Agências de fomento não são claras quanto ao direito à licença, o que acarreta a interrupção de bolsas – e de carreiras promissoras. Além disso, há o “efeito-tesoura”: a contínua queda da presença feminina nos postos mais elevados da pesquisa

 


Ilustração: Carvall

Por Amanda Gorziza, na Piauí

A bióloga Camila Ribeiro sabia que a chegada da pequena Maria Alice afetaria sua rotina de produção do doutorado em ciência animal na Universidade Estadual de Londrina, mas não achou que as dificuldades seriam tantas. Não pôde deixar de pensar no que ouviu de um professor do mestrado, antes mesmo da gestação. “Não vai engravidar, hein? Se você engravidar, não vai conseguir conciliar a pesquisa com a maternidade.” Comentários assim, lembra, eram apenas para mulheres. Os homens que tiveram filhos não tinham problema algum. Na época, o professor chegou a questionar o casamento de Ribeiro, alegando que ela não teria tempo para escrever a dissertação. “Esse foi um dos motivos que me fizeram mudar de área no doutorado. Eu não queria mais continuar naquele laboratório”, desabafa.

Agora a bebê tem 11 meses. Ribeiro passa o dia envolvida com a criança. Não tem babá nem quem a ajude. O marido é veterinário e trabalha durante o dia. À noite, quando a pequena dorme, é o momento que tem para se dedicar à tese. Isso se a menina não acordar querendo mamar. “Tem dias que é uma luta me dedicar à pesquisa, porque já estou cansada, às vezes sem dormir direito”, afirma. Além da dificuldade de conciliar a maternidade com a pesquisa, Ribeiro não recebe mais a bolsa de estudos da Capes. De acordo com a Lei 13.536, toda bolsista tem direito a até 120 dias de licença-maternidade que permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas. Entretanto, não foi isso que aconteceu com a doutoranda, que recebeu a última parcela em fevereiro deste ano, quando Maria Alice tinha oito meses. 

 

 

“Eu achei que a bolsa seria prorrogada até junho, que é meu prazo final, mas não foi o que aconteceu”, diz. Uma semana após o nascimento da bebê, ela enviou a certidão de nascimento no portal do estudante de pós-graduação e deu entrada na licença-maternidade. Pressupôs que a prorrogação da bolsa fosse automática, mas, ao término da licença, foi à secretaria do programa e consultou o aplicativo da Capes – e as duas instâncias confirmaram o encerramento da bolsa no início do ano. A UEL informou que houve uma falha de comunicação entre a aluna e a coordenação do programa de pós-graduação, que não enviou a documentação no prazo para que houvesse o pedido de prorrogação da bolsa da Capes.

Sem a bolsa de estudos, o marido de Ribeiro é quem paga as contas da família. Recorrer a um emprego não é uma opção para ela no momento, pois seu foco é terminar a tese. Na última semana, o casal passou por mais um contratempo: a placa do aparelho de ultrassom que o marido de Ribeiro utiliza para fazer exames em animais queimou, o que o impede de trabalhar.

Além de Ribeiro, há vários relatos em grupos de bolsistas no Facebook de mães mestrandas e doutorandas que não conseguem se manter na pesquisa em função da pressão da produtividade e de docentes descredenciadas de programas devido à queda de publicações. Em parte, isso acontece porque os critérios de avaliação flexibilizando questões relacionadas à maternidade não são claros por parte das instituições de fomento, e os documentos de avaliação de áreas de conhecimento disponibilizados pela Capes apresentam pouquíssimas menções a esse assunto. Das 49 fichas de avaliação da Capes, documento que apresenta o método de avaliação dos programas de pós-graduação, somente oito (ou 16%) fazem menção à maternidade e flexibilizam alguns dos critérios. São elas: ciências biológicas II, direito, administração pública e de empresas, ciências contábeis e turismo, economia, sociologia, antropologia/arqueologia e ensino interdisciplinar. A área de educação menciona licença de forma geral, mas não especifica a maternidade. As outras quarenta áreas (ou 82%) não adotam em seus documentos de avaliação nenhuma ação relacionada à maternidade. Esses dados foram coletados e analisados pela organização Parent in Science, que tem como objetivo discutir a parentalidade no ambiente acadêmico.

Em janeiro deste ano, a organização enviou uma carta para a Capes solicitando a inclusão de um campo de preenchimento exclusivo para licença-maternidade, paternidade e adotante na Plataforma Sucupira, que reúne informações de discentes e docentes de pós-graduação no Brasil. O Conselho Técnico Científico da Educação Superior do órgão se reuniu em março e aprovou as adequações técnicas na plataforma, que já se encontra disponível. Em 2021, o Parent in Science também foi essencial para que o CNPq criasse um espaço no currículo Lattes para registrar o período de licença-maternidade.

