As jornadas de autocuidado e cuidado coletivo são espaços seguros com tempos reservados para que cada participante possa se conhecer melhor, encontrar conforto, segurança, energia, prazer, proteção consigo mesma
Gabriela Fidelis e Guacira Oliveira - Cfemea 30/5/2026
“Resistência para mim
É me cuidar.
Militância para muitas é viver.
Cansei dessa conversa
De ter que agradar
Para merecer.
Eu quero é ser”.
Trecho da poesia Autocuidado,
de Cidinha Oliveira, em seu livro:
Quarta-feira.
O percurso tem ponto de partida no Laboratório Organizacional Feminista para Sustentação da Vida, uma experiência prática que propicia viver fora dos padrões hegemônicos da exploração, do individualismo, da competição e da exaustão. É ter “outras condições de temperatura e pressão” para vivenciar, experimentar, pensar-sentindo outras possibilidades de compartilhar a vida, de coletivamente prover a existência, de cuidar de si, do coletivo e do nosso planeta. Experimentar outros vínculos, imaginar e vislumbrar possibilidades fora da sentença do cada uma por si, realizar coletivamente outras possibilidades novas, inéditas, para sustentar a vida.

O Laboratório Organizacional Feminista para Sustentação da Vida do Distrito Federal e Goiás é o resultado de uma parceria entre o Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA e o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores Sem Terra – MST da regional do DF/GO/MG – RIDE. Aconteceu durante um tempo de 70 dias e nessa trajetória realizamos as jornadas de autocuidado e cuidado coletivo, que estão divididas em três ciclos durante todo o processo. Cada ciclo dentro da jornada acontece em dois dias consecutivos, abrindo um espaço necessário para recompor e oxigenar o processo do laboratório, ventilar as relações e fortalecer os vínculos coletivos com cuidado e outra qualidade na presença de cada mulher na experiência de criar juntas uma cooperativa feminista para sustentação da vida.
As jornadas de autocuidado e cuidado coletivo são espaços seguros com tempos reservados para que cada participante possa se conhecer melhor, encontrar conforto, segurança, energia, prazer, proteção consigo mesma e, sobre esta base de autoconhecimento, gerar outras possibilidades de se relacionar com as demais, reconhecê-las e ser por elas reconhecida, vivenciar o reconhecimento mútuo, a reciprocidade do cuidado, a satisfação da coletividade. Cada jornada acumula um tanto para a seguinte. Estar consigo mesma, ganhando mais consciência de si, é um passo importante para poder estar com a outra e reconhecê-la, e assim estabelecer limites confortáveis, prazerosos e seguros para as construções coletivas.
“…Vou seguir o meu caminho.
Quero mesmo
é pagar pra ver.
Ser livre como um passarinho.
Descolonizar,
Desaprender.
Meu corpo pode até
ser sonho capital,
mas minha mente
ninguém vai prender”.
Trecho da poesia Autocuidado,
de Cidinha Oliveira, em seu livro:
Quarta-feira.
A vivência das jornadas de cuidado acontece a cada encontro entre as mulheres que agitam suas águas para despertar a atenção interna de cada uma, conectadas por uma atmosfera coletiva, ressonante e vibrante de segurança que faz confiar no processo de entrega, presença e do reconhecimento para florescer autoconhecimento. É uma andança que se inicia com passos suaves, pedindo licença às histórias vivas e pulsantes no corpo de cada mulher que diz: Eu quero conhecer… Eu quero cuidar… Eu quero proteger … Eu quero curar… Eu quero viver…

No primeiro passo da jornada, olhamos para trás como quem pega fôlego para girar a cabeça em torno de si mesma, num giro coletivo de mãos dadas, com os pés no chão, convidando quem veio antes de todas nós a se fazer presente como vozes que guiam o movimento da continuidade. Em seguida, abrimos os trabalhos inaugurando o varal do reconhecimento e da ancestralidade camponesa com diversas lideranças, referências na luta pela terra, pela reforma agrária no Brasil e na América Latina. Fazemos uma caminhada olhando cada foto e cada história inspiradora de mulheres que marcaram a história de ontem, de hoje e do porvir, nos convidando a firmar agora os passos para a caminhada com momentos de muitos sorrisos, para reconhecimento das companheiras conhecidas das lutas e do movimento comum, das memórias de momentos que viveram juntas ou que impulsionaram organizações em outros territórios. Nos surpreendemos com aquelas não conhecidas até então e que vão sendo apresentadas e visibilizadas naquele ato de cuidado ancestral.
Convidamos as mulheres para nutrir a terra do nosso primeiro território, o de cuidado no corpo ancestral e político das mulheres: Mãe Bernadete, Rigoberta Menchú, Margarida Alves, Elizabeth Teixeira, Marina Silva, Rosa Amorim, Ana Primavesi, Roseli Nunes, Dandara, Tereza de Benguela, Berta Cáceres, Haydee Santamaría, Frida Kahlo, Tuíre Kayapó e todas as mulheres sem terra do MST, para serem as guardiãs da jornada de autocuidado e cuidado coletivo entre as mulheres do MST preservando as histórias do passado, do presente, do futuro, no agora que se faz no Centro de Educação Popular e Agroecologia Gabriela Monteiro, sítio Pé na Terra, do MST, Brazlândia - Distrito Federal.
“Vamos nos juntar e seguir com esperança, defendendo e cuidando o sangue da terra e os espíritos. O reconhecimento dos direitos das mulheres não é um favor: é uma obrigação do Estado.” Berta Cáceres, mulher, latina, indígena e liderança.

