A marcha também foi marcada pela forte presença de lideranças comunitárias. Marizete Pires, do projeto Mulher por Mulher, do Subúrbio Ferroviário de Salvador, liderou um grupo que cobrou mais investimentos públicos em políticas para mulheres e rigor na apuração dos casos de feminicídio, que atingem de forma ainda mais brutal mulheres negras das favelas e periferias.

 

Claudia Correia


Foto: Claudia Correia

 

Neste domingo (14), no trecho entre o Cristo e o Farol da Barra, em Salvador, milhares de mulheres ocuparam as ruas em marcha contra a escalada da violência de gênero e os altos índices de feminicídio na Bahia e no Brasil. O ato reuniu cerca de 60 entidades feministas, coletivos de mulheres de bairros, sindicatos e organizações populares, muitas delas com atuação direta nas favelas e periferias da capital baiana.

A mobilização contou com performances artísticas de Sandra Munhoz, da Casa Marielle Franco, do Bloco A Mulherada, além de grupos de capoeira e percussão formados por mulheres, reforçando a cultura como ferramenta de denúncia, resistência e mobilização social nos territórios periféricos.

Autoridades e parlamentares marcaram presença para prestar apoio ao ato e denunciar a permanência da estrutura patriarcal e machista na sociedade brasileira. Estiveram presentes a secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, Neuza Cadore, as vereadoras e vereadores Silvio Humberto (PSB), Aladilce Souza (PCdoB), Eliete Paraguassu (PSOL) e Hamilton Assis (PSOL), além dos deputados estaduais Hilton Coelho (PSOL) e Olívia Santana (PCdoB) e da deputada federal Lídice da Mata (PSB).


Foto: Claudia Correia

 

Durante a manifestação, a vereadora Aladilce Souza destacou a urgência de políticas públicas voltadas à prevenção. “Precisamos investir em educação de gênero nas escolas e em ações preventivas. Não suportamos mais chorar pelos assassinatos de mulheres, por todas as formas de opressão e pela violência política que nos persegue”, afirmou.

A marcha também foi marcada pela forte presença de lideranças comunitárias. Marizete Pires, do projeto Mulher por Mulher, do Subúrbio Ferroviário de Salvador, liderou um grupo que cobrou mais investimentos públicos em políticas para mulheres e rigor na apuração dos casos de feminicídio, que atingem de forma ainda mais brutal mulheres negras das favelas e periferias.

“Essa luta é de toda a sociedade. Precisamos punir os feminicidas, qualificar os serviços da rede de atenção, proteger meninas e jovens e garantir que as políticas cheguem aos territórios periféricos. Exigimos que parem de nos matar”, declarou Marizete.

O ato ocorre em um cenário alarmante no país. O Brasil registrou aumento nos casos de feminicídio entre 2020 e 2024, atingindo um número recorde em 2024, desde a tipificação do crime, em 2015. Os dados constam em relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e de outras fontes oficiais.

Em 2024, o Brasil registrou uma média de quatro mulheres mortas por dia em razão de gênero. O número de tentativas de feminicídio também cresceu, chegando a 3.870 casos, um aumento de 19% em relação a 2023. A maioria das vítimas era de mulheres negras, representando mais de 60% dos casos, e tinha entre 18 e 44 anos, faixa etária que corresponde a cerca de 70% das vítimas.

Os dados revelam ainda que aproximadamente 64% dos crimes ocorreram dentro da residência da vítima e, na maioria das vezes, o agressor era o companheiro ou ex-companheiro. Atualmente, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de países que mais matam mulheres em razão de gênero.

A marcha reforçou que o enfrentamento à violência de gênero exige políticas públicas efetivas, fortalecimento da rede de proteção e escuta das mulheres das favelas e periferias, que seguem na linha de frente da luta por justiça, vida e dignidade.

fonte: https://www.anf.org.br/mulheres-ocupam-as-ruas-de-salvador-contra-a-violencia-de-genero-e-o-feminicidio-nas-periferias/