Entretanto, a maioria das coordenações de áreas da Capes não têm medidas institucionais para utilizar tais informações. Isso é importante para deixar explícito para quais situações a licença maternidade será passível de flexibilização nos métodos de avaliação, afirma a fundadora do Parent in Science e professora de biologia da UFRGS Fernanda Staniscuaski. “Não adianta ter a informação da licença se continuarem descredenciando professoras devido à queda de produtividade ou contabilizando no tempo médio de titulação de alunas o período da licença.”

 

Staniscuaski defende que mães docentes não sejam desligadas dos programas de pós-graduação. “Há casos em que coordenadores de programas informam que não irão considerar a produtividade de professoras na maternidade, mas fazem isso desligando-a do programa. O ideal seria que, a partir da informação de licença agora disponível na Plataforma Sucupira, as métricas da docente fossem desconsideradas no cálculo do PPG”, diz a coordenadora do Parent in Science.

A piauí procurou a assessoria da Capes, que informou que embora a ficha de avaliação do quadriênio 2021-2024 não possa ser alterada, a diretriz do conselho técnico às coordenações das áreas é que “as informações sobre licença parental informadas na Plataforma Sucupira, de discentes e docentes, devem ser consideradas, no que couber, na avaliação dos vários aspectos do desenvolvimento do programa ao longo do ciclo de avaliação”.

O Parent in Science surgiu a partir da vivência de Fernanda Staniscuaski com a maternidade na ciência. Com uma carreira promissora na biologia após ter sido aprovada em um concurso para docente na UFRGS aos 29 anos, alguns planos acadêmicos foram interrompidos quando a professora teve seu primeiro filho. Naquela época, já havia ganhado diversos editais do CNPq para financiamento de pesquisas, mas Staniscuaski começou a sentir os impactos logo após voltar da licença-maternidade. Em função da mudança da rotina, que incluía o cuidado de um bebê, ela passou a publicar menos artigos. Essa prática é tida como essencial pelas instituições para concessão de verbas para pesquisa. Todos os editais seguintes a que a professora se candidatou foram recusados sob a justificativa de baixa produtividade. O último ano que ela recebeu fomento para pesquisa do CNPq foi 2014. “Eu sabia que ter um filho teria um impacto, mas não me parecia justo que esse impacto fosse tão grande a ponto de me tirar da ciência. A gente entra num círculo: eu produzo menos, então passo a ganhar menos dinheiro e com menos dinheiro vou produzir menos. É muito difícil sair desse círculo.”

Conversando com amigas pesquisadoras, Staniscuaski percebeu que não era a única passando pela mesma situação. O Parent in Science surgiu em 2016 reunindo jovens docentes e pesquisadores que tentavam conciliar a carreira acadêmica e o cuidado com os filhos. Inicialmente eram sete pessoas: seis mães e um pai. Hoje o movimento conta com mais de noventa cientistas de todo o Brasil – e tem como intuito discutir o impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e homens. O movimento defende a implementação de políticas públicas que estimulem a reentrada de mães na pesquisa para que elas possam voltar a se dedicar à carreira acadêmica. 

As percepções de muitas mães que participam do grupo se refletem em um estudo recém-publicado na revista Nature por integrantes do Parent in Science. A pesquisa mostra como a discriminação contra pais e mães na área científica afeta as mulheres de maneira mais significativa. Ser mãe continua sendo um fator determinante na redução da participação feminina no mercado de trabalho científico, devido a estereótipos e concepções equivocadas sobre a maternidade na sociedade. 

Enquanto 63% dos pais docentes concordam completamente que ter filhos não mudou a percepção de seus colegas e superiores sobre seu comprometimento ou competência no trabalho, apenas 35% das mães têm a mesma opinião. Além disso, homens com filhos concordaram plenamente que tiveram tanto acesso a oportunidades profissionais quanto seus colegas em uma taxa mais alta (72%) do que mulheres com filhos (43%). “Esse preconceito de gênero pode ser considerado uma microagressão, tendo consequências negativas no desempenho e permanência da mulher na academia, afetando não só a autoconfiança das mães, mas também um bem muito valioso: sua avaliação na univesidade”, afirma a pesquisa.

