"Se alguém me perguntasse como é estar em guerra, eu responderia: 'Significa abraçar seu filho que soluça e pede que você lhe prometa que nada de ruim lhe acontecerá. Significa ver seus vizinhos saindo em busca de seus entes queridos à luz de um celular. Significa saber que você não pode prometer nada.'"

O artigo é de Majd al-Assar, habitante de gaza, publicada por La Stampa, 20-07-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Tenho 33 anos e sou mãe de duas crianças, Salahuddin, de 10 anos, e a pequena Nay, de 7. Somos deslocados do norte de Gaza e atualmente estamos no campo de Nuseirat, no centro da Faixa. Perdi a conta de quantas vezes fomos forçados a fugir depois de 7 de outubro de 2023. Os deslocamentos se tornaram uma parte substancial do nosso cotidiano. Estamos sempre em movimento. Sempre em busca de uma segurança que nunca chega. Desde aquela terrível manhã de outubro, toda rotina desapareceu de nossas vidas. As crianças costumavam acordar e se preparar para a escola, começando o dia com seu café da manhã favorito: um copo de leite morno, pão e omelete. Hoje, não há escola. Não há leite. Não há omelete. As manhãs começam na fila: uma para se lavar, outra para a água potável. O dia 7 de julho começou diferente de qualquer outro dia dessa guerra e dessa carestia. Às 9h, Salahuddin e Nay voltaram para casa, exaustos pelas filas intermináveis em que ficaram. Tiveram que carregar pesadas latas de feijão com suas próprias forças. Preparei chá para eles, sem biscoitos, sem pão, mas eles ficaram gratos porque ainda havia um pouco de açúcar. Até o açúcar é um tesouro raro.
A pé até o posto de saúde
Mais tarde naquela manhã, acompanhei Nay ao posto de saúde da UNRWA mais próximo para a vacinação, que geralmente é administrada antes do início do ensino fundamental. O ano letivo, no entanto, nunca começou. Dezenas de milhares de crianças em Gaza perderam dois anos inteiros de escola. Não havia transporte. Nada de táxis, nada de ônibus, nada de carro. O combustível tornou-se quase impossível de encontrar e, quando se encontra, custa mais do que uma família pode pagar. Então, não havia outra coisa a fazer: tivemos que caminhar os 1,5 quilômetros a pé sob o sol escaldante. Eu tinha meus documentos e uma garrafa d'água comigo. Sabia que levaria horas até voltarmos. Com suas pernas minúsculas, Nay se cansou logo. Ela ficava me perguntando se já tínhamos chegado, com a voz embargada pelo cansaço. Paramos à sombra de um muro em ruínas para beber. Seu rosto estava vermelho e suado, sua respiração acelerada, mas ela não reclamou. Na verdade, estava eufórica. Ela pegou minha mão e perguntou: "Mãe, é verdade que vão me vacinar para que eu finalmente possa ir à escola? Minha amiga me disse que o pediatra fez um check-up geral antes de começar a primeira série. Eu também vou para a primeira série, mamãe?" Não soube como responder. Sorri e assenti, mesmo que seu primeiro ano de escola nunca tenha acontecido. Aqui a vida está suspensa. Só a morte está em constante movimento.
Procurando farinha
No caminho para casa, fomos ao mercado procurar farinha. Sob o sol escaldante do meio-dia, as barracas não tinham nada. Na verdade, os comerciantes estão escondendo os estoques, caso as negociações de cessar-fogo fracassem. Estão esperando para vender a preços mais altos. Depois de horas procurando, finalmente encontrei um pacote de farinha. Estava vencido; eu sabia que não devia ser consumido, mas não tinha alternativa. Pensei em peneirá-lo cuidadosamente, deixá-lo ao sol, e talvez as crianças não fossem perceber. Finalmente, voltamos para nossa barraca, troquei de roupa e comecei a preparar o pão. O pão ficou rançoso. Salah provou primeiro, percebeu que não estava bom, mas continuou a comê-lo em silêncio. Nay estava feliz; disse que era sua "refeição favorita", simplesmente porque estava morna. Virei-me para que ela não visse que eu estava chorando. Uma mãe deveria proteger seus filhos. Eu, ao contrário, estava dando a eles pão estragado. Pareceu-me que as leis do universo haviam sido quebradas. Como o gás para cozinhar está indisponível há meses, tudo o que posso fazer é acender uma fogueira todos os dias. Recolho pedaços e fragmentos de madeira e me agacho do lado de fora da barraca para acender uma fogueira e preparar algo para comer ou esquentar água para o chá. O ar se enche de fumaça, nossas roupas ficam sujas de cinzas, mas não temos alternativa. A falta de combustível tornou cada tarefa um verdadeiro teste de paciência e perseverança. Transformou o menor ato de cuidado — como preparar o pão — em uma luta que eu jamais imaginaria.
