Cfemea
Nesse 8 de março, queremos reconhecer e reverenciar a ousadia das mulheres que, ontem e hoje, nas favelas, nos territórios indígenas, nas periferias urbanas e rurais, têm subvertido a ordem patriarcal da submissão e se afirmam sujeitas das suas próprias vidas.

Reverenciar todas aquelas que contrariando a diretriz individualista da concorrência, têm criado laços de afeto, solidariedade e cooperação nas comunidades em que vivem; todas as mulheres que têm infringido as regras da submissão e da exploração cis-heteronormativa, capitalista, racista, etnocêntrica, fascista e capacitista; todas as que têm inventado outras possibilidades de existir, resistir, conviver, compartilhar e sustentar a vida em comunidade.
Hoje, é preciso descolonizar as nossas mentes e corações, libertar nossos corpos da escravização contemporânea, para podermos escapar da sentença capitalista que condena ao sofrimento e à morte a grande maioria das mulheres negras, indígenas e trabalhadoras, outros seres vivos e não vivos no planeta. É preciso nos livrar da “sentença fatal”, da crença imobilizante de que as pessoas têm de passar a vida trabalhando para o cuidado/proveito/gozo/lucro/enriquecimento de outro; para pagar o que consumir, se endividar e enriquecer os poderosos.
Defendemos:
- trabalho digno e redução das jornadas exaustivas;
- a cooperação e autogestão feminista e solidária para a sustentação da vida
- reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidados;
- soberania alimentar e defesa dos territórios;
- direitos sexuais e reprodutivos, incluindo o aborto legal e seguro;
- políticas públicas que garantam autonomia e liberdade para todas as mulheres.
- Democracia, organização e esperança feminista
Em tempos de avanço do conservadorismo, do ódio e da desinformação, defender os direitos das mulheres também significa defender a democracia.
A história nos mostra que não há democracia real sem igualdade de gênero.
Seguimos incidindo no sistema político, fortalecendo movimentos sociais, disputando políticas públicas e tecendo redes de solidariedade e cuidado.
Neste 8 de março reafirmamos nosso compromisso com a organização feminista e com a construção de um projeto de sociedade baseado no Bem Viver, na autonomia das mulheres e na justiça social.
Queremos que todas nós - tão diversas e ainda tão desiguais - possamos nos sentir donas das nossas próprias vidas e dos nossos corpos-territórios, vivendo com liberdade, reconhecimento mútuo e dignidade.
Seguiremos nas ruas, nos territórios e nas instituições.
Porque quando as mulheres se organizam, a história muda de direção.
Pela vida de todas as mulheres.
Contra o feminicídio.

Por democracia, cuidado e Bem Viver.
Convidamos todas a invocar a nossa memória e resgatar os processos de transformação que as lutas feministas antirracistas desencadearam, moveram e consolidaram. Porque fomos nós todas, nós tantas, tão diversas, e ainda tão desiguais, fomos e somos nós que nor organizamos e incitamos as mudanças que superaram o irremediável destino de “submissão ou morte” a que ordem do racismo patriarcal pretendia e ainda quer nos condenar.
A história das lutas feministas antirracistas nos qualificam para tanto. Durante o século XX, as mulheres se fizeram sujeito coletivo, lutamos pela nossa emancipação, resistimos de todas as maneiras contra múltiplas formas de violência, nos nossos próprios territórios, nas nossas casas, inclusive nas nossas camas, como mulheres, ativistas ou como militantes de movimentos, sem representação política, fora dos sistemas de poder. Nós geramos forças políticas profundamente transformadoras da vida social no mundo. Nós mulheres, mesmo excluídas dos espaços de poder, ousamos imaginar um futuro feminista antirracista no qual todas/es pudéssem ter futuro.
Muito antes que qualquer direito ou qualquer institucionalidade para igualdade de gênero fosse legalizada, esse exercício de imaginação política feminista, esse desejo de viver um mundo livre da dominação patriarcal e racista, essa expectativa explicitada, coletivizada, ressoou pelo mundo a fora, organizou e mobilizou lutas em toda parte, abriu brechas, enfrentou desigualdades, produziu subversões radicais, pessoais e políticas, contra as várias faces da ordem dominante. As mudanças profundas dos últimos 50 anos, na lei e na vida, sem dúvida, foram obra das nossas lutas por direitos, por liberdade, por respeito, contra todas as formas de discriminação e exploração.
Hoje, o feminicídio, o ecocídio, o genocídio são expressões mortais desse sistema em degeneração, vivemos um mundo distópico, misógino, racista, fascista, fundamentalista.
Há muita podridão e, diante de tanta crueldade, a sabedoria da compostagem, da fermentação, a sabedoria de tantas mulheres tem sido preciosa e capaz de fertilizar e germinar o novo. Outras experiências, outros ativismos das mulheres que imaginam e perseguem outros destinos feministas, de bem viver, novos aquilombamentos, outras retomadas. Porque outros mundos só serão possíveis se mais gente desobedecer, subverter, imaginar, criar, plantar novas sementes, cuidar, coletivizar a luta e sustentar a vida nos territórios onde existimos e podemos (re)existir e reinventar, nessa luta, a própria vida.
CFEMEA - Centro Feminista de Estudos e Assessoria
8 de março de 2026





