Luyara Franco comenta sobre importância, legado e simbolismo da mobilização deste 25 de novembro

Luyara Franco

Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco, explica, ao Conversa Bem Viver, objetivos da Marcha Nacional das Mulheres Negras| Crédito: Divulgação/Instituto Marielle Franco

Com a expectativa de reunir mais de um milhão de pessoas, acontece nesta terça-feira, 25 de novembro, a Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília, com os temas reparação e bem viver.

Esta é a segunda edição da mobilização, que aconteceu pela primeira vez 10 anos atrás, em 2015. Neste ano, o Instituto Marielle Franco (IMF) é uma das entidades que ajudou na organização do dia de luta que resgata o legado das mulheres negras e aponta para a construção de um futuro sem racismo. 

Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco, explica, ao Conversa Bem Viver, a importância e o simbolismo da realização da marcha.

“Uma das coisas que minha mãe sempre falava para mim era sobre a necessidade de não só insistir, mas também resistir.  Estamos aqui em Brasília, 10 anos depois, porque o movimento de mulheres negras entende há muito tempo que precisamos resistir e está diariamente pensando no futuro e na ancestralidade”, destaca. 

Luyara Franco também comenta sobre a recente chacina nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que matou mais de 120 pessoas, a maioria jovens negros. Ela enfatiza que os contornos tomados pela operação policial são exemplos de como a luta por reparação no Brasil é urgente. 

“Reparação é manter vivos os nossos jovens negros. Não é um debate sobre se é bandido ou não é bandido. São vidas e, se elas precisarem pagar, que seja pelos caminhos legais e não com a vida. No Brasil, não temos pena de morte. São filhos, esposos, pais, e precisamos pensar com o olhar do cuidado”, analisa. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Por que fazer uma segunda edição da marcha 10 anos depois?

Luyara Franco – É muito bom a gente demarcar a importância do dia de hoje. Nós, do Instituto Marielle Franco, estamos aqui em Brasília desde sexta-feira, em uma intensa agenda, marcando esta semana por reparação e bem viver. Estamos fazendo ativações não só na marcha, no dia de hoje, mas também estivemos presentes na sessão solene e em outras atividades. 

No sábado, lançamos o livro Rosa de Resistência. Ontem, participamos do encontro da bancada Marielle Franco. Estamos aqui em Brasília ocupando todos os lugares possíveis e com todas as nossas comunidades engajadas.

A primeira marcha aconteceu em 2015 e marcou a apresentação, a nível nacional, da agenda política de mulheres negras. Já completaram 10 anos e acho que a gente consegue fazer um recorte e pensar o que aconteceu na democracia brasileira nesse período. Quais foram os avanços que tivemos nesta década? 

Estamos aqui com organizações do Brasil inteiro e, pensando nesse marco de 10 anos, conseguimos analisar o que aconteceu na conjuntura política da última década. Nesses últimos anos aconteceram bastante coisas no cenário brasileiro. Tivemos a eleição do Bolsonaro e, depois, a eleição do Lula. Houveram vários ataques à democracia. Temos o marco de 2018 com o assassinato da minha mãe. Tivemos a tentativa de golpe em janeiro de 2023. 

Então, fazer parte desta marcha é reafirmar que, a cada momento, estamos pensando em um projeto coletivo de futuro. Estamos pensando com as parlamentares e com os movimentos sociais. Estamos pensando coletivamente, como eu aprendi com a minha mãe. Eu tenho tentado ecoar em todos os espaços que a mudança é uma responsabilidade coletiva e precisamos estar conectadas com todos os movimentos sociais. 

Precisamos estar organizadas com as instâncias públicas também, porque a gente avança, mas tem que ter projeto de lei, tem que estar todo mundo organizado pensando no futuro. Então, neste marco de 10 anos, é muito importante estarmos aqui em Brasília.

Qual balanço você faz desses 10 anos, considerando as políticas para a população negra e a defesa da democracia?