O pedido de um falafel
Naquela noite, às 20h, eu estava sentada com as crianças lavando e limpando um maço de folhas de molokhia. Em tempos de guerra, era quase uma festa; parecia indicar a possibilidade de uma refeição deliciosa, mesmo sem carne, alho ou coentro. Ficamos felizes por poder cozinhar alguma coisa. Salah olhou para mim e pediu algo simples: um falafel para o jantar. Tínhamos combinado comer apenas uma refeição por dia, mas ele estava com fome. Levantou-se e calmamente me pediu para deixá-lo sair para comprar um falafel. Meu coração se apertou. Poucos dias antes, o exército israelense havia atingido uma barraca de falafel perto de onde morávamos. Salah perdeu dois amigos, naquele bombardeio, Omar e Salma Abu Salem. A princípio, eu recusei. Depois de muitos minutos de hesitação e suas súplicas silenciosas — com os olhos cheios de fome — finalmente concordei. "Ok", eu disse. "Mas você vai até o vendedor de falafel aqui perto e volta imediatamente. Não se atrase." Antes de ele sair, eu o chamei de volta: "Venha aqui. Antes de ir, deixe-me abraçá-lo e beijá-lo." Em Gaza, temos esse novo hábito. Sempre nos cumprimentamos com abraços, dizendo "adeus" abraçando-nos, porque todos sabemos como é fácil para a morte levar embora as pessoas que amamos.
A explosão
Momentos depois que Salah saiu, sentei-me ao lado de Nay, conversando e preparando a comida. Então o mundo explodiu. Um rugido ensurdecedor sacudiu as paredes e o chão. Eu conheço esse barulho muito bem; era um míssil drone. Naquele instante, pensei que meu pior pesadelo havia se tornado realidade. Meu coração parou de bater, gritei o nome do meu filho com todas as minhas forças: "Salaaaaah!"
Não me lembro como cheguei à porta da frente. Talvez tenha levado um segundo. Talvez uma eternidade. Então eu o vi. Ele estava lá, parado na entrada, pálido de terror, com os olhos arregalados e cheios de lágrimas. Ele gritou: "Mãe, estou com medo! Estou com medo, me ajuda!" Eu o abracei com força. Ele se agarrou a mim com tanta força que senti seu coração batendo junto ao meu. Eu continuei a lhe repetir baixinho: "Está tudo bem, habibi. Você está seguro. A mamãe está aqui. Não tenha medo." Mas ele me abraçou ainda mais forte, soluçando tanto que mal conseguia respirar, e continuou a chorar incontrolavelmente: "Mamãe, choveu fogo. Choveu estilhaços. Mamãe, estou com medo!" Examinei seus braços e pernas, procurando por queimaduras ou cortes. Estava tudo bem. Ele não tinha ferimentos. O terror, no entanto, havia se apoderado de seu corpo.
Na rua
Depois de abraçar Salah e verificar se havia ferimentos, disse a ele para ficar com a irmã. Meu coração ainda batia descontrolado, mas eu sabia que precisava ir lá fora e ver o que tinha acontecido. Quando saí para a rua, era um caos absoluto. Corpos por toda parte. O ar estava tomado pelos gritos de dor dos feridos e por um coro de terror e desespero. Fumaça subia na escuridão. E por toda parte, pessoas procurando crianças, mães, irmãos. Vi um homem pressionando o corpo de uma criança para estancar o sangramento. Outro chamou uma ambulância, que nunca chegou. Outro permaneceu imóvel, deitado sobre um pedaço de papelão: estava vivo quando o encontraram, mas morreu à espera de socorro.
Entre os feridos, avistei uma conhecida, Ataf al-Habbash. Ela estava no chão, perto da calçada, com as pernas cobertas de sangue e as roupas rasgadas pela explosão. Dois homens me pediram para os ajudar, pois estavam embraçados em levantá-la naquele estado. Ela me olhou com os olhos vidrados. Com a voz fina e confusa, perguntou: "Onde estou? O que aconteceu?". Agachei-me ao lado dela e peguei sua mão. "Vai ficar tudo bem", disse-lhe, embora não tivesse certeza. "Eles vão levá-la para o hospital imediatamente." Depois do que pareceu uma eternidade, um pequeno e frágil tuk-tuk chegou, com a carroceria abarrotada de feridos. Era o único meio de transporte disponível para evacuar os feridos. Levantaram Ataf e a colocaram de lado. Vi o tuk-tuk se afastar na escuridão, com o motor lutando contra o peso de todo aquele sofrimento. Naquela noite, 12 pessoas morreram, 70 ficaram feridas, 20 delas crianças.
Enquanto voltava para casa, senti meu coração se partir. Parte de mim ainda estava lá fora, na rua, com os feridos e os moribundos. A outra parte, porém, a que sempre prevalece, estava ali com as crianças. Todos os dias travo uma verdadeira batalha para alimentá-los com comida que sei que não é boa. Água que pode deixá-los doentes. Pão feito de farinha vencida. Vivo em constante medo de que eles fiquem doentes ou que algo pior lhes aconteça, que sejam mortos ou fiquem incapacitados para sempre. Meus nervos estão à flor da pele. Meu coração nunca se acalma.
As palavras de Salah
Mais tarde naquela noite, quando as lágrimas de Salah finalmente diminuíram, pedi a ele que me contasse o que sentiu no momento da explosão. Ele ficou sentado em silêncio no chão por um tempo e então sussurrou: “Mamãe, quando aconteceu a explosão, pensei que tinha chegado o momento de morrer. Pensei que talvez veria Omar e Salma novamente. Meu coração batia tão forte que eu não conseguia respirar. Pensei: se eu morrer, a mamãe vai me encontrar? Ela saberá onde me procurar?” Ele fez uma pausa, e seus olhos se encheram novamente de lágrimas. “Mas então eu vi você na porta e percebi que não estava morto. Fiquei apavorado, mas sabia que você viria me buscar.” Mais tarde, tarde da noite, enquanto estávamos sentados juntos na escuridão, Salah me disse palavras que nunca esquecerei. Com uma voz cansada e fraca, ele disse: “Mamãe, quando aconteceu, eu não pensei em mais ninguém. Pensei apenas em você. Corri para você porque você é minha segurança. Você é o lugar onde me sinto protegido. Eu só queria você, mamãe!”
Mais tarde ainda, ele me pediu para ligar para o pai, que havia retornado ao norte de Gaza para terminar um trabalho e recuperar os nossos pertences. Disquei o número dele e entreguei-lhe o telefone. Com a voz embargada, Salah disse: "Baba? Oi, baba, estou com tanto medo. Estou assustado. Por favor, volte para nós. Preciso de você, baba. O míssil caiu enquanto eu comprava um falafel. De repente, todos começaram a correr. Havia sangue por toda parte". O pai tentou acalmá-lo, embora eu também pudesse ouvir sua voz embargada. Ele pediu a Salah que descrevesse o que havia acontecido.
O menino respirou fundo e continuou a contar suas experiências em meio a soluços: "Eu estava na fila, esperando minha vez. De repente, tudo começou a tremer. Não ouvi o míssil, mas vi estilhaços caindo do céu. Caíram por toda parte. Então houve uma grande explosão. Pessoas correram em todas as direções. Baba, estava escuro, havia corpos cobertos de sangue no chão. Corri para casa, chamando a mamãe e a encontrei na porta, ela também estava me chamando." Salah deu um suspiro profundo e sussurrou: "Baba, por favor, volte. Estou com medo." Por um momento, houve apenas silêncio do outro lado da linha. Então, ouvi a voz do meu marido falhar e ele começou a chorar. Mesmo um pai tentando ser forte não consegue conter as lágrimas. Abracei Salah e o apertei com força. Aos poucos, os batimentos de seu coração diminuíram. Naquele momento, entendi: nenhuma guerra pode derrotar o amor de uma mãe ou de um pai.
A promessa de uma mãe
Se alguém me perguntasse como é estar em guerra, eu responderia: "Significa abraçar seu filho que soluça e pede que você lhe prometa que nada de ruim lhe acontecerá. Significa ver seus vizinhos saindo em busca de seus entes queridos à luz de um celular. Significa saber que você não pode prometer nada." Apesar disso, todas as manhãs prometo a mim mesma que continuarei a abraçá-los com força. Continuarei a procurar pão e água. Continuarei a contar histórias para eles, mesmo no escuro, para que se lembrem de como é a infância. E talvez, um dia esse pesadelo acabará, e eles saberão que a mãe deles nunca deixou de amá-los, mesmo num mundo que faz de tudo para tirar tudo deles. Escrevi essas linhas para que se lembrem de que por trás de cada número há um nome, por trás de cada estatística há uma família, e por trás de cada casa destruída há uma mãe que acredita que o amor é mais forte que a guerra.
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Gaza: pessoas desabam nas ruas devido à fome. Artigo de Kholoud Jarada
"O pior da fome é o quão humilhante ela é. Aqui estamos, morrendo lentamente, enquanto o mundo assiste e deixa tudo isso acontecer."
O artigo é de Kholoud Jarada, médica clínica geral de 24 anos de idade e habitante da Cidade de Gaza, publicado por La Repubblica, 21-07-2025.
Eis o artigo.
Depoimento da Faixa: "Neste momento, é o único sentimento que temos. Pessoas estão desmaiando nas ruas, e os hospitais estão lotados de feridos, não apenas feridos, mas também de subnutridos."
Os últimos dias foram os piores dos 652 que vivemos desde o início do genocídio e do deslocamento forçado. Deixando de lado as explosões aterrorizantes que continuam a destruir o que resta de Gaza ou as ordens de evacuação humilhantes, só posso falar da fome: a fome se tornou a arma mais letal usada contra nós.
Durante meses, tentamos resistir, mas agora estamos desnutridos e fracos e, à medida que a situação piora, não conseguimos mais suportar dias sem comida. Durante semanas, ninguém em Gaza se sentiu nem um pouco satisfeito. Quando se anda pela rua, é impossível não ver o cansaço e a exaustão de todos. Os efeitos da fome são visíveis em nossos rostos magros e corpos debilitados. Continuo olhando para as pessoas ao meu redor — no trabalho, no hospital, na rua, em casa — e, sem nem perguntar, sei que a fome as está devorando. Sinto isso dentro de mim e em todos ao meu redor. Neste momento, é a única sensação que percebemos.
Pessoas desmaiam nas ruas, e os hospitais estão lotados de feridos, incluindo desnutridos. Muitos morreram de hipoglicemia quando uma colher de chá de açúcar ou um gole de suco poderiam tê-los salvado. E não há nada que possamos fazer. Os médicos que tratam esses pacientes também estão morrendo de fome. Até os jornalistas que cobrem essa fome estão morrendo de fome.
Até agora, a desnutrição matou 76 crianças e outras 600.000 correm risco iminente de morte pelo mesmo motivo. Muitas delas já estão hospitalizadas, mas os hospitais não têm os meios mais básicos para salvá-las. Seus pais e médicos são deixados para vê-las morrer. Você consegue imaginar tamanho estado de desamparo e angústia por parte de mães e pais que já abriram mão de suas porções de comida para tentar, em vão, salvá-las? Muitas crianças agora se sentem culpadas até mesmo por dizerem um simples "Estou com fome": elas sabem que até mesmo dizer isso fará seus pais sofrerem.
Os mercados agora estão vazios; não se consegue nem encontrar produtos a preços exorbitantes. Ter dinheiro não significa nada, porque não há nada para comprar. Isso não é pobreza ou falta de recursos: é fome forçada e deliberada. É uma arma de guerra.
Centenas de caminhões carregados com ajuda humanitária e alimentos estão presos na fronteira. Bastaria uma decisão para deixá-los passar. Os poucos que ocasionalmente conseguem entrar não são suficientes. E até agora, pelo menos 995 pessoas morreram e 6.000 ficaram feridas enquanto buscavam ajuda.
Todas as manhãs, mesmo na minha família, inicia-se uma discussão interminável sobre como sobreviver ao dia. Não comemos carne, frango, ovos, nozes ou laticínios desde fevereiro. Meu irmão vagueia pelas ruas procurando algo para comprar. Quando ele encontra comida sem gosto e inadequada, sinto-me privilegiada; a cada mordida, a culpa me atormenta, sabendo que muitos não têm dinheiro nem para beber um gole de água.
O pior da fome é o quão humilhante ela é. Aqui estamos, morrendo lentamente, enquanto o mundo assiste e deixa tudo isso acontecer.
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As vozes silenciosas do povo de Gaza: "Nós vagamos como zumbis famintos"
As Forças de Defesa de Israel (IDF) não permitem mais a entrada de nada na Faixa de Gaza; um quilo de farinha custa US$ 50. "Somos mortos-vivos; muitos estão desmaiando de fome. O exército está atirando em multidões em postos de alimentação."
A reportagem é de Gabriella Colarusso, publicado por La Repubblica, 20-07-2025.
A fome voltou a atormentar Mrwan Hamed. Ela o mantém acordado à noite, ele engole saliva para acalmar os espasmos, mas não é isso que lhe traz paz. Ele é atormentado pela ideia de seus filhos de boca vazia. Os gêmeos, Nabil e Hanin; Sarah, Zayna e o mais novo, Hamid, nascido em uma barraca há nove meses. "Não como desde ontem, e eles também não. Saí em busca de comida, mas não encontrei nada. Nem farinha, nem lentilhas. Estou cansado. É fome aqui, fome de verdade."
Mrwan, de 45 anos, está abrigado com sua família, juntamente com centenas de outras pessoas, em um pequeno acampamento de tendas no norte de Gaza, perto do antigo porto, agora destruído pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) junto com todos os barcos de pesca. Os telefonemas mudaram de tom. Sua voz está mais grave, enfraquecida pelo jejum, pelo calor, pela falta de água, pelo sono, por tudo. Nos últimos dias, o pouco que conseguiu encontrar desapareceu dos "mercados", que muitas vezes são barracos de madeira ou ferro corrugado com sacos no chão. Migalhas alcançam preços insuportáveis.
"Estamos pagando mais de US$ 50 por um quilo de farinha, o que rende seis pães. Eu precisaria de um quilo de arroz e lentilhas para alimentar todos nós, oito pessoas. Isso significa que eu precisaria de US$ 200 por dia. Não tenho, estou ficando louco", lamenta. "Como viram que o cessar-fogo não viria, os comerciantes aumentaram os preços do pouco que sobrou, e nada entra há semanas."
Quem são os comerciantes? Vândalos e criminosos, algumas gangues também alimentadas por acordos que Israel fez com outros líderes. E há também os comerciantes e colaboradores do Hamas que controlam, ou controlavam, os escassos suprimentos. Agora, nada mais entra, Israel bloqueou tudo e os únicos centros de distribuição de alimentos administrados pela sombria GHF ficam no sul. Mesmo que você queira comprar a esses preços, não há dinheiro, e quem encontrar tem que pagar. "Eles aumentaram as comissões em até 45%, o que significa que se eu precisar de US$ 100, custa US$ 45", explica Ibrahim, irmão de Mrwan. Os alertas de organizações humanitárias mal chegam aos noticiários, mas são um escândalo.
O Programa Mundial de Alimentos confirma que uma em cada três pessoas em Gaza passa fome, às vezes por dias, e que a Faixa de Gaza está "à beira de uma catástrofe de fome". Corpos emaciados lotam as poucas cozinhas públicas que permanecem abertas; a maioria fechou no norte devido à falta de comida para cozinhar. "Ontem, eu estava filmando a multidão em frente a um refeitório público quando duas mulheres começaram a sentir tontura e caíram no chão. Elas não comiam há três dias", conta Amr al Sultan, 31, fotógrafo e cinegrafista, por telefone. Toda a sua família foi morta em um bombardeio israelense meses atrás. Ele sobreviveu porque estava no sul; agora está desabrigado no pátio do hospital al-Shifa. Mais de 20.000 pessoas estão abrigadas entre o hospital, o porto e a universidade, todos a cinco minutos de distância um do outro.
Amr também não come. "Eu vivo de suco de fruta." Suco, por assim dizer. Eles encontraram alguns pacotes velhos de aromatizantes ou corantes, não está claro, e os bebem com água. Que nem sempre está disponível. "Para encher um galão, você tem que andar um, dois quilômetros, às vezes até três. Algumas instituições de caridade distribuem por caminhão. Cada caminhão contém cerca de 3.000 litros de água limpa, o que não é suficiente para 20.000 pessoas. Às vezes, você viaja tanto e não encontra nada."
Ibrahim diz que, quando assistia a filmes sobre o fim do mundo, não imaginava que pudessem se tornar realidade. "Em Gaza agora, é como The Walking Dead. Pessoas brigando por um pedaço de pão. Um amigo chegou em casa com farinha ensanguentada depois que o exército israelense atirou na multidão no centro de distribuição." Os centros ficam entre Rafah e Khan Yunis. Mrwan foi lá uma vez e não voltará mais. "Levo uma hora para chegar lá, é perigoso: há gangues armadas na estrada que roubam qualquer coisa e revendem. Você não pode andar com farinha. Eles tiram tudo de você. E, ao chegar lá, corre o risco de o exército israelense atirar em você. Às vezes eles atiram, às vezes não."
