Fim da escala 6x1 e descriminalização do aborto também foram pautas da agenda feminista na capital paulista

 

Ato pelo 8 de março em São Paulo teve início em frente ao vão-livre do Masp | Crédito: Nathallia Fonseca/Brasil de Fato
 

Milhares de mulheres ocuparam as ruas de diversas cidades do país neste domingo (8), Dia Internacional de Luta das Mulheres, em protestos marcados pela indignação diante de uma escalada de feminicídios. Em São Paulo (SP), a manifestação em defesa de direitos levou uma multidão do vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, até a Praça Roosevelt, na Consolação, enfrentando forte chuva durante todo o trajeto.

Em cima de um trio elétrico, lideranças de movimentos populares, partidos e coletivos feministas conduziram o grupo com palavras de ordem e exigiram mudanças estruturais nas condições de vida e trabalho das mulheres. O fim da escala 6×1 foi uma das exigências centrais do protesto, que aponta a dupla e exaustiva jornada à qual a maioria das mulheres brasileiras está submetida. A descriminalização do aborto no país também foi destaque na pauta.

“Ocupar as ruas neste momento é dizer que basta de violência. É afirmar que nós, mulheres, queremos estar vivas e viver com qualidade. Por isso também lutamos pelo fim da escala 6×1, para termos tempo de estar com nossas famílias, estudar e descansar”, disse a vereadora Luna Zarattini (PT) ao Brasil de Fato. “Seguiremos marchando. Este 8 de Março é um marco na luta contra a extrema direita e contra todos os retrocessos que tentam nos impor”, completou.

As falas também foram atravessadas por homenagens às vítimas de feminicídio. Apenas em 2025, 1.518 mulheres foram assassinadas por razões de gênero no Brasil, o maior número já registrado desde o início da série histórica no país e equivalente a cerca de quatro mulheres mortas por dia. Durante o ato, nomes de vítimas foram lembrados, além de uma intervenção com pares de calçados que simbolizava cada uma das vítimas assassinadas no estado.


Ato pelo 8 de março em São Paulo lembrou vítimas de feminicídio | Crédito: Nathallia Fonseca/Brasil de Fato

 

Vítimas da violência de gênero

Com um estandarte que destacava que sete em cada dez vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, familiares da médica veterinária Beatriz Milano, assassinada em 2018 no estado de Mato Grosso, participaram da manifestação em São Paulo. O grupo reforçou o protesto “por todas as Bias”, que pede justiça e a preservação da vida das mulheres.

“Estamos aqui mais uma vez, como estivemos em outros anos e em outras cidades, em memória da Bia e lutando para que o que aconteceu com ela não volte a acontecer com ninguém”, afirmou Ana Lúcia Soares, tia de Beatriz.

Nas placas e cartazes, um recorte recorrente foi a cobrança por medidas contra a disseminação de discursos misóginos e de ódio nas redes sociais. Manifestantes pediam a responsabilização das plataformas digitais e a criação de mecanismos de regulação capazes de enfrentar a violência de gênero também no ambiente online.


Durante ato em São Paulo, mulheres pediram fim dos discursos de ódio nas redes sociais | Crédito: Nathallia Fonseca/Brasil de Fato

 

No início do protesto, um tumulto foi registrado após um homem que carregava imagens de Donald Trump provocar mulheres que participavam do ato. A confusão durou poucos minutos, mas agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) utilizaram spray de pimenta durante a intervenção.

São Paulo concentra maior número de casos

O estado de São Paulo aparece no topo das estatísticas nacionais em números absolutos de feminicídio. Em 2025, foram registrados 270 casos no estado, o maior patamar desde o início da série histórica recente, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.

A capital paulista também atingiu um recorde: 60 mulheres foram vítimas de feminicídio ao longo do ano, aumento em relação aos 51 casos registrados em 2024.

Os números foram lembrados durante o ato, que exigiu ações do governador Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes e, em diferentes momentos, os responsabilizou pela tragédia. De acordo com dados de empenho orçamentário disponíveis no Portal da Transparência, a gestão Tarcísio deixou de investir 70% do orçamento de 2025 destinado ao enfrentamento à violência contra a mulher no estado.


Manifestação das mulheres pelo 8M em São Paulo criticou políticas do governo paulista | Crédito: Nathallia Fonseca/Brasil de Fato

 

Já no âmbito municipal, o prefeito Ricardo Nunes vetou recentemente um repasse de R$ 100 mil destinado à capacitação de equipes para o atendimento de mulheres vítimas de violência em dois hospitais da zona leste da cidade. A gestão também tem recorrido de decisões judiciais que buscam garantir a realização do aborto legal no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital — unidade que concentra um dos poucos serviços desse tipo disponíveis no estado.

O Brasil de Fato solicitou posicionamento ao governo de São Paulo e à prefeitura da capital paulista e aguarda manifestação.

Editado por: Monyse Ravena

fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/03/08/por-direitos-e-em-memoria-das-vitimas-de-feminicidio-mulheres-marcham-sob-chuva-em-sao-paulo/