Começou o segundo dia (7/10/25) da etapa inicial do Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida, que o Cfemea e o MST estão realizando em Brasília no Centro de Educação Popular e Agroecologia Gabriela Monteiro (Brazlândia-DF).
Ontem, para relembrar, foi dia de encontros e reconhecimentos umas das outras, explicação da proposta do Laboratório e realização de combinados (acordos) entre as participantes. Uma das expressões da atividade de ontem pode ser vista na produção das participantes em seus grupos de trabalho na fotografia abaixo.

Hoje, a concepção de autocuidado que o Cfemea compartilha com as companheiras do Laboratório, que diz respeito à nossa vida, de cada uma, de nossas relações, de nossas comunidades, no mundo … o que somos, como nos vemos, como nos relacionamos … o que sentimos, como nos sentimos … como ser e se libertar das opressões. Criando laços entre nós e expondo nossos limites, assim como dizendo quais os limites que devo colocar para as outras pessoas, para não ser só uma mulher que cuida (dos outros).
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Pelo estabelecimento de diálogos com as mulheres ativistas em diversos movimentos sociais, em especial nos movimentos feminista e de mulheres brasileiro. Para nós, ativistas e defensoras dos diretos humanos, o autocuidado também passa:
• Pelo reconhecimento mútuo dos riscos que cada uma sofre, em diferentes frentes de luta;
• Pela ampliação e fortalecimento dos vínculos de solidariedade e reciprocidade que mobilizam o cuidado entre ativistas e fortalecem suas lutas por direitos.
• Pela pedagogia feminista e pelo diálogo intercultural para as mulheres se afirmarem como sujeitos autônomos e, coletivamente, enfrentarem a dominação patriarcal, a ordem heteronormativa, etnocêntrica e racista.
O Cfemea traz ao MST novamente, já que o movimento é parceiro do Cfemea há algumas décadas, a discussão de que o cuidado entre ativistas e o autocuidado são caminhos para/da transformação social que mobilizamos.
É condição do processo de autocrescimento individual, de formação de vínculos entre as ativistas e de fortalecimento de sujeitos políticos coletivos que as mulheres instituem. É em si uma estratégia de proteção e de empoderamento das mulheres.
É o caminho que escolhemos para lidar com as emergências, sem renunciar e para confirmar nossas estratégias feministas e antirracistas. “O cuidado entre ativistas é uma forma de intervenção política que oportuniza, às mulheres que estão no ativismo, lidar com elementos que bloqueiam sua trajetória de transformação no âmbito subjetivo.
É um caminho para interpelar o individualismo, o sexismo, o racismo e outras formas de discriminação que introjetamos e nos oprimem.
E, ao mesmo tempo, é uma maneira de lidar e buscar eliminar tais elementos dos discursos e práticas de quem quer transformar o mundo. O cuidado entre ativistas envolve corações e mentes das mulheres que estão na luta, para curar as feridas abertas pela violência da dominação. Por isso mesmo, insere-se no conjunto de reflexões e práticas alternativas que vêm sendo desenvolvidas a partir do feminismo.”
Laboratório Organizacional Feminista do DF
Na matéria de ontem (leia aqui) comentamos o que é o laboratório. Mas é importante relembrar alguns aspectos.
O Laboratório é uma experiência pessoal e social, que nos proporciona aproximarmos do coletivo e da consciência que pode guiar a transformação. Na vivência que realizamos em conjunto, experienciamos processos de autocuidado, realizamos rodas de cuidado, vivemos a oportunidade de criar novos laços e reforçar antigos, ao mesmo tempo em que estamos nos expondo e trazendo à roda nossas dificuldades, nossas alegrias e nossos sonhos.
No Laboratório, criamos um ambiente para organizar nossas ações de forma coletiva, organizada e com foco. Como nosso objetivo é criar um (ou mais) empreendimento coletivo que nos auxilie na luta pela autonomia econômica das mulheres, o Laboratório se inicia com uma jornada de autocuidado e, em fevereiro, se iniciará com a organização de uma empresa (cooperativa, empresa coletiva, associação – o nome você escolhe) que assumirá a responsabilidade pelo próprio Laboratório.
Essa empresa precisa dar conta da realidade de uma empresa coletiva real. Ela terá recursos a administrar, terá que cuidar dos horários e de como os cursos serão ministrados, vai organizar uma memória, vai realizar assembleias e vai superar problemas gerais. Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre a formação social na qual vivemos, suas caraterísticas e sobre a necessidade de criação de alternativas. Vamos nos conhecer, como classe social e como agentes de transformação. Assim vamos viver processos que nos auxiliem a chegar ao nosso objetivo – isso pode ser por meio de cursos técnicos ou de trocas de experiências.
Quando o processo do Laboratório se conclui (depois de 70 dias aproximadamente), ele não acaba. Começará a fase de organização de nossa empresa, em nosso caso (do MST no DF e Entorno), vamos provavelmente organizar uma cooperativa ou organizações econômicas de mulheres que atuem nas cooperativas das quais elas participam.
Nesse período, pós-laboratório, teremos processos de assessoramento, incubação e mentoria para a criação das cooperativas.
Uma coisa tem a ver com outra
Por quê começamos o Laboratório com o autocuidado e o autocuidado permeia o Laboratório em todo o processo? Sem liga, sem laços, sem respeito mútuo, sem compreensão dos nossos limites e das obrigações que temos, a empresa coletiva que vamos construir não vai se sustentar. E por falar em sustentar. A empresa que queremos criar não é uma qualquer, que se cria só para ter lucro e explorar outras pessoas.
Queremos uma empresa coletiva que nos traga resultados financeiros, boa parte de nosso trabalho não é remunerado e nem visto pelas pessoas em nossa volta, precisamos ganhar dinheiro para sustentar nossa vida e a vida das pessoas que estão em nossa volta. Por isso, a empresa que vamos construir tem que dar conta de ser um espaço para criar e gerar recursos para nos manter e para nos tirar das dificuldades que hoje enfrentamos, assim como tem que dar conta do cuidado ao qual nos submetemos como cuidadoras (dos filhos, dos mais velhos, das pessoas que precisam da gente) e como membras de nossas comunidades.
Precisaremos inventar essa empresa. E isso vai ter que ser na prática. Coisa que dificilmente aprenderemos em cursos, ainda mais esses rapidinhos.
O autocuidado é essencial. A proposta de vivermos o Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida tem vários sentidos: tirar mulheres da miséria, de forma coletiva e sustentável; aumentar a capacidade para gerar autonomia econômica e social para as mulheres; criar laços para a cooperação entre as mulheres, para nos libertar de opressões e violências que estão presentes no dia a dia do patriarcado; mostrar para outras mulheres que existem caminhos possíveis para superarmos nossas dificuldades.















