
Programação em: https://www.instagram.com/p/DMq7JlePIYA/?img_index=1
Na noite desta sexta-feira (1º de agosto), às 20h, a Fundação Theatro Municipal (FTM) de São Paulo enviou um ofício comunicando o cancelamento da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI) 2025 na Praça das Artes (assim como apagaram publicações nas redes sociais e deletaram a programação do site oficial – mas nós temos os prints).
A decisão, tomada cinco dias antes do início do evento e à revelia da Direção da Sustenidos (entidade gestora do espaço), rompe um contrato assinado há 5 meses, que previa, no caso de rescisão, a necessidade de um aviso de 15 dias anteriores à data de início do evento em um acordo entre as partes feito de forma escrita. O comunicado do diretor da FTM, Abrão Mafra, foi feito de maneira a prejudicar e impedir uma tomada de providências em tempo hábil: a montagem do evento está prevista para segunda e terça-feira (4 e 5 de agosto) e a abertura, na quarta-feira (6). Vale destacar que a mesma FTM e sua direção brigaram, inclusive judicialmente, para premiar a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no Theatro.
Este ataque não é um episódio isolado. Desde 2019, setores da extrema direita tentam cancelar a FLIPEI, com episódios de repressão e cerceamento. Em 2023, parte da programação em Paraty foi impedida pela polícia – os argumentos eram diversos e iam de incômodo com a bandeira do MST a debates sobre segurança pública, polícia e etc.. Agora, em 2025, vemos uma escalada de censura política e ideológica explícita novamente.
O ofício da FTM, enviado às vésperas do evento, deixa claro o incômodo com os temas abordados pela festa; nas palavras de Abrão Mafra, o “evento possui conteúdo e finalidade de cunho político-ideológico”. O atual lobby sionista acionado por diversas instituições contra a questão palestina também se estende aqui. Destacamos a mesa da FLIPEI que discute a questão palestina com a presença do historiador judeu Ilan Pappé, um dos mais renomados intelectuais do mundo sobre o tema e que vem sendo perseguido desde que chegou ao Brasil, e o militante Thiago Avilla, que estava na flotilha humanitária interceptada por Israel.
A repressão também vem acompanhada de manobras institucionais: a Prefeitura de São Paulo, por decisão do Prefeito e do Chefe da Casa Civil, derrubou três emendas parlamentares dos mandatos de Luana Alves, Nabil Bonduki e Silvia Ferraro da Bancada Feminista, que garantiriam apoio estrutural à FLIPEI (geradores, palco, sonorização, iluminação, banheiros, seguranca, etc.). Uma delas, a do Nabil, já estava aprovada e liberada pela Secretaria de Turismo e pela Secretaria da Fazenda, e foi inexplicavelmente derrubada na última quinta-feira (30), sem qualquer explicação plausível – pegando de surpresa os secretários do governo municipal.
A FLIPEI nasceu em 2018 como um ato de resistência cultural e, em oito anos, se consolidou como um dos mais importantes encontros culturais e literários independentes do país, construído em diálogo com editoras, autores, movimentos sociais e trabalhadores da cultura. Contra o modelo elitizado dos grandes festivais, a FLIPEI aposta na democratização radical do livro: por isso, em 2025, pela primeira vez, a feira é 100% gratuita para o público e para as editoras participantes – um gesto raro e simbólico que vai na maré contrária aos grandes eventos literários. Além disso, a edição deste ano vem para garantir programação para as infâncias e juventudes e implementar diversas estratégias de acessibilidade para pessoas com deficiência, desde equipes de apoio para atendimento do público a audiodescrição e libras.
A edição 2025 seria a maior já realizada: 220 editoras inscritas e mais de 180 participantes, mais de 40 debates nacionais e internacionais, shows, bailes, atividades para crianças, programação centrada nas culturas indígena e afro-brasileira, lançamentos de livros e convidados de peso do Brasil e do mundo, entre eles Silvia Cusicanqui, Louisa Yousfi, Cynthia McLeod, Judith Sánchez Ruíz e Ilan Pappé.
