No último dia 26 de novembro, em Brasília, aconteceu o Seminário Internacional Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, organizado pelos movimentos da ALBA, capítulo Brasil, com o objetivo de celebrar o legado da grande intelectual e política Lélia Gonzalez.

Foto da colunista Geyse Anne

Militante e atual coordenadora de Formação Política do Movimento Negro Unificado (MNU) no Ceará. Membro da Executiva Estadual do PT Ceará. Bacharela em Humanidades pela Unilab. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia na UECE.

Lélia Gonzalez na reunião da Diretoria do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras. Foto: Januário Garcia/ via Projeto Memória.| Crédito: Reprodução Site Primeiros Passos

Pela vida das mulheres

No último dia 26 de novembro, em Brasília, aconteceu o Seminário Internacional Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, organizado pelos movimentos da ALBA, capítulo Brasil, com o objetivo de celebrar o legado da grande intelectual e política Lélia Gonzalez.

O seminário se deu na oportunidade da presença de diversas mulheres na Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver, que reuniu cerca de 300 mil mulheres de vários estados e presenças internacionais, pautando por mais participação das mulheres negras nos espaços de decisão; contra a violência de gênero e da juventude negra; por regularização dos territórios quilombolas e tantas outras bandeiras de luta.

E foi nessa energia que a palestrante Aline Costa, militante do Movimento Negro Unificado (MNU), organizou sua fala em três facetas de Lélia Gonzalez: a intelectual, a ativista e a política. Essa multiplicidade de atuações e frentes em vida nos trouxe a dimensão da capilaridade do legado que essa mulher tem para a esquerda e para o feminismo afro-latino-americano.

Em minha contribuição no debate, tive a oportunidade de ressaltar que Lélia escrevia a partir das próprias experiências e vivia aquilo que escrevia, mantendo uma rara coerência entre pensamento e ação. Seu feminismo afro-latino-americano nasce desse percurso, alimentado pela participação em eventos internacionais e pela presença constante em congressos acadêmicos e políticos. Foi nesses espaços que ela identificou semelhanças nas condições vividas por mulheres negras de países da América Latina, reconhecendo fatores estruturais comuns, como da experiência colonialista ao sistema escravocrata que moldou desigualdades, sexismo, machismo e racismo em todo o continente.

Fruto desse percurso, seu legado evidencia que as lutas das mulheres negras no Brasil reverberam para além das fronteiras, o que se expressa, por exemplo, na auto-organização das mulheres negras e na presença negra em organizações mistas dos movimentos sociais. Mas principalmente na repercussão que o feminismo afro-latino-americano vem ganhando ao constituir o 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e com a realização da Marcha das Mulheres Negras (2015 e 2025).

Portanto, esse patrimônio intelectual e militante tem dimensão continental e precisa ser revisitado constantemente ao fazermos as análises de conjuntura e na organização das ações concretas da luta do povo. Para o Capítulo Brasil da ALBA Movimentos, onde a presença da população negra é majoritária, isso faz do Brasil um dos responsáveis históricos e políticos por avançar nas questões raciais de forma internacionalista. E nós, mulheres negras da ALBA, já aprendemos com Lélia: organização já!

*Dirigente da CMP Ceará, coordenadora de Formação Política do MNU Ceará. Bacharela em Humanidades pela UNILAB e mestranda em Sociologia pela UECE.

fonte: https://www.brasildefato.com.br/colunista/geyse-anne-da-silva/2025/12/09/lelia-gonzalez-e-a-forca-continental-do-feminismo-afro-latino-americano/