A escritora Jéssica Balbino, autora do recém lançado Porca Gorda, traça um diálogo com a obra de Louisa Yousif, Permanecer bárbaro: não brancos contra o império, para mostrar como a resistência contra a magreza compulsória e a violência cotidiana da gordofobia faz parte da luta contra as tirânicas e falaciosas imposições do capitalismo.

Yousfi insiste que toda promessa de civilidade é uma cilada: o bárbaro, mesmo educado, disciplinado e polido, seguirá tratado como paródia, animal domesticado, nunca igual. O corpo gordo vive a mesma farsa. Podemos emagrecer, investir em dietas, injetar canetas milagrosas — como as que fizeram o PIB da Dinamarca crescer 2% em 2023 — e, ainda assim, seremos lidos como fracasso moral, suspeitos de preguiça e gula. O sistema já conta com isso: a indústria farmacêutica sabe que a maior parte voltará a engordar, por isso depende da recaída. Quando o acesso legal falha, entram em cena os medicamentos falsificados, vendidos sem restrição, adoecendo e matando.
A violência não é só química: é arquitetônica. São os espaços que nos expulsam — os bancos de ônibus, os cintos de avião, os brinquedos de parque, os provadores minúsculos. São as vitrines que encolhem tamanhos e as marcas que tratam roupas plus size como favor, mal cortadas e caríssimas. São as consultas médicas transformadas em sermão sobre dieta, ainda que o motivo da ida seja uma gripe ou uma dor de garganta. É a indústria de alimentos grotescos, ultraprocessados e envenenados que nos força a consumir, ao mesmo tempo em que nos culpa.
A indústria de suplementos e “lifestyles saudáveis” empurra a ideia de que bastaria disciplina — quando, na verdade, é uma falácia impraticável no capitalismo, que nos condena a jornadas exaustivas, alimentos ultraprocessados e ao consumo incessante de produtos que fingem nos salvar.
Aqui, o paralelo com Yousfi se aprofunda: ela afirma que permanecer bárbaro é “tacar o foda-se e mandar à merda, como uma forma de respirar”. Permanecer gorda, hoje, é justamente isso: recusar a chantagem da magreza, recusar as desculpas travestidas de “preocupação com saúde”, recusar o jogo civilizatório que promete inclusão em troca da nossa redução. É continuar vivendo no escândalo de uma diferença que não pede desculpas nem permissão.
Se Yousfi diz que o bárbaro encontra brecha ao transformar o insulto em orgulho: “sou bárbaro, sim, e daí?”. Eu digo o mesmo sobre o corpo gordo: sou gorda, sim, e daí? Essa é a fórmula mágica que abre a janela e deixa entrar o ar fresco.
“No fim, tanto permanecer bárbaro quanto permanecer gorda é recusar o pacto com a domesticação. É reivindicar saúde, educação, lazer e afeto não como recompensa por se tornar menor, mas como direito inegociável.”
Não quero falar de conscientização doce e pacífica. Quero falar de permanência. Permanecer gorda é permanecer bárbara. É um gesto de insurgência contra um mundo que se recusa a nos imaginar. É existir apesar da exclusão, é amar apesar da violência, é desejar apesar da vergonha que tentam colar em nós. É, sobretudo, reivindicar saúde, educação, lazer e afeto não como recompensas por emagrecer, mas como direitos inegociáveis.
No fim, tanto permanecer bárbaro quanto permanecer gorda é recusar o pacto com a domesticação. É viver contra a maré da exclusão, rindo do absurdo de um mundo que celebra o sucesso econômico das canetas emagrecedoras enquanto nos nega o básico.
O que o projeto civilizatório da magreza compulsória não suporta é que a gente continue viva, inteira, sem se desculpar. Permaneço gorda porque, como Yousfi, quero permanecer bárbara. Porque o império da magreza, assim como o da civilização, não suporta que a gente continue viva, inteira e feliz.
Como lembra Yousfi, há uma saída: recusar a integração domesticada e permanecer bárbaro. No caso dos corpos gordos, isso significa recusar a mutilação, dizer “sim, e daí?” para quem insiste em nos negar humanidade, ocupar espaços mesmo quando projetados para nos expulsar. Permanecer gorda é não aceitar a chantagem que diz que só seremos dignas se coubermos no molde. É rir, amar, criar, gozar e escrever com o corpo que temos.
Jéssica Balbino
é jornalista e escritora. Seu último livro Porca Gorda, já está disponível no site da editora e nas melhores livrarias.
fonte: https://jacobin.com.br/2025/10/um-ato-barbaro-contra-o-imperio-da-magreza/