O impacto econômico e social da FLIPEI 2025 é imenso: já contamos com mais de 100 trabalhadores e trabalhadoras da cultura contratados pela organização, somando cerca de R$ 300 mil em compromissos firmados; 180 editoras confirmadas, com R$ 100 mil investidos pela própria FLIPEI para estruturar a feira do livro; além de contratos com fornecedores que totalizam aproximadamente R$ 300 mil. Ao reunir artistas, técnicos, editoras, prestadores de serviço e fornecedores, a FLIPEI impacta diretamente mais de 500 trabalhadores – tornando evidente que este ataque não atinge apenas um evento, mas a vida e o sustento de centenas de pessoas que vivem da cultura e literatura.
A decisão arbitrária da Fundação ameaça não apenas a realização do evento, mas o sustento de centenas de profissionais e o direito de milhares de pessoas de acessar gratuitamente uma programação cultural de alto nível.
Vale lembrar que a escolha de realizar a FLIPEI na Praça das Artes foi simbólica: um espaço público, no coração de São Paulo, selecionado justamente para devolver à sociedade os recursos do ProAC-SP (governo estadual) e da Lei Aldir Blanc (governo federal), com uma programação aberta, democrática, gratuita e acessível.
A FLIPEI é uma festa pirata – não porque seja clandestina, mas porque recusa o naufrágio cultural imposto pelo conservadorismo neoliberal e pela elitização do mercado, e insiste em construir um espaço de diversidade, crítica e imaginação de outros futuros possíveis. Estamos movendo medidas judiciais e políticas para responsabilizar a FTM, sua direção, a Secretaria de Cultura e a Prefeitura de São Paulo por esse ato autoritário absurdo de censura. E garantimos: a FLIPEI 2025 VAI ACONTECER, nos mesmos dias, mesmos horários, em outros espaços da resistência de São Paulo (Galpão Elza Soares, Armazém do Campo e Sol y Sombra 13). Mais detalhes serão detalhados em breve.
Marujos da Flipei
Rincon Sapiência, Silvia Cusicanqui, Dead Fish e Ilan Pappe participam de festa literária independente
Remando contra a tendência dos grandes eventos literários, a Festa Literária das Editoras Independentes (Flipei) realiza a edição deste ano com uma dinâmica inédita de gratuidade não só para o público, mas para editoras, livrarias e autores independentes. Será a primeira festa catraca livre com expressão nacional que contará com publicadores de todas as regiões do país.
Num cenário onde grandes festivais muitas vezes se tornam vitrines elitizadas e centralizadoras, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) surge como uma alternativa insurgente e solidária. Caminhando contra a tendência dos grandes eventos literários, a Flipei, que chega à sua 2ª edição em São Paulo (sendo a 7ª realizada em oito anos), chega a 2025 com uma dinâmica inédita de gratuidade não só para o público, mas para editoras, livrarias e autores independentes. Será a primeira festa gratuita do livro independente com expressão nacional que contará com publicadores de todas as regiões do país.
Enquanto outras organizações da cultura do livro cobram cada vez mais taxas e acabam expulsando e marginalizando editoras de suas feiras, a Flipei reafirma seu compromisso radical com a democratização do livro e do pensamento, provando que Milton Friedman estava errado quando disse que “não existe almoço grátis”. Quando há recurso público, os eventos deveriam se tornar mais públicos – e não menos, como infelizmente ocorre nos megaeventos literários. Portanto, há almoço grátis quando o interesse é público e quando há desejo de romper com o velho patrimonialismo brasileiro. Assim, a Flipei prova que é possível remar na direção contrária da distopia capitalista, celebrando o comum, a diversidade e a luta pela circulação irrestrita do conhecimento.
