Historicamente, o 8 de março é uma data marcada pela luta das mulheres por direitos e contra retrocessos. Neste dia, mais uma vez, denunciamos a forma do governo Bolsonaro segue operando sua necropolítica e os impactos na vida de nós mulheres.

 

Se no início de 2019 tínhamos certeza dos desafios e retrocessos que viveríamos no decorrer desses anos, certamente não imaginávamos que seria tanto. No Brasil já são mais de 262 mil pessoas mortas pelo vírus da Covid-19, uma pandemia que desde o início se mostrava mortífera e que seria necessário a ação rápida dos governos para que seus efeitos devastadores fossem minimizados. Não foi o que vimos no Brasil. Aqui, imperou o negacionismo, descrédito na ciência, notícias falsas, afrouxamento do isolamento social.

 

Diante de tamanha crise sanitária, ambiental e política, temos um governo que opera como um estado miliciano, militarizado à serviço do ultraneoliberalismo. Um governo que investe, fortemente, em armar os seus ao invés de cuidar e atender quem necessita de assistência do Estado. Este transforma-se em uma máquina de matar corpos que não importam. A inércia é também ação de morte, mais um exemplo amargo da necropolítica do Estado que vê no vírus uma potente arma de extermínio.

 

Não cuidar do povo se reflete visivelmente e especialmente no Norte do país. Em 2020, o Amapá padeceu com mais de vinte dias sem energia , sucedido com o colapso da saúde no Amazônia e nesse momento o Acre está debaixo d’agua, deixando critico o controle não só da pandemia, mas falta total de serviços básicos, alimentos e moradia para a população.

 

Não cuidar do povo se reflete ainda nos dados do início deste ano do ministério da Cidadania que apontam que quase 40 milhões de brasileiros e brasileiras vivem na extrema pobreza no país, e com o fim desde dezembro da parcela do Auxílio emergencial, Já reduzido pela metade, nas últimas parcelas, dos R$ 600 reais aprovados no Congresso Nacional em julho. E com isso milhões de brasileiras e brasileiros entram para o grupo de total desamparo do estado nos próximos meses, fazendo soar os alarmes de um país que volta ao mapa da miséria e da fome após décadas de luta incansável dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada para medidas efetivas de enfrentamento à pobreza e à miséria.

 

Não cuidar do povo é assistir o aparente descontrole do Ministério da Saúde na gestão da pandemia, que de abril a agosto de 2020, nem 30% tinham sido gastos, dos 18 bilhões destinados ao governo como recurso emergencial para a saúde, obtidos via emendas pelo Congresso Nacional. Isso diante de recursos já reduzidos de investimento em saúde pela Emenda Constitucional 95 (aprovada durante o governo golpista de Temer) que congela por 20 anos o investimento em saúde e educação. Nem a crise sanitária desencadeada pela chegada do Covid-19, que evidenciou a necessidade de investimento em pessoal, leitos, equipamentos, medicamentos, enfim, de toda rede pública de saúde foi capaz de sensibilizar o governo Bolsonaro e seus representantes no Congresso Nacional, no judiciários e nos governos locais para a revogação desta medida que tem sentença correndo no STF.

 

Temos motivos de sobra para alimentar a luta pelo fim do governo de Bolsonaro e Mourão. A inoperância do governo Bolsonaro fez explodir a segunda onda de contágio do vírus. Assistimos o aumento vertiginoso do número de pessoas infectadas,  uma nova cepa do vírus e vivemos o cotidiano trágico de mais de mil mortes diárias. Na última semana, o Brasil bateu um recorde desolador: uma pessoa morta a cada 45 segundos, 1.910 mortes em 24 horas.

 

Esse cenário contribui e muito para o aumento das violações dos direitos das mulheres e meninas, expressos em diversas áreas de suas vidas e deixando marcas nos seus corpos enquanto enfrentam uma pandemia de Covid-19, sem apoio do Estado Brasileiro. O aumento da violência contra as mulheres foi o primeiro grande efeito da pandemia tendo o isolamento social confinado os próprios agressores dentro das suas casas. “Se o espaço de casa é um ambiente seguro contra o vírus e para muitas pessoas, para muitas mulheres pode significar um lugar de violência e medo”.

 

Com o aprofundamento da crise política, social e econômica, as mulheres arcam maiores índices de aumento de desemprego e sentem de imediato a queda na renda familiar. Ao mesmo tempo, aumenta a intensidade da carga de trabalho reprodutivo, não reconhecido e não pago, com os cuidados da casa e das pessoas adoecidas, como mostra a pesquisa “Sem parar – o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”. São mulheres as que ficam fora do mercado de trabalho remunerado, mesmo o informal e, sem seguridade social.

 

Assim, denunciamos também a intencionalidade de uma política pública patriarcal que prega o desmonte de serviços públicos para que as “famílias” se ocupem do cuidado de seus integrantes.

 

As mulheres e meninas têm outros papeis sociais a cumprir para além cuidem solitariamente, como tarefa única e exclusiva e não remunerada da saúde, da educação e do bem estar da população. O cuidado como valor transforma-se intencionalmente em ônus e sobrecarga para as mulheres.

 

E mesmo com cenário estarrecedor, chegamos neste 8 de março lutando pela vida de todas as mulheres, reafirmamos nossa força de seguirmos juntas pelo propósito de autonomia e liberdade com os direitos de todas, todos e todes garantidos.

 

Durante esse período honramos muitas companheiras ativistas que deram a vida por essas ações e nos colocamos em luto com as famílias de todas e todos aqueles cujas vidas foram ceifadas pelo vírus.

 

Rejeitamos essa premissa e vamos seguir em resistência, resilientes, para a construção de caminhos alternativos de exercer a política para que seja ela de fato feminista, radical, antirracista e cidadã, para todas e todos.

 

Nossas lutas não são menores e específicas, nossas lutas são por autonomia, liberdade e igualdade de todas, como bem expressam as mulheres indígenas “Território: nosso corpo, nosso espírito”!

 

Nos juntamos às trabalhadoras rurais sem-terra em seu grito de fúria contra um Estado capitalista-proprietário, patriarcal e fundamentalista que segue tentando nos conter, nos amarrar, nos violar e nos explorar. Sim, como elas dizem, estamos enfurecidas e com essa energia de revolta seguiremos em luta por uma vida livre de opressão e para barrar este governo de morte!

 

Salve o 8 de março! Que hoje as nossas forças se renovem, se potencializem, que gerem condições de sermos todas e cada uma de nós livres, tenhamos direitos garantidos e possamos Bem Viver.

 

 

 

   
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