apartação, contra a sonegação de direitos e contra a exploração máxima.

Na Marcha de 2015 foram 100 mil mulheres negras marchando contra o racismo, a violência e pelo bem viver que marcou e fortaleceu os rumos da organização política no Brasil e na América Latina. A Marcha de 2025 está mobilizando mais de um milhão de mulheres, desde seus territórios.
Passos à frente na liderança e protagonismo das lutas negras: “Nada sobre nós, sem nós” tem sido régua e compasso para projetar futuros e pisar firme no momento presente e construindo um projeto que venha a organizar a exigência necessária da reparação histórica, em seus vários níveis, econômicos, institucionais, de oportunidades, de acesso a recursos, acesso à cultura e à educação, acesso a empregos e à terra.
As mulheres negras são fundamentais para todas as mulheres das comunidades originárias e quilombolas, dos territórios ribeirinhos e das periferias pelo bem viver como um projeto de nação real para a vida de todas e todes.
Em sintonia com o que as mulheres indígenas clamaram bem alto durante a COP30, de que a resposta à crise que nos impõe o capitalismo está no modo de vida sustentado pelos povos originários, as mulheres negras marcham por reparação e apontam para uma sociedade de Bem Viver, de abundância para todas.
Nesta última década o movimento de mulheres negras se transformou, expandiu e cresceu junto com a juventude negra que tem seguido os passos das ancestrais e fortalecido a consciência negra a partir do chão do próprio movimento. É na coletividade ampla do povo negro que as mulheres negras em casa, no território/comunidades, terreiros, escolas, igrejas e em todos os espaços públicos têm experimentado reflexões e práticas de bem viver.
Como demonstração da grandeza e força organizativa a Marcha está sendo articulada com conexão global e em todo território nacional nos 27 estados da federação por meio de um comitê impulsor nacional e outros comitês estaduais, municipais e regionais. A Marcha tem formado politicamente e também convocado amplamente integrantes de organizações, grupos comunitários ou ativistas independentes, mulheres de diferentes contextos promovendo engajamento político e coletivo pra a marcha que não se restringe a um ato político, vai além. As mulheres negras têm erguido suas vozes para anunciar a construção da marcha como um processo de transformação social para combater o racismo até o povo negro ter autonomia e respeito a sua humanidade e existência. A construção do projeto de nação do bem viver deve ser na perspectiva de novos futuros negros, onde direitos, vozes e presença são inegociáveis. Vivas, nós queremos todas!
Identificamos e reconhecemos que da agenda e das pautas exigidas em 2015 pouca coisa mudou e/ou superou, em termos da garantia de direitos por parte do Estado. Sem tréguas, temos lutado, mas, mesmo assim, não para de crescer o número de vítimas negras do feminicídio; como também aumenta continuamente a letalidade das ações policiais por parte do Estado. O genocídio continua!
A resistência das mulheres negras aumenta e se torna cada vez mais exigente devido ao encarceramento massivo e o aumento do extermínio da juventude negra que tem sido a expressão e manifestação dessa política de morte disfarçada de combate ao crime. O extermínio e o genocídio não podem ser uma política de Estado!
O direito à segurança pública e o direito à vida ganha um lugar prioritário nos enfrentamentos ao racismo pelo movimento de mulheres negras. A violência é racial, de classe e de gênero. São as mulheres negras que recolhem corpos de filhos e entes queridos e ficam para enterrar os seus lutando para que seja de forma digna, exigir justiça, memória e reparação, e resistir contra a interrupção da vida precoce. Enfrentam a dor em seus corpos e emoções, traumas coletivos e ancestrais, têm que suportar essa dor insuportável e seguem reivindicando direitos, seguem em marcha …
Estamos juntas na luta antirracista e no enfrentamento às violências de gênero, de raça e LBTQIA+fóbicas!
Estaremos em marcha, juntas, com as mulheres negras na luta por reparação e bem viver!
Viva a luta e a resistência do povo negro e neste novembro negro saudamos a consciência negra no dia 20 de novembro. Viva Dandara e Zumbi da resistência no Quilombo dos Palmares e por libertação negra. Favelas, comunidades e territórios de negros, quilombos de resistência até hoje de pé no combate ao racismo e ao sexismo.
Dia 25 de novembro de 2025 serão 1 milhão de mulheres negras em Brasília!
25 de novembro de 2025 que também é o Dia Latino-americano pelo fim da violência contra as mulheres.
Brasília, 19 de novembro de 2025