Como lembra Peter Lamborn Wilson, no livro Utopias Piratas: a revolta de mouros, hereges e renegados na emergência do capitalismo (reeditado pela Flipei), os piratas do Atlântico formavam suas próprias esferas sociais, mostrando que a ética que “governava” estes grupos (conforme os “estatutos” dos navios) eram tanto anarquistas, por permitirem o máximo de liberdade individual, quanto comunistas, na medida em que eliminavam a hierarquia econômica e partilhavam o butim igualitariamente.
A 7ª edição da Flipei será a maior já realizada, com cerca de 220 editoras inscritas, mais de 28 debates nacionais e internacionais, shows, bailes, espaço para as infâncias com a Zona Piratinha e uma programação referenciada na perspectiva indigena e afro-brasileira, lançamentos de livros, acessibilidade para público PCD e muito mais.
Este ano, o evento amplia sua aposta na internacionalização e nas alianças com vozes do Sul Global. Quatro convidados internacionais de peso já foram confirmados, como a boliviana Silvia Cusicanqui, autora dos livros Um mundo ch’ixi é possível: ensaios de um presente em crise (Elefante); Sociologia da imagem: olhares ch’ixi a partir da história andina (Elefante) e Chixinakax utxiwa: uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores (n-1).
Também estarão presentes a franco-argelina Louisa Yousfi, autora de Permanecer bárbaro: não brancos contra o império (Autonomia Literária e Glac); a surinamesa Cynthia McLeod, autora do clássico Quão caro era o açúcar? (Pinard); e Ilan Pappé, que vem ao Brasil lançar Brevíssima história do conflito Israel-Palestina (Elefante) e A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina (Elefante).
O palco da Flipei pertence a pensadoras, artistas e lideranças do Brasil profundo, das quebradas, das universidades, das aldeias e dos quilombos, reunindo um elenco diverso de convidadas e convidados, entre eles Rincon Sapiência, Luana Alves, Dead Fish, Laura Sabino, Thiago Ávila, Nabil Bonduki, Tiago Santineli, Luiza Romão, Milly Lacombe, Célio Turino, Duda Bolche, José Kobori, Pedro Silva, João Carvalho, Letícia Bassit, Leci Brandão, Jairo Malta, Ricardo Antunes, Vladimir Safatle, Claudia Manzo, Amanda Paschoal, Bazuros, Deborah Maganha, Spensy Pimentel, Jones Manoel, Walter Lippold, Jupi77er, Deivison Faustino, Samia Bonfim, Marie Declercq, Caê Vasconcelos, Jerá Guarani, Lindener Pareto, Leticia Cesarino, Jamil Chade, Bruna Santiago, Fábio Nogueira, Márcio Farias, Lília Guerra, Paula Nunes, Baile da DJ Sophia, Rafael Domingos, Breno Altman, Acauam Oliveira, Ediane Maria, Glauber Braga, Natália Calfat, Wesley Barbosa, Muryatan Barbosa, Lia Urbini, Lys Ventura, Jéssica Balbino, Silvia Ferraro, Rosa Negra, Humberto Mattos, Ana Prestes e muito mais!
Para conferir a programação completa, acesse aqui ou aqui.
A Flipei é uma festa pirata – não porque seja clandestina (por mais que ande aliada às forças subterrâneas), mas porque se recusa a aceitar o naufrágio cultural promovido pelo mercado e pelo conservadorismo. A cada edição, se consolida como um projeto coletivo, transgressor e essencial para repensar a cena literária e política no Brasil.
Pisar o Vale do Anhangabaú é também reverenciar as lutas e os povos que ainda hoje são massacrados pelas novas forças de colonização. Deste modo, a nossa embarcação pirata anseia por seguir as trilhas dos rios soterrados, entre água e sangue, rasgando o concreto para deixar emergir um futuro que desacredita esta realidade capitalista do muro branco e espelhado dos prédios da cidade infartada. Para nós, piratas da literatura, fazer cultura e política, é atiçar a possibilidade de imaginar e pensar a realidade para além do capitalismo.







