Num cenário onde grandes festivais muitas vezes se tornam vitrines elitizadas e centralizadoras, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) surge como uma alternativa insurgente e solidária. Caminhando contra a tendência dos grandes eventos literários, a Flipei, que chega à sua 2ª edição em São Paulo (sendo a 7ª realizada em oito anos), chega a 2025 com uma dinâmica inédita de gratuidade não só para o público, mas para editoras, livrarias e autores independentes. Será a primeira festa gratuita do livro independente com expressão nacional que contará com publicadores de todas as regiões do país.

Enquanto outras organizações da cultura do livro cobram cada vez mais taxas e acabam expulsando e marginalizando editoras de suas feiras, a Flipei reafirma seu compromisso radical com a democratização do livro e do pensamento, provando que Milton Friedman estava errado quando disse que “não existe almoço grátis”. Quando há recurso público, os eventos deveriam se tornar mais públicos – e não menos, como infelizmente ocorre nos megaeventos literários. Portanto, há almoço grátis quando o interesse é público e quando há desejo de romper com o velho patrimonialismo brasileiro. Assim, a Flipei prova que é possível remar na direção contrária da distopia capitalista, celebrando o comum, a diversidade e a luta pela circulação irrestrita do conhecimento.

Como lembra Peter Lamborn Wilson, no livro Utopias Piratas: a revolta de mouros, hereges e renegados na emergência do capitalismo (reeditado pela Flipei), os piratas do Atlântico formavam suas próprias esferas sociais, mostrando que a ética que “governava” estes grupos (conforme os “estatutos” dos navios) eram tanto anarquistas, por permitirem o máximo de liberdade individual, quanto comunistas, na medida em que eliminavam a hierarquia econômica e partilhavam o butim igualitariamente.

A 7ª edição da Flipei será a maior já realizada, com cerca de 220 editoras inscritas, mais de 28 debates nacionais e internacionais, shows, bailes, espaço para as infâncias com a Zona Piratinha e uma programação referenciada na perspectiva indigena e afro-brasileira, lançamentos de livros, acessibilidade para público PCD e muito mais. 

Este ano, o evento amplia sua aposta na internacionalização e nas alianças com vozes do Sul Global. Quatro convidados internacionais de peso já foram confirmados, como ​​a boliviana Silvia Cusicanqui, autora dos livros Um mundo ch’ixi é possível: ensaios de um presente em crise (Elefante); Sociologia da imagem: olhares ch’ixi a partir da história andina (Elefante) e Chixinakax utxiwa: uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores (n-1).

Também estarão presentes a franco-argelina Louisa Yousfi, autora de Permanecer bárbaro: não brancos contra o império (Autonomia Literária e Glac); a surinamesa Cynthia McLeod, autora do clássico Quão caro era o açúcar? (Pinard); e Ilan Pappé, que vem ao Brasil lançar Brevíssima história do conflito Israel-Palestina (Elefante) e A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina (Elefante).

O palco da Flipei pertence a pensadoras, artistas e lideranças do Brasil profundo, das quebradas, das universidades, das aldeias e dos quilombos, reunindo um elenco diverso de convidadas e convidados, entre eles Rincon Sapiência, Luana Alves, Dead Fish, Laura Sabino, Thiago Ávila, Nabil Bonduki, Tiago Santineli, Luiza Romão, Milly Lacombe, Célio Turino, Duda Bolche, José Kobori, Pedro Silva, João Carvalho, Letícia Bassit, Leci Brandão, Jairo Malta, Ricardo Antunes, Vladimir Safatle, Claudia Manzo, Amanda Paschoal, Bazuros, Deborah Maganha, Spensy Pimentel, Jones Manoel, Walter Lippold, Jupi77er, Deivison Faustino, Samia Bonfim, Marie Declercq, Caê Vasconcelos, Jerá Guarani, Lindener Pareto, Leticia Cesarino, Jamil Chade, Bruna Santiago, Fábio Nogueira, Márcio Farias, Lília Guerra, Paula Nunes, Baile da DJ Sophia, Rafael Domingos, Breno Altman, Acauam Oliveira, Ediane Maria, Glauber Braga, Natália Calfat, Wesley Barbosa, Muryatan Barbosa, Lia Urbini, Lys Ventura, Jéssica Balbino, Silvia Ferraro, Rosa Negra, Humberto Mattos, Ana Prestes e muito mais!

Para conferir a programação completa, acesse aqui ou aqui.

A Flipei é uma festa pirata – não porque seja clandestina (por mais que ande aliada às forças subterrâneas), mas porque se recusa a aceitar o naufrágio cultural promovido pelo mercado e pelo conservadorismo. A cada edição, se consolida como um projeto coletivo, transgressor e essencial para repensar a cena literária e política no Brasil.

Pisar o Vale do Anhangabaú é também reverenciar as lutas e os povos que ainda hoje são massacrados pelas novas forças de colonização. Deste modo, a nossa embarcação pirata anseia por seguir as trilhas dos rios soterrados, entre água e sangue, rasgando o concreto para deixar emergir um futuro que desacredita esta realidade capitalista do muro branco e espelhado dos prédios da cidade infartada. Para nós, piratas da literatura, fazer cultura e política, é atiçar a possibilidade de imaginar e pensar a realidade para além do capitalismo.