Médicos postergaram atendimento sob suspeita de aborto; hospital pertence a uma organização católica

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Mulheres protestam em frente ao Hospital Maternidade Tricentenário, em Olinda (PE) - Elisa Lucena

 

Nesta terça-feira (14), dezenas de mulheres protestaram em frente ao Hospital e Maternidade Tricentenário, no Bairro Novo, Olinda, com faixas e cartazes em alusão a Paloma Alves Moura, chef de cozinha que morreu, sem atendimento, após passar o dia sangrando no hospital. Amigas que a acompanhavam acusam o centro de saúde de negligência, tendo postergado exames sob suspeita de aborto. O Tricentenário pertence à Unidade da Santa Cruz, da Congregação Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, grupo católico de atuação internacional.

No protesto, os cartazes traziam frases como “basta de violência obstétrica”, “quantas mais irão morrer?”, “poderia ser qualquer uma de nós” e a provocação “e se fosse aborto, Paloma merecia morrer?”. Em seu site, a maternidade informa que 100% dos seus atendimentos são de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). As três gestoras do hospital (presidente, diretora financeira e diretora administrativa) são freiras. Em seus valores, destaca o “senso de responsabilidade diante de Deus e do público servido”.

No dia oito, Paloma chegou ao hospital ainda pela manhã, se queixando de dores fortes no útero, além de sangramento. Duas amigas que a acompanharam disseram, em entrevista à TV Tribuna, que a vítima gritava pedindo ajuda e ensopou de sangue três lençóis, mas não conseguiu ser examinada pelos profissionais da maternidade. As amigas alegam que os médicos não a priorizam, hora afirmando estarem realizando partos, hora informando que antes a paciente precisaria passar por um exame de gravidez, suspeitando de que o caso se tratava de um aborto.

Uma das amigas afirmava aos médicos que Paloma sofria com endometriose, condição em que células do endométrio (tecido que reveste o útero) se desenvolvem além das paredes do útero, alcançando ovários e trompas, dificultando sua expulsão na menstruação e resultando em fortes cólicas. Mas os relatos não foram suficientes. À noite, já após perder muito sangue, Paloma sofreu uma parada cardiorrespiratória, sendo finalmente atendida pelos médicos, mas não resistiu. O laudo médico indicou como causa morte uma hemorragia ovariana e anemia. Ela foi sepultada na sexta-feira (10), no Cemitério de Santo Amaro, Recife.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Hospital Tricentenário questionando sobre o caso de Paloma, mas até o momento não fomos respondidos.

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Manifestação ocorre uma semana após Paloma Alves Moura sangrar até a morte, sem atendimento, no Hospital Maternidade Tricentenário de Olinda | Elisa Lucena