Mohammad Nasser decidiu arriscar a roleta russa da fome. Ele também é pai. "Prefiro morrer a ter certeza de que não conseguirei alimentar meus filhos." Mrwan tentou outro feito. Há alguns dias, desafiando a proibição israelense de entrar no mar, ele e alguns companheiros se aventuraram na água em uma prancha de madeira usada como barco. Tentaram pescar. "Mas é preciso ir fundo, mergulhar, e se os israelenses virem barcos de pesca no mar, eles atiram. É muito perigoso." Ahmed, no entanto, conseguiu comer "um peixe do tamanho da minha mão, sem arroz nem pão". Isso foi há dois dias. Ele nos conta, mas não quer. "Sinto tontura, estou fraco, nervoso. Nunca pensei na minha vida que contaria a alguém que estou com fome."
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Razan, de 4 anos, morreu de fome em Gaza. Outros dezoito palestinos morreram em 24 horas
“A saúde dela era excelente antes do conflito”, disse a mãe da menina, que sobreviveu por 40 dias, à CNN.
A reportagem é de Gabriella Colarusso, publicada por CNN e reproduzida por La Repubblica, 22-07-2025.
Razan Abu Zaher resistiu por quarenta dias, imóvel sobre uma laje de pedra em um hospital no centro de Gaza. Ela morreu ontem de fome. Ela tinha quatro anos. Assim como ela, desde o início da guerra, pelo menos 76 crianças palestinas morreram em decorrência da desnutrição. Um jornalista da emissora americana conheceu Razan e sua mãe, Tahir Abu Daher, há um mês, em 23 de junho. A menina já estava fraca, magra e incapaz de se mover. Sua mãe disse que não tinha dinheiro para comprar leite e, de qualquer forma, era difícil encontrá-lo, e até mesmo os médicos estavam perdidos. "Sua saúde era excelente antes da guerra, mas depois da guerra sua condição começou a se deteriorar devido à desnutrição. Não há nada que possa fortalecê-la", disse ela.
A fome está consumindo os palestinos em Gaza: pelo menos 19 palestinos, incluindo Razan, foram mortos nas últimas 24 horas, segundo um porta-voz do Hospital dos Mártires de Al-Aqsa em Deir al-Balah. O bloqueio de ajuda humanitária imposto por Israel no início de março complicou bastante a situação. Os quatro centros de distribuição administrados pelo GHF no sul e no centro da Faixa de Gaza são insuficientes para alimentar a todos e se transformaram em armadilhas mortais, pois a população é forçada a se aglomerar em locais adjacentes às zonas militares controladas pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). Essas são as "zonas de extermínio", áreas proibidas.
Mas para os palestinos que saem à noite para chegar aos centros, é impossível saber os limites das zonas de extermínio, e o exército israelense atira quando considera uma "ameaça", o que pode significar simplesmente pessoas se movendo no escuro. Soma-se a isso a presença de gangues criminosas, bandidos e bandidos ligados ao Hamas que tentam se apropriar dos poucos suprimentos para revendê-los a um preço alto.
O Programa Mundial de Alimentos relata que um em cada três palestinos fica sem comida, às vezes por dias. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a maioria das mortes por fome, especialmente entre crianças, ocorreu desde o início do bloqueio. Ele foi parcialmente suspenso em maio, mas não foi suficiente para aliviar as necessidades da população. Israel bloqueou centenas de caminhões em cruzamentos, relata a ONU, e teve inúmeras autorizações revogadas.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) respondem alegando que querem impedir que "o Hamas os tome": "Desde o início das hostilidades até hoje, aproximadamente 67.000 caminhões de alimentos entraram na Faixa de Gaza, entregando aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de alimentos", declarou o COGAT, órgão que supervisiona as operações. A realidade relatada por todas as organizações internacionais em campo é bem diferente. Gaza carece de tudo: comida, água, remédios. Até mesmo a Cozinha Central Mundial teve que desistir e fechar suas cozinhas públicas devido à falta de alimentos para cozinhar: "Servimos 80.000 refeições no sábado, esvaziando os últimos suprimentos que tínhamos, enquanto caminhões de ajuda humanitária permanecem parados na fronteira." Eles não conseguem mais entregar refeições aos médicos que trabalham sem medicamentos, equipamentos cirúrgicos ou alimentos adequados; eles também correm o risco de morrer de fome.
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