Ambiente competitivo e excludente no bacharelado influencia mulheres a preferirem a licenciatura, cuja presença feminina fortalece rede de alianças

  Publicado: 15/06/2023

 

Texto: Danilo Queiroz

Arte: Joyce Tenório

 

Apesar do aumento do ingresso de mulheres no ensino superior, a presença feminina nos cursos de graduação em matemática e estatística ainda é minoritária. A questão fica ainda mais alarmante quando associada à cor da pele. Embora mais da metade da população brasileira seja autodeclarada preta e parda, as mulheres negras são as mais sub-representadas nas ciências exatas. No bacharelado, a desigualdade é ainda mais presente, como mostra um artigo publicado pela Comissão de Gênero e Diversidade, da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), em parceria com a Associação Brasileira de Estatística (ABE). 

Intitulado Sexo e Raça em Matemática, Matemática Aplicada e Estatística: perfil de estudantes na graduação, o artigo teve como objetivo traçar o perfil de estudantes do ensino superior em matemática, matemática aplicada e estatística, seguindo os critérios definidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em relação às variáveis sexo (masculino e feminino) e raça ( amarela, branca, indígena, parda e preta, além das opções “não quis declarar” e “não dispõe de informação”, ou seja, desconhecida). Os dados foram extraídos do Censo da Educação Superior (Censup) – vinculado ao Ministério da Educação (MEC) – entre os anos de 2009 e 2019.

“Na minha época, já havia mais homens que mulheres na estatística, por exemplo. Hoje, apesar do avanço do público feminino nas universidades, ainda somos poucas nas ciências exatas”, observa Gisela Tunes, professora do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP. Ela é  uma das autoras do estudo e destaca a importância de mais mulheres pesquisadoras e professoras como  inspiração para as vestibulandas seguirem nessas carreiras.

“Ter uma professora de cálculo me marcou muito. Era uma disciplina que reprovava demais. Enquanto mulher, eu tinha que me provar mais. Ter uma orientação feminina foi necessário para que eu não desistisse.” Gisela Tunes se reconhece como mãe-solo, professora e pesquisadora em bioestatística, ramo da ciência que avalia o tempo de duração esperado até a ocorrência de um ou mais fenômenos, como morte de organismos vivos.

Gisela Tunes - Foto: Arquivo pessoal

Uma outra proposta do estudo foi orientar políticas públicas e universitárias mais direcionadas na atração do público feminino para as ciências exatas. “Aqui no IME, nunca tivemos uma mulher na direção. Apesar disso, nós nos organizamos por meio de um coletivo [Coletivo Mulheres do IME] e não admitimos mais bancas sem a presença de, pelo menos, uma mulher”, ressalta Gisela. “Por isso, acreditamos que o material auxilie na construção de medidas baseadas em equidade de gênero”, complementa.

“Feito a várias mãos”

O trabalho reúne uma grande massa de dados não sensíveis – ou seja, as pessoas não conseguem ser identificadas –, dispondo de categorias como: situação dos estudantes (ingressante ou formado), tipo de curso (bacharelado ou licenciatura), faixa etária e modalidade de ensino (presencial ou a distância). Por isso, as organizadoras da pesquisa resolveram dividir o estudo em algumas etapas, a fim de obter resultados mais precisos. Segundo elas, “o trabalho foi costurado e feito a várias mãos.”

Primeiramente, coletou-se todos os dados disponíveis pelo Censusp no período. Em seguida, os dados foram filtrados com base nos cursos desejados (matemática, matemática aplicada e estatística) e em relação à situação dos estudantes, com o objetivo de mensurar a porcentagem de ingressantes e concluintes. Essa segunda etapa foi realizada pela Sigma Jr., empresa júnior do curso de Bacharelado em Estatística da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), localizada no Rio Grande do Sul, sob a orientação de Renata Guerra, professora da mesma universidade.

No gráfico é possível perceber as discrepâncias que há no bacharelado ou na licenciatura em virtude das diferenças de gênero – Fonte: extraído do artigo

Depois, as pesquisadoras associadas à SBM, SBMAC e à AEB, cruzaram os dados por meio de uma análise descritiva para que pudessem avaliar as intersececções entre sexo e raça no perfil de estudantes. O cruzamento possibilitou mensurar que na estatística a proporção de mulheres formadas passou de 17% (1970) para 47% (2000) e na matemática, de 39% (1970) para 60% (2000). Os números resultaram em um banco de dados único, que auxiliou na construção dos gráficos.

De forma geral, também foi possível perceber que o número de estudantes ingressantes supera o número de formados. A amostra populacional do estudo foi composta por 385.196 pessoas. E o número de formandos resultou em 100.303. A pesquisa não teve como proposta mensurar o gênero e a raça mais impactadas por fatores limitantes, como a evasão escolar.

