Jornal da Usp - 2/4/2026
Texto: Evelyn Rodrigues*
Arte: Thiago Quadros

Em diferentes contextos históricos, a enfermagem contou com mulheres negras essenciais para a área, mas com contribuições pouco reconhecidas. Histórias de enfermeiras de guerra, pioneiras em pesquisas e gestoras de instituições são pouco registradas, evidenciando a necessidade de iniciativas que resgatem essas trajetórias e ampliem sua visibilidade.
Diante dessa situação, o Coletivo Negro Sônia Barros, formado por estudantes da Escola de Enfermagem (EE) da USP, desenvolveu a exposição Enfermeiras negras: o que você não vê nos livros. A mostra apresenta as biografias de 11 enfermeiras negras e é resultado de uma pesquisa iniciada em 2024. A ideia surgiu pela iniciativa do coletivo em conjunto com a disciplina Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica, ministrada pela professora Jaqueline Lemos.
À frente da pesquisa está Matheus Pereira dos Santos, recém-formado em enfermagem e um dos fundadores do coletivo. Ele relatou a dificuldade de encontrar conteúdo sobre as trajetórias dessas e de tantas outras enfermeiras negras que fizeram contribuições importantes. São raras exceções aquelas sobre as quais já existe bibliografia. Na grande maioria dos casos, pouco era encontrado sobre os feitos em vida dessas mulheres.
Aula aberta organizada pela professora Jaqueline Lemos abordou o tema dos marcadores sociais das desigualdades na saúde mental e contou com a presença de representantes da Articulação Nacional de Enfermagem Negra (Anen), de trabalhadores do SUS do Kilomboeste e de integrantes do coletivo negro da EE – Foto: Coletivo Negro Sônia Barros
Exposição “Enfermeiras negras:o que você não vê nos livros” no CHCEIA – Foto: Arquivo/Fábio Soares de Melo
Retrato de Mary Jane Seacole, por Albert Charles Challen, 1869, National Portrait Gallery. O original foi descoberto em 2003 pela historiadora Helen Rappaport e comprado pela National Portrait Gallery de Londres em 2008 – Foto: Wikicommons
Natural da cidade de Limeira, no interior de São Paulo, Maria José Barroso foi conhecida em vida como Maria Soldado. Participou da Revolução Constitucionalista de 1932 como enfermeira de guerra da “legião negra”, mas também integrou a linha de frente dos combates. Não recebeu nenhum mérito em vida e finalizou seus dias vendendo doces e salgados em frente ao Hospital das Clínicas de São Paulo. Seus restos repousam no Obelisco Mausoléu aos Hérois de 32, no Parque Ibirapuera, como forma de homenagem.
Lydia das Dores Matta – Foto: Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos
Filha de imigrante português e mãe negra brasileira, Lydia nasceu em Manaus, Amazonas. Formou-se na segunda turma da EE, em 1947, como bolsista do programa de enfermagem do Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp). O Sesp foi um programa criado a partir de acordo entre Brasil e EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, para sanear regiões produtoras de matérias-primas. O programa também promovia o treinamento de profissionais de saúde por meio de bolsas. Lydia foi uma das primeiras mulheres negras a se formar no Brasil e enfrentou situações de racismo durante a graduação, junto a outras estudantes negras de sua turma, Josephina de Mello e Maria Lourdes de Almeida. Em 1956, foi nomeada diretora da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto e trabalhou como enfermeira no Senado Federal, onde foi a primeira enfermeira a ocupar um cargo na Secretaria da casa legislativa, colaborando com a construção da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) em Brasília.
Maria de Lourdes Almeida - Foto: Sociedade Amigos do Bairro Santa Angelina
Maria nasceu em Santarém, no Pará, e também se formou na segunda turma da EE, em 1947. Sua trajetória profissional foi marcada por destaque no Sesp, tendo sido chefe do Serviço Especial de Saúde de Araraquara, projetado pelo Centro de Treinamento da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Uma das primeiras bolsistas do programa, tornou-se referência na formação de novos profissionais. Atuou como professora e publicou artigos em revistas especializadas, como a Revista Anais de Enfermagem e os Arquivos da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP.
Josephina de Mello – Foto: Reprodução/Instagram
Josephina de Mello nasceu em Manaus, Amazonas, e era filha de uma enfermeira obstétrica nascida em Barbados e de um funcionário aduaneiro brasileiro. Também integrou a segunda turma a se formar na EE, sendo bolsista do Sesp durante seus estudos. Posteriormente, trabalhou no Sesp, no Programa da Amazônia. Foi eleita para o cargo de Provedora da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, além de tornar-se professora, vice-diretora e diretora da Escola de Enfermagem de Manaus. Em 1970, Josephina foi eleita Enfermeira do Ano pela Aben, em reconhecimento pelas suas relevantes contribuições. Diversas instituições hoje levam seu nome, em homenagem.
Dona Ivone Lara – Foto: Wikicommons
Dona Ivone Lara nasceu no Rio de Janeiro e se dedicou durante 37 anos ao Ministério da Saúde como enfermeira e defensora do tratamento psiquiátrico humanizado. Estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com especialização em terapia ocupacional e implementou uma abordagem mais digna para tratamento de pessoas com problemas mentais, contribuindo para mudanças no sistema de saúde do País. Além de sua carreira na saúde, Dona Ivone também foi uma sambista de destaque, a primeira mulher a assinar um samba-enredo no carnaval brasileiro, ganhando o título de Grande Dama do Samba.
Mãe Stella de Oxóssi – Foto: Wikicommons
Conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, Maria Stella de Azevedo Santos é natural de Salvador, Bahia. Destacou-se no incentivo à cultura e às tradições afro-brasileiras, realizando intercâmbios com a Nigéria e participando de conferências internacionais sobre o Candomblé. Formada em enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), recebeu diversos prêmios e honrarias, incluindo a homenagem como Doutora Honoris Causa outorgada pela mesma universidade. Tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia em 2013.
Izabel dos Santos – Foto: Marize Castro
Formada pela Escola de Enfermagem Hugo Werneck, em Belo Horizonte, Izabel dos Santos nasceu em Pirapora, Minas Gerais. Enfermeira e educadora, pioneira na luta pela educação profissional em saúde, começou sua carreira no Sesp e foi consultora da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Idealizadora do projeto Larga Escala, que foi a base de formulação do Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (Profae), seu trabalho focou na capacitação de trabalhadores de saúde sem qualificação profissional específica, influenciando diretamente políticas do SUS e promovendo uma formação inclusiva.
Rosalda Paim – Foto: Universidade Federal Fluminense/Rosalda Paim
Natural de Vila Velha, Espírito Santo, Rosalda Paim graduou-se em enfermagem e pedagogia e se especializou nas áreas de pediatria, administração hospitalar e saúde pública. Teve expressão política significativa como a Primeira Enfermeira Parlamentar do Brasil, atuando como deputada estadual no Rio de Janeiro entre 1983 a 1987, e promoveu mais de 20 projetos de lei voltados à saúde e aos direitos humanos. Foi presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) de Niterói, na qual também ocupou a coordenação da Comissão de Educação.
Sônia Barros – Foto: Currículo Lattes
Alva Helena de Almeida na aula aberta Marcadores Sociais das Desigualdades, Saúde Mental e Enfermagem – Foto: EE USP
Maria José Bezerra, a Maria Soldado – Foto: 