Eu estaria sendo leviana se falasse que não avançamos. Nos últimos encontros aqui com movimentos sociais, pensando na marcha,  afirmamos a importância da mobilização, porque a gente avança 10 passos e dá 20 para trás

Eu quero olhar com o mesmo olhar que eu olho desde 2018. Na verdade, desde 2016, quando minha mãe se coloca candidata. Com um olhar de esperança. A esperança e a fé são o que nos move e precisa nos mover.

Nós, enquanto população negra, nos tornamos negros, porque, conforme vamos crescendo, vamos entendendo que a sociedade não nos pertence, que as pessoas não querem que estejamos nos lugares, nos espaços de tomada de decisão e de poder. Então, há sempre uma esperança de que, em algum momento, não precisemos só ficar pensando em sobreviver e em manter os nossos direitos.

Acho que temos saldos positivos sim, como a consolidação da política de cotas. Se formos pensar nos dados, também tivemos um avanço na diversidade política de gênero e raça. Agora conseguimos pensar cuidados, reparação, bem viver e como vamos cuidar dessas mulheres. 10 anos atrás, a partir, inclusive, do assassinato da minha mãe, as pessoas não falavam e não pensavam sobre isso.

Não era dito que precisávamos cuidar das mulheres que também estão dentro da política institucional. Então, acredito que estamos avançando, mas temos muito ainda para avançar. Só vamos conseguir avançar pensando no futuro e pensando em coletivo.

Vocês têm a expectativa de que o presidente Lula e algumas ministras, como Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos, e Anielle Franco, estejam presentes na marcha?

Essa expectativa é alta,  dado tudo o que tem acontecido aqui em Brasília nos últimos dias. Estamos em uma energia positiva e com a expectativa alta da presença do presidente. No dia 20 de novembro, também tivemos movimentações do movimento negro e queremos que ele esteja aqui pensando reparação e bem-viver.

A ministra Anielle Franco, como bem conheço minha tia, participou do encontro da bancada Marielle Franco, fazendo essa articulação. Ela é referência de luta e Macaé também é. Também destaco a ministra Marina Silva.  Todo mundo está se mobilizando e pensando o quanto é importante a presença delas aqui.

Precisamos começar a entender que só vamos conseguir avançar na responsabilização coletiva, se estivermos conectados, apesar das divergências. Eu vou ter uma vivência, outras mulheres negras vão ter outras vivências, mas, neste momento, precisamos de todo mundo em jogo pensando no futuro.

O Instituto Marielle Franco esteve presente na COP30. As demandas de vocês foram acolhidas?

Foi importante termos feito a demarcação dos termos de afrodescendentes e indígenas. Acho que saímos com um saldo positivo, pensando também nas demarcações de territórios  indígenas que vão acontecer. Mas, repito, precisamos avançar muito mais ainda.

A presença da ministra Marina Silva foi excepcional, atuando enquanto liderança do movimento e dando voz. A incidência do instituto foi pequena, apesar de sabermos da importância. Não é um dos nossos maiores temas prioritários, entre os eixos programáticos do instituto, mas estávamos lá.

Eu não pude ir, porque estava em uma outra agenda, na África, também pautando a luta. Quando falamos sobre clima, pensamos no global, no mundo como um todo, mas precisamos também dar foco ao Sul Global. 

Eu estava com outras organizações da África, Moçambique, México, Colômbia, etc, pensando como temos que nos organizar e pautar a importância desse olhar para o tema ambiental.

Como vocês avaliam a recente chacina nos complexos da Penha e do Alemão?

A chacina foi mais um atentado dentro do estado do Rio de Janeiro, que é um lugar extremamente único, se a gente for pensar na política, em relação ao Brasil. Tem uma coisa muito específica da conjuntura política do Rio de Janeiro. O instituto esteve presente nas manifestações, com organizações e movimentos sociais.

