Encontro debate combate à fome, agroecologia e direitos em celebração dos 30 anos do movimento

Nesta segunda-feira (11), o Centro Comunitário Athos Bulcão, da Universidade de Brasília (UnB), recebeu a abertura do 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). O evento reúne cerca de 1.200 camponeses e camponesas de 20 estados brasileiros para marcar os 30 anos de trajetória de um dos principais movimentos populares ligados à defesa da soberania alimentar, da agroecologia e do abastecimento popular no país.
Com o tema “30 anos de luta e afirmação camponesa, construindo soberania alimentar e nacional”, o encontro segue até quarta-feira (14) debatendo estratégias para enfrentar a fome, a crise climática e o avanço do agronegócio sobre os territórios camponeses. A programação também inclui mesas sobre feminismo camponês, diversidade, abastecimento popular e articulações internacionais.
A abertura foi marcada por homenagens que resgataram a trajetória do movimento e emocionaram os participantes ao lembrar Frei Sérgio Görgen, liderança histórica do MPA, que faleceu em fevereiro deste ano. Referência da Via Campesina, Frei Sérgio foi lembrado como um dos principais formuladores do Plano Camponês e defensor da soberania alimentar como instrumento de transformação social.
Mesa de abertura reúne lideranças populares e representantes de organizações sociais em Brasília. | Crédito: Comunicação/MPA
Isabel Ramalho, camponesa de Rondônia e primeira mulher a integrar a coordenação nacional do MPA, destacou que a soberania alimentar exige mudanças profundas nas estruturas econômicas e políticas do país.
Segundo ela, o encontro reafirma a necessidade de construir um novo modelo de desenvolvimento para o campo brasileiro. “Estamos aqui para construir o processo da soberania alimentar e do abastecimento popular nesse país. Isso significa mexer nas estruturas organizativas do nosso país, principalmente no que diz respeito ao campo, e construir um novo modelo em que a essência sejam as pessoas que trabalham”, afirmou.
Durante o encontro, o movimento reafirmou a importância da Missão Josué de Castro, um plano de ação elaborado em 2024 voltado ao fortalecimento do abastecimento popular. A proposta busca ampliar a articulação entre campo e cidade para estruturar redes de produção, logística e comercialização de alimentos saudáveis.
A iniciativa pretende enfrentar a fome e as desigualdades sociais a partir da agricultura camponesa, fortalecendo cooperativas, sistemas agroecológicos e formas coletivas de produção.
Trabalho, desigualdade e resistência
A presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recine, destacou a importância dos movimentos populares para a defesa da democracia e da justiça social diante do aumento das desigualdades e das violências no campo.
“Toda experiência popular vinculada à soberania, à igualdade e à justiça resiste a inúmeros desafios. Quando chega a um encontro como esse, merece reconhecimento, porque não é fácil resistir no cotidiano e enfrentar as violências do Estado e dos setores mais poderosos da política”, afirmou.
Elisabetta Recine participa da mesa de abertura do 4º Encontro Nacional do MPA. |
Crédito: Comunicação/MPA
Representando o governo federal, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, classificou o MPA como um dos principais formuladores de políticas públicas voltadas ao campesinato.
Machiaveli também aproveitou o encontro para ampliar o debate sobre as condições de trabalho no Brasil. “Nós precisamos combater a jornada 6×1 no nosso país. Não é mais possível que pessoas trabalhem de segunda a sábado e tenham apenas um dia para respirar e tentar se recuperar. Nós precisamos ter vida além do trabalho”, defendeu.
Internacionalismo e unidade popular
Representando a Via Campesina, Tatiane Paulino, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), afirmou que o atual cenário político exige fortalecimento das organizações populares e maior unidade entre os movimentos do campo, das águas e das florestas.
“O nosso dever enquanto organizações sociais é nos fortalecer e construir soberania dos povos, a emancipação e um projeto popular capaz de enfrentar as desigualdades”, comentou.
A solidariedade internacional também marcou a abertura com a participação de Ahmed Mulay Ali Hamadi, representante da Frente Polisário e da República Árabe Saaraui Democrática (RASD) no Brasil.
O representante compartilhou a experiência de resistência do povo do Saara Ocidental diante da ocupação marroquina e destacou a agricultura como instrumento de sobrevivência e dignidade em meio à guerra.
“Mesmo em meio à guerra, nosso povo cultiva o deserto para alimentar sua gente. Nas areias do Saara também nascem frutos de amizade e resistência”, declarou.
Representante Saaraui destaca resistência e soberania alimentar durante abertura do encontro. |
Crédito: Comunicação/MPA
Além dos debates políticos, o encontro conta com uma Feira Camponesa composta por cerca de 50 barracas com sementes crioulas, alimentos agroecológicos e produtos beneficiados por cooperativas ligadas ao movimento. A programação inclui ainda a Ciranda Camponesa, espaço pedagógico voltado às crianças do MPA Mirim.
O encerramento do encontro será marcado por uma sessão solene na quinta-feira (14), às 16h, na Câmara dos Deputados, em homenagem aos 30 anos do movimento.
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