A ocorrência dos acidentes com escalpelamento ocorre, majoritariamente, com mulheres que ainda são meninas, residentes às margens dos rios e furos de rios da Amazônia paraense. O estudo identificou que 98% das pessoas vítimas de acidentes com escalpelamento são mulheres e 2% são homens.

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Escalpelar é o ato de cortar ou rasgar uma parte do couro cabeludo humano. Nos rios da região amazônica os escalpelamentos se tornaram um problema de saúde pública. Escalpelamento é o arrancamento brusco e acidental do couro cabeludo (escalpo).

 

Esse grave acidente costuma ocorrer em embarcações de pequeno porte, conhecidas como “voadoras”, durante a pesca artesanal ou o transporte para a escola, o trabalho ou outros locais, quando, por descuido, os cabelos compridos, em sua maioria de mulheres e meninas, se enrolam nos eixos e partes móveis dos motores, causando o arrancamento parcial ou total do couro cabeludo.

Em muitos casos, as vítimas têm orelhas, sobrancelhas, pálpebras e parte do rosto e pescoço arrancados, o que causa grave deformação e pode levar a morte.

Segundo dados da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental (CPAOR), 93% dos casos de escalpelamento da região amazônica têm as mulheres como vítimas. Destas, 65% são crianças, 30% adultos e 5% idosos. O índice sinaliza sobre questões culturais que precisam ser repensadas.

Como forma de conscientizar sobre esse tipo de acidente, a Lei nº 12.199/2.010 instituiu a data de 28 de agosto como Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento.

Os graves acidentes podem ser evitados com uma medida preventiva simples, por meio da proteção adequada dos eixos de motores de embarcações. O item, assim como a instalação, é disponibilizado gratuitamente pela Marinha.

A Lei 11.970/2009 obriga a instalação de uma cobertura nas partes móveis dos motores das embarcações para proteger os ocupantes. A Marinha do Brasil, por meio da Capitania dos Portos, oferece e instala gratuitamente a proteção do motor.

Como medidas preventivas, recomenda-se aos usuários de embarcações:


– nunca armar rede ou sentar de cabelos soltos perto do motor;
– prender os cabelos, colocando boné ou chapéu;
– evitar usar colares ou cordões;
– manter as crianças sempre junto dos pais ou responsáveis.

O trauma por escalpelamento acarreta em suas vítimas sequelas físicas e funcionais e deformidades estéticas irreparáveis. O longo tratamento consiste em cirurgia plástica reparadora e implante capilar, além de acompanhamento psicológico.


A Comissão de Seguridade Social e Família aprovou projeto que obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) a fornecer tratamento gratuito imediato, incluindo cirurgias reparadoras e atendimento psicológico, para as vítimas desse tipo de acidente.
 
Fontes:
 
CARVALHO, Sinelma da Silva; OLIVEIRA, Cléber Alexandre de. A importância do tratamento fisioterapêutico no processo de reabilitação dos escalpelados. Cadernos de
Educação, Saúde e Fisioterapia, v. 3, n. 6, 2016
Federação Médica Brasileira
Rádio Universidade da Amazônia
Telessaúde São Paulo

 

Tragédia nos rios: Pará lidera casos de escalpelamento no Brasil

No Pará, acidente ocorre em regiões ribeirinhas, quando os cabelos enrolam em motores de pequenas embarcações e o couro cabeludo da vítima é arrancado. Mulheres correspondem a 98% das vítimas.

Por Gil Sóter, Poliane Guimarães, g1 Pará — Belém

 

Uma tragédia marca a história de centenas de mulheres ribeirinhas no Pará: elas tiveram seu couro cabeludo arrancado em uma fatalidade recorrente na região, chamado escalpelamento. Mais de 200 casos foram registrados no estado, líder na ocorrência deste grave acidente no Brasil, conforme aponta pesquisa inédita da Fundação Amazônia de Amparo e Pesquisa (Fadespa).

O que é escalpelamento?

Os casos costumam acontecer em embarcações de pequeno porte, principal meio de transporte nos rios amazônicos: os cabelos compridos, em sua maioria de mulheres e meninas, se enrolam nos eixos de motores sem proteção. Em muitos casos, as vítimas têm orelhas, sobrancelhas, pálpebras e parte do rosto e pescoço arrancados, o que causa grave deformação e pode levar a morte.

Por que eles ocorrem na Amazônia?

O estudos mostra que, além do Pará, apenas outros dois estados registram escalpelamento no país: Amapá e Amazonas. Peculiaridades da região contribuem para o surgimento de casos. A Região Amazônica tem a extensão de 8 milhões de km², com a maior bacia hidrográfica do planeta. Na Bacia Amazônica está concentrada 20% da água doce superficial, além dos maiores rios do mundo, como Tapajós, Trombetas, Xingu, e claro, Rio Amazonas, o mais extenso do mundo.

Nesse contexto, percorrer áreas de grandes ou de pequenas extensões de rios, igarapés e furos, requer o uso de embarcações. Para ribeirinhos, grupo reconhecido como povos tradicionais que mora às margens dos rios da Amazônia, o processo é habitual, sendo pelas águas, muitas vezes, o único caminho possível para conseguirem realizar deslocamentos cotidianos.

Mulheres marajoras são as principais vítimas

O estudo da Fadespa traçou o perfil das vítimas de escalpelamento no Pará. A pesquisa revelou que, no Pará, a maioria dos casos nos últimos 50 anos, vem do Marajó. As mulheres correspondem a 98% das vítimas, sendo que 67% delas são crianças e adolescentes entre 2 e 18 anos de idade.

Considerando o ranking por municípios, a primeira posição é ocupada por Portel, com 24 casos, sendo as vítimas todas mulheres; seguido de Breves, com 22, também o acidente tendo ocorrido somente com mulheres; Curralinho, com 16 casos, sendo 15 mulheres e 1 homem; Cametá, com 15 casos, registrando 14 mulheres e 1 homem; e Melgaço, com 12 acidentes, com 11 mulheres e 1 homem.

Regina sobreviveu ao escalpelamento e hoje atua na confecção de perucas usadas por outra sobreviventes — Foto: Cristino Martins/O Liberal.

 

Regina Formigosa é uma das sobreviventes do escalpelamento. Natural de Muaná, no Marajó, ela tinha 22 anos quando teve os cabelos puxados pelo eixo do motor de um barco.

“Foi arrancando 100% do meu cabelo. Eu passei por umas sete cirurgias. O tratamento é contínuo”, diz.

Hoje trabalhando na confecção de perucas voltadas a vítimas de escalpelamento, Regina ressignificou a dor. “Gosto muito do que eu faço e não pretendo parar. Eu queria mesmo era que erradicasse totalmente o escalpelamento”, diz.

Combate à tragédia

Na região paraense, as ocorrências começaram a ser registradas por volta da década de 1960, quando barcos a vela e a remo passaram a ser substituídos por barcos com motor.

O perfil das vítimas de escalpelamento foi traçado pela Fundação a partir de dados fornecidos pela Capitania dos Portos e a Casa de Apoio Acolher. De 1964 até 2022, foram registrados 207 casos de escalpelamento em 41 municípios paraenses.

Outro gráfico que reúne dados de 2006 a 2022, mostra 2009 com o maior número de registros da série histórica: 22 casos. Mas foi também neste ano que políticas públicas e a criação de Rede de Apoio se intensificaram. No espaço de treze anos, a marinha implantou mais de 5 mil coberturas de eixo de motor em embarcações. Já no ano passado, foram 161 instalações gratuitas. Ações que têm colaborado para a redução dos registros.

Em Belém, o atendimento às vítimas de escalpelamento ocorre, desde 2002, na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, por meio do Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives). Outro recurso de atenção às vítimas de acidente com escalpelamento no Pará, é a Casa de Apoio Espaço Acolher.

O local atende pessoas e famílias de diversos municípios, sendo a maioria oriunda das regiões ribeirinhas, assim como as vítimas de escalpelamento. O espaço serve de residência de acompanhamento prolongado, tendo em suas dependências classe hospitalar, a partir da atuação da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), com relativas condições de infraestrutura para a garantia de mínimo bem-estar às vítimas de escalpelamento em tratamento na cidade de Belém.

 

fonte: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2024/01/25/tragedia-nos-rios-para-lidera-casos-de-escalpelamento-no-brasil.ghtml

 

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O Escalpelamento de Mulheres na Amazônia (Universidade Federal Fluminense)