A doutoranda em educação escolar pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Talita Perussi também foi alvo de críticas de professores por ser mãe no ambiente acadêmico – mas em dobro. Ela teve duas gestações no doutorado: a primeira, em 2019, logo quando entrou no programa, e a segunda em 2022. Durante uma disciplina, um professor olhou para a barriga dela e falou: “O que você tá fazendo aqui? Não era para você estar aqui. Como você passou na entrevista?”

Bolsista da Capes, Perussi teve seu benefício prorrogado em função das licenças-maternidade, diferente de Camila Ribeiro. Logo após o retorno da primeira licença, a doutoranda precisou ir a campo para coletar as informações de sua pesquisa, pois havia um prazo estipulado no comitê de ética. A coleta de dados foi realizada a partir de uma formação para educadores sociais, com aulas ministradas pela própria doutoranda. Nesse período, o bebê, que estava com 4 meses, ainda mamava e acompanhou a mãe nas aulas, junto de uma cuidadora. “Eu parava a formação na metade, saia da sala para amamentar, e depois voltava para continuar a aula”, relata.

O programa em que Perussi estuda exige que o estudante submeta três artigos científicos e compareça a quinze congressos com a apresentação de trabalho ou como ouvinte. Agora com dois filhos, a ida a congressos se torna mais trabalhosa, pois envolve viagens para outras cidades e uma rede de apoio para cuidar das crianças. “Não existe espaço para amamentação e troca de fraldas nesses eventos”, afirma.

Perussi enfrentou a pandemia da Covid com um bebê recém-nascido, uma nova gestação e o projeto de doutorado. “Foi desesperador porque eu passava o dia cuidando do meu filho e só conseguia me dedicar à tese à noite”, afirma. Em 2023, depois de uma longa fila de espera, a doutoranda conseguiu vaga para os filhos na creche da universidade. “O meu Lattes é um antes dos bebês e outro depois da chegada deles. Dá para ver o declínio que chega a ser assustador. O tempo de produção é diferente depois que se é mãe.”

Para obter financiamento para sua pesquisa, é comum que os pesquisadores passem por avaliações de produtividade. Por isso o período de afastamento para cuidar de um bebê gera uma lacuna que pode levar até quatro anos para ser recuperada, mostra estudo da Parent in Science. “Os mecanismos da ciência brasileira prezam por uma produtividade indistinta, o que gera uma espécie de competição por quantidade em que a interrupção de alguns meses pode ser definidora”, afirma o sociólogo Luiz Augusto Campos.

Além da maternidade ser um entrave para cientistas e muitas vezes colocar mulheres fora do sistema, há outra tendência de desigualdade de gênero na universidade: o efeito-tesoura. Esse movimento é caracterizado pela redução de mulheres na ciência em cargos mais elevados e, mesmo quando há doutoras disponíveis, elas são sub-representadas na docência. Um levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa/Iesp-Uerj), apoiado pelo Instituto Serrapilheira, mostra a dimensão desse fenômeno no Brasil. 

A área de astronomia/física tem 26% de doutoras, mas apenas 15% de professoras. Para além do efeito-tesoura, há uma baixa presença de mulheres em geral nessa área tanto no Brasil quanto em outros países. Já a área de economia tem 37% de doutoras, mas apenas 20% mulheres docentes. Nas ciências biológicas, há paridade de gênero entre docentes, com quase 50% de mulheres professoras em programas de pós-graduação. Porém esse percentual ainda é inferior à quantidade de doutoras na área (65%). Mesmo em áreas predominantemente femininas, elas também enfrentam obstáculos na ascensão acadêmica. 

Como explica Luiz Augusto Campos, coordenador do Gemaa, a menor participação de mulheres em determinados espaços científicos ocorre desde a discriminação no próprio ambiente acadêmico até a autoexclusão, como mulheres que não se consideram aptas o suficiente para determinadas áreas. 

Esses dados fazem parte de uma pesquisa maior que busca entender os processos de reprodução de desigualdade de gênero e raciais no ambiente científico. “A ciência depende muito da criatividade, do pragmatismo e da pluralidade. Quando a gente isola sistematicamente mulheres em geral ou mulheres negras, por exemplo, não estamos apenas reduzindo a diversidade e aumentando a desigualdade na ciência, mas também prejudicando o seu próprio funcionamento. Agendas de pesquisa vão ficar pelo caminho e novas descobertas acabarão não sendo feitas”, afirma Luiz Augusto Campos.

Mesmo com o preconceito de ser mulher e mãe durante o doutorado imposto a Talita Perussi, ela tem o apoio das colegas que também são mães. “Quando aquele professor diz que esse não é o meu lugar, ele está completamente enganado. É meu lugar, sim! Ciência é lugar de mãe também”, afirma.


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