Estereótipo de mulher cuidadora

O estudo mensurou os níveis de sub-representatividade nas ciências exatas a depender do gênero e raça:

  • O porcentual de ingressantes mulheres flutua em torno de 40%, sendo menor quando comparado ao dos homens. A participação feminina nesses cursos se manteve estável, sem nenhum avanço expressivo; 
  • A proporção de mulheres ingressantes em bacharelados é ainda mais baixa, revelando um decréscimo de 39% (2009) para 28% (2019). A cada ano, a participação no bacharelado vem se reduzindo;
  • A raça preta apresentou menores níveis de participação quando comparada à proporção geral de mulheres nos cursos analisados; 
  • Houve um crescimento maior no grupo de pretos e pardos nos cursos de licenciatura. Os porcentuais passam de 11 e 8 pontos em 2009 em bacharelado e licenciatura, respectivamente, para 27% e 40% em 2019.

O estudo foi importante para comprovar o que por muito tempo era apenas um achismo: as mulheres preferem seguir carreira na licenciatura do que no bacharelado. Segundo Gisela, isso por conta de um ambiente competitivo e excludente, diferentemente da licenciatura, que, por ter mais mulheres, cria uma espécie de rede de alianças. “Com o tempo, temos percebido o decréscimo da participação feminina no curso de Estatística, assim como ocorreu com o curso de Ciências da Computação, hoje também ocupado predominantemente pelos homens”, observa. “Possivelmente esse comportamento pode estar associado à importância atribuída pelo mercado às ciências de dados, por exemplo”, acrescenta. No artigo é possível perceber o decréscimo da participação feminina nesse curso a partir de 2013, quando há um desequilíbrio no número das ingressantes e formandas.

Nos gráficos é possível perceber o decréscimo que há na participação feminina no bacharelado quando comparado ao curso matemática-professor, ou seja, a licenciatura - Fonte: extraído do artigo

Outro fator associado, de acordo com ela, é o estereótipo de mulher cuidadora, reforçado pelo exercício da docência, sobretudo na educação básica. “O ensino está relacionado com o cuidado. E, na nossa sociedade, o cuidado é feminino e reproduzido, inclusive, na cultura do brincar”, critica.  “No meu caso foi diferente. Sou filha de professores, que sempre me incentivaram a gostar de matemática e que foram responsáveis por me apresentar o curso de Estatística. Eu brincava de boneca, mas também adorava jogos de montar blocos e desenvolver raciocínio”, relembra.

O artigo constatou, também, o avanço expressivo das pessoas que se autodeclararam pretas, pardas ou indígenas ao longo dos anos. Uma das possíveis causas para essa mudança de perfil é o fortalecimento dos movimentos identitários que, em algum grau, conseguiram romper com a categoria “não quis declarar”.

Os dados revelam a baixa adesão de participação de pretos, pardos e indígenas nos cursos aplicados - Fonte: extraído do artigo
 

Mulher, negra e matemática

Orgulhosa por ser uma mulher negra e recém-ingressante no curso de Licenciatura em Matemática no IME é Melissa Helena. Apesar de nunca ter tido o desejo em seguir nessa carreira, ela conta ao Jornal da USP o quanto a presença de uma professora negra de física a inspirou a seguir na matemática de forma corajosa. “Mesmo assim, por eu ser uma mulher negra, eu sempre acabo precisando provar mais da minha capacidade. É assim comigo e com os meus outros quatro colegas negros da turma, sendo três mulheres contando comigo”, pontua.

Melissa Helena - Foto: Danilo Queiroz

“Quando tenho dificuldade em algum conteúdo, as meninas estão sempre disponíveis para me ajudar, criando uma espécie de ambiente seguro. Não só em relação a isso, mas também em relação às questões pessoais. Eu vim de outra cidade, tenho que estudar, trabalhar e conciliar isso sem prejudicar minha saúde mental. Por ser uma mulher negra, a cobrança recai ainda mais. Por isso, a importância do Centro Acadêmico e dos coletivos estudantis no processo de integração e pertencimento.”


O que mais chamou atenção de Milena foi a didática da professora. “Nossa! As aulas eram tão fantásticas que eu passei a me enxergar fazendo o mesmo. Apesar de ser a única, ela era a minha referência”, relembra ela, que sonha em dar aula no ensino médio. “Acredito que é uma etapa da educação básica bastante desafiadora. Ao mesmo tempo que você precisa aperfeiçoar o ensino, precisa também ter o cuidado de ouvir os estudantes no processo turbulento dos vestibulares”, diz.

Por ser mulher, Melissa comenta o impacto que discursos como ‘você é maluca em cursar matemática’ causa, e influencia o público feminino a optar por outras carreiras. “Com os homens isso não acontece, pois foi criada uma ideia de que eles possuem as habilidades para estarem lá. No nosso caso, perdemos muitas matemáticas para a pedagogia, curso predominantemente feminino e associado ao cuidado”, alerta.

fonte: https://jornal.usp.br/diversidade/bacharelado-em-matematica-e-mais-desigual-para-mulheres-negras/

 


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