O evento em Luziânia (GO) joga luz a casos atuais de trabalho escravo no Brasil e aos direitos das pessoas resgatadas

 

Manifestação contra a escravidão moderna.

Manifestação contra a escravidão moderna.— Reprodução/Desterro/Rodrigo Barbosa

 
Alma Preta - 17 de agosto de 2025
 

Em 2025, o Brasil ainda convive com casos de trabalhadoras domésticas submetidas a trabalho escravo. Este tema norteia o 13º Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas, que acontece entre os dias 19 e 24 de agosto em Luziânia (GO). Com o tema “Pela Equiparação e Respeito aos Direitos Conquistados”, o evento é organizado pela Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD).

A categoria das trabalhadoras domésticas é composta por cerca de 7 milhões de mulheres em todo o Brasil — de maioria negra — que desempenham diversas funções essenciais no cuidado e manutenção dos lares, indo muito além do estereótipo de apenas limpar e cozinhar. Entre as principais funções estão cozinheira, faxineira, cuidadora de crianças e idosos, jardineira, motorista, entre outras. Esse amplo leque de atividades mostra a importância social e econômica dessa categoria, fundamental para a manutenção de milhares de lares de famílias brasileiras.

De acordo com o Código Penal brasileiro, o trabalho escravo caracteriza-se por práticas como jornada exaustiva, condições degradantes, trabalho forçado, restrição de liberdade, retenção de documentos, vigilância excessiva e endividamento com o empregador. Segundo dados oficiais da Inspeção do Trabalho, 127 trabalhadoras domésticas foram resgatadas de condições análogas à escravidão entre 2017 e 2023.

Um levantamento interno da FENATRAD junto a seus sindicatos filiados aponta que o número real é muito maior: pelo menos 485 mulheres viveram, no mesmo período, situações enquadradas como trabalho escravo doméstico. Essa diferença revela o alto índice de subnotificação e as barreiras que dificultam denúncias e fiscalizações dentro dos lares.

As violações são diversas e graves: falta de alimentação no local de trabalho, abusos físicos, psicológicos e sexuais, retenção de documentos, confinamento forçado e trabalho infantil doméstico, que afeta majoritariamente meninas negras. Durante a pandemia, aumentaram os casos de encarceramento privado, quando trabalhadoras foram obrigadas a permanecer nas casas dos empregadores contra a própria vontade.

Casos emblemáticos de trabalho escravo na atualidade

O caso de Sônia Maria de Jesus é um dos mais emblemáticos. A mulher negra, surda e analfabeta, passou mais de 40 anos sem salário e segue em luta por reparação. Mesmo após o resgate formal, Sônia foi levada de volta ao convívio dos ex-empregadores, e aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre um pedido de Habeas Corpus. Para a federação, a demora perpetua violações já reconhecidas pela Inspeção do Trabalho e fere garantias legais de celeridade para pessoas com deficiência e vítimas de violência de gênero.

Outras histórias de trabalho escravo doméstico incluem Ângela Maria da Silva, resgatada após três décadas em cárcere privado, e Valdirene Boaventura, que desde os oito anos sofreu maus-tratos e violência enquanto trabalhava como doméstica, tendo sua vida transformada ao se aproximar do sindicato. Essas narrativas, que se somam a dezenas de outras registradas nos últimos anos, estarão no centro do congresso.

“Esse congresso dá continuidade à nossa luta por direitos garantidos. Com a Convenção 189 da OIT, nossa meta na FENATRAD é fazer essa lei valer e conquistar a equiparação dos nossos direitos. Nós vamos discutir 10 eixos essenciais para nosso trabalho e, depois, elaboraremos nosso plano de luta. A cada quatro anos renovamos nossa diretoria, avaliamos nossas ações e definimos metas. É um momento importante pra gente se fortalecer coletivamente”, destacou Cleide Pinto, coordenadora de Atas da FENATRAD e secretária-geral da Conlactraho.

Direitos de pessoas resgatadas do trabalho escravo

O Congresso reunirá 250 lideranças de 13 estados para denunciar essas violações e reafirmar a luta por trabalho decente, igualdade de direitos e reparação histórica. Além da denúncia, o evento discutirá as falhas da legislação no pós-resgate. Atualmente, trabalhadoras libertadas recebem apenas três meses de seguro-desemprego, sem garantias adequadas de moradia, aposentadoria, atendimento médico e psicológico. Essa lacuna, somada à falta de fiscalização efetiva em residências e à inatividade dos Comitês Estaduais para Erradicação do Trabalho Escravo (COETRAEs) em vários estados, favorece a reincidência dos abusos.

A programação terá destaque internacional no dia 20, com reunião com Tomoya Obokata, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre formas contemporâneas de escravidão, e no dia 22, com uma mesa sobre trabalho escravo doméstico que contará com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, representantes da FENATRAD, do Conselho Nacional de Acompanhamento e Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE) e de outras instituições.

O evento também será momento de celebrar conquistas históricas, como a promulgação, em maio de 2024, da Convenção 189 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com o Decreto nº 12.009, de 1º de maio de 2024, o texto da convenção passou a integrar oficialmente a legislação brasileira, com status superior à Lei Complementar 150/2015, que completou dez anos, reforçando a equiparação de direitos da categoria das trabalhadoras domésticas às demais.

Chirlene dos Santos, Secretária de Formação Sindical da FENATRAD, destaca que dar visibilidade ao trabalho doméstico é garantir não só os direitos, mas também o reconhecimento da categoria. “A gente tem direito trabalhista, social, direito de ir e vir. E precisa acabar com essa história de dizer que a gente é da família, porque isso é usado muitas vezes para explorar e até escravizar. Tem trabalhadora que é levada para a casa dos patrões, perde o contato com a própria família, perde seus direitos sociais, econômicos e até a liberdade. E, como no caso de Sônia, o mais revoltante é que muitas vezes quem faz isso são pessoas que deveriam estar do lado da lei, mas usam a lei para se beneficiar e prejudicar a trabalhadora”, afirma.

O 13º Congresso presta ainda uma homenagem especial à liderança histórica Luiza Batista Pereira, falecida em março de 2025. Mulher negra e trabalhadora doméstica desde os nove anos, Luiza foi uma das principais vozes do movimento sindical da categoria, presidindo tanto a FENATRAD quanto o Conselho CNTD de 2016 a 2025. Seu legado é marcado pela afirmação de que “trabalhadora doméstica não é parte da família, é parte da classe trabalhadora”.

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