Aquilo foi um sinal claro de que, cada vez mais, eles não estão se importando com a gente e não querem que a gente faça parte dos movimentos sociais. Foi um momento muito difícil para mim. No instituto temos uma rede de sementes e uma dessas comunidades de sementes é a comunidade de mães de vítimas de violência do Estado.

Estamos aqui na marcha, inclusive, com o acúmulo construído no encontro com as mães de  vítimas de violência do Estado. Elas também precisam de reparação. Reparação é manter vivos os nossos jovens negros. Estamos falando sobre vida e direitos humanos e, quando falamos de direitos humanos, não é um debate sobre se é bandido ou não é bandido. Não é essa a pauta. São vidas e, se elas precisarem pagar, que seja pelos caminhos legais e não com a vida. No Brasil, não temos pena de morte, então, as pessoas não podem pagar com suas vidas. São filhos, esposos, pais, e precisamos pensar com o olhar do cuidado.

Quais ensinamentos da sua mãe você carrega contigo?

É um tema sensível, mas, neste momento da marcha, pensando nas ativações que estamos fazendo no instituto com o memorial vivo, eu tenho voltado a algumas memórias, lembranças e ensinamentos da minha mãe, tentando fazer um link com o atual cenário. 

Uma das coisas que ela sempre falava para mim, para além dessa questão da responsabilidade coletiva e do senso de coletividade, era sobre a necessidade de não só insistir, mas também resistir. 

Acho que, 10 anos depois, estamos aqui porque o movimento de mulheres negras entendeu e entende há muito tempo que precisamos resistir e está diariamente pensando no futuro e na ancestralidade. Eu estou aqui, minha avó está aqui, meu avô está aqui. Viemos com a família em peso.

Eu não estive na marcha em 2015, minha mãe também não, mas tenho certeza que ela tirou muito insumo das reflexões que saíram daquela marcha para colocar nas reflexões do mandato dela em 2016. 

Voltamos para Brasília 10 anos depois para afirmar essa memória, esse legado, esse coletivo, esse movimento. Tudo o que a gente construiu até aqui, com as mães, com as parlamentares, com as sementes, é mais do que esse conjunto de ações, é  uma estratégia de futuro político e de coletividade que eu aprendi com ela. 

Lançamos o livro Rosas da Resistência também a partir de uma fala da minha mãe, que dizia que as rosas da resistência nascem do asfalto. Algo que também tem ecoado muito aqui dentro de mim é que nós somos diversas, mas não dispersas. Não estamos dispersas aqui, não estávamos dispersas há 10 anos atrás.

Hoje, no dia 25 de novembro, não vamos estar dispersas e também não estaremos dispersas no ano que vem, pensando na eleição de 2026. Estamos de olhos abertos, mantendo o legado, o senso de justiça e a memória.

Como fortalecer a marcha?

Estamos com a expectativa de ter um milhão de mulheres negras aqui em Brasília. A mobilização, de fato, está sendo mundial, com parceiras dos Estados Unidos, da Colômbia, do México, etc. 

Você, mulher negra,  mas também mulheres não negras e homens, que estiverem acompanhando a marcha à distância, ecoem os nossos gritos, entrem nas nossas plataformas digitais, compartilhem os nossos trabalhos.

Entrem no Instagram da Marcha das Mulheres Negras de 2025 e compartilhem o que estamos ecoando ali. Vamos fazer uma marcha bonita e à altura do que acreditamos e iremos construir nos próximos anos. 

Acompanhe o trabalho do Instituto Marielle Franco, e vamos que vamos. A luta é árdua, é difícil. Escolhemos não só trabalhar, mas ser ativistas, porque isso aqui é muito mais do que um trabalho. Trazemos isso no nosso cotidiano, no nosso corpo, nos nossos valores e propósitos. 

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.
 
 
fonte: https://www.brasildefato.com.br/podcast/bem-viver/2025/11/25/reparacao-e-manter-vivos-os-jovens-negros-diz-filha-de-marielle-na-marcha-das-mulheres-negras/