Livro da autora, que chegará ao país em 2026, relaciona classe, raça e gênero a partir da experiência de mulheres negras
- Adele Robichez E Aline Macedo - Brasil de Fato

A edição inédita de Questões de classe: o lugar que ocupamos, de bell hooks, vai chegar no Brasil a partir de março de 2026 graças a uma campanha de financiamento coletivo organizada pela editora independente Oficina Palimpsestos. É a primeira vez que o livro será traduzido e publicado no país.
Para a tradutora da obra, Larissa Bontempi, ela ajuda a explicar a desigualdade que afeta a população negra, especialmente as mulheres, ao provocar quem lê a encarar o próprio lugar na estrutura social. “Causa desconforto, porque a maioria das pessoas não se questiona a respeito do lugar que ocupa na sociedade”, analisa, em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
Ao contrário de outros textos de hooks conhecidos no Brasil, como os da Trilogia do Amor, o livro destaca o debate sobre classe, articulado a raça e gênero. “Ela sempre tocou nesse assunto de modo muito tangencial, nunca o abordou exclusivamente. Quando ela traz isso agora, é de extrema relevância porque nos mostra vários vieses e lados da classe que permeiam também a raça e o gênero. Mostra, por exemplo, como, a partir do momento em que uma pessoa negra ascende na classe social, ela não deixa de ser vista como uma pessoa negra, mas muda o lugar que ela ocupa na sociedade”, explica Bontempi.

Para a tradutora, esse olhar ajuda a desconstruir visões universalistas do feminismo branco e a recolocar as mulheres negras em destaque. A tradutora lembra que hooks parte da própria experiência familiar, em um lar negro, trabalhador, em um contexto segregado nos EUA dos anos 1950.
“Ela desmistifica um pouco isso de que a mulher negra pode acender a outras posições de trabalho na estratificação social, através do acesso ao estudo. Isso causa uma discussão relevante quando pensamos no feminismo, principalmente o branco, que universaliza a visão da mulher e se esquece que, enquanto a branca lutou para ter o direito ao trabalho, a negra sempre trabalhou, mas nos espaços de inferioridade social”, indica.
Trazendo a discussão para a realidade brasileira, Bontempi destaca o papel do acesso à universidade por meio das cotas na emancipação de mulheres negras. “No Brasil, nos últimos 20 anos, com as cotas sociais e raciais, teve uma mudança, que ela [bell hooks] também percebe nos EUA a partir do momento que o negro tem acesso à universidade. Principalmente a mulher negra, acaba acessando outros espaços, que não são os mesmos que ela teria direito antes de acessar, e conquista novas posições de trabalho”, diz. Por isso, reforça que “é muito importante para as mulheres negras, inclusive as brasileiras, entenderem que o acesso ao estudo dá essa emancipação”.
Mesmo com diplomas e novas ocupações, porém, a desigualdade se mantém no mercado de trabalho. hooks, observa a tradutora, mostra que a ascensão social não garante um tratamento igualitário. “Se a mulher chega a frequentar uma universidade e a ter uma chance de ocupar outros espaços de trabalho, ainda assim vai ser menos remunerada e não vai receber o mesmo tratamento que a mulher branca. Ela vai ter que se provar muito mais, estudar muito mais. Ainda que consiga ocupar esses espaços, vai ter que demonstrar muito mais os seus conhecimentos, a sua capacidade e a sua competência para estar neles”, afirma.
Um dos capítulos do livro trata do racismo imobiliário e da gentrificação, um possível paralelo com a realidade das favelas e periferias brasileiras. Bontempi explica que hooks fala de “uma branquitude que quer pagar por aluguéis mais baratos e passa a ocupar bairros que eram majoritariamente ocupados por famílias negras. O bairro acaba tendo uma ascensão no valor imobiliário e o negro tendo que sair”.
Ao narrar a própria experiência de tentar alugar imóveis em áreas centrais, hooks aborda como o racismo opera diante da ascensão econômica. “Por mais que ela já fosse professora universitária, não viam com bons olhos uma mulher negra querer morar em um lugar majoritariamente ocupado por brancos”, conta.
Outro eixo que aproxima o livro da discussão brasileira é a crítica à branquitude e aos privilégios acumulados historicamente por pessoas brancas. Bontempi compara bell hooks a pensadoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Cida Bento, que assina o prefácio da edição. “O livro também é um convite para as pessoas brancas questionarem o lugar que elas ocupam, mesmo sabendo que elas muitas vezes estão em uma posição de igualdade social com relação a uma pessoa negra”, aponta. Segundo ela, hooks mostra como o “pacto silencioso entre as pessoas brancas dá a elas muitos privilégios que a negritude não tem”.
Para a população negra, a obra é um chamado à consciência histórica, à luta por direitos e à responsabilidade coletiva. “Compreender o nosso lugar no mundo é compreender que, por exemplo, as cotas raciais não são um favor, são um direito e uma reparação”, interpreta a tradutora.
Ela lembra que hooks insiste em não perder o laço com a comunidade de origem. “Não é porque você ascendeu socialmente que vai se esquecer da comunidade de onde você veio, das pessoas que são como você, e que você não vai de alguma forma contribuir para essas pessoas também ascenderem”, pontua.
Na avaliação de Bontempi, a principal contribuição de Questões de classe: o lugar que ocupamos é mostrar que não há transformação social sem reflexão crítica sobre a própria posição na sociedade. “A principal mensagem que ela traz é exatamente essa, de entender o coletivo do qual você faz parte e a posição que você ocupa, tanto em questões raciais, sociais e de gênero”, resume. “A transformação social só ocorre quando as pessoas param para se questionar”, conclui.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.