Meu corpo território de cuidado
É no corpo que tudo acontece, na casa ancestral onde está guardada a sabedoria da existência. Com atenção abrimos os olhos internos, ao fechar os olhos físicos para meditar, realizar exercícios de respiração, se abrir para alongar e movimentar o corpo com consciência. Aprendemos a nomear as experiências que o corpo nos oferece na jornada de cuidado, sentir e pensar os sentimentos, pensamentos, sensações e habitar lugares da imaginação e criatividade. As práticas de cuidado são convites para construção de autonomia plena e a cada tempo da jornada damos passos de encontro ao chão interno fértil e firme, de dentro para fora, de corpo inteiro, tudo vivo, pulsante e presente.
Cada corpo desenha e manifesta a sua própria respiração, toca no seu ar entrando e saindo do corpo, percebe seu movimento natural, espontâneo e dança com vivacidade e alegria as descobertas das emoções soltas a contar suas histórias. É a festa do corpo no movimento de existir com cuidado. A fala das histórias nascem junto as bonecas de papel, suas formas e coloridos refletem as cores do reconhecimento, de como cada mulher se vê. Adentramos o importante caminho da autodefinição, o que as mulheres acham e dizem sobre si mesmas, quem elas são?
Construímos a boneca EU SOU e nos despimos da vigilância permanente da opressão patriarcal e racista que impõe padrões e imagens dominadoras de controle sobre nossas vidas e corpos. Na jornada, levamos o EU para o centro da análise e da roda de cuidado para enxergar com nitidez quais são os pensamentos, as certezas e as definições de cada uma sobre si mesma e fazemos o exercício da autodefinição. Como sugere Patricia Hill Collins:
“a afirmação da individualidade não como mera afirmação verbal ou conversa (algo que fica no plano do discursivo) mas como uma ação concreta para autodeterminar a vida das mulheres”.
Autodefinições que promovem ação.
“Das mínimas liberdades que temos
tem uma que gosto de me apegar:
aquela de ser eu mesma,
não importa qual seja o lugar.
E lhe digo com sinceridade:
a preocupação anda pouca
- bem pouca!
De todo mundo querer agradar.
Liberdades, poesia de
Cidinha Oliveira.
Nas rodas de autocuidado e cuidado coletivo e jornadas de cuidado temos combinados valiosos que são exercitados nas partilhas realizadas em sequência às práticas de cuidado de sentir e pensar. O momento da fala circula entre aquelas que desejam expressar sua experiência na roda e convidamos cada mulher a falar na primeira pessoa quando for expressa suas próprias histórias, pensamentos, sensações e sentimentos próprios. Convidamos o EU para o centro da roda com atenção e cuidado coletivo para a escuta interessada e acolhedora, entendendo também o EU no contexto coletivo da família e da comunidade e não como separação das outras pessoas que integram o círculo de afeto e pertencimento, como Paule Marshall descreve: “A habilidade de reconhecer a continuidade de alguém em relação a uma comunidade maior. Focar no EU pessoal porque existe um EU mais abrangente. “Eu sou porque nós somos”, nos ensina a sabedoria Ubuntu. Ao invés de definir o EU em oposição aos outros, a conectividade entre indivíduos permite que as mulheres negras possam ter autodefinições mais profundas e mais significativas” e transcender o confinamento das opressões de raça, classe, gênero e sexualidade que se intersecionam. Assim, internalizando para externalizar a sua verdade sobre si mesma, a partir de uma consciência autodefinida enquanto uma esfera de liberdade.

Na prática da escuta cuidadosa e presente, esvaziada de julgamentos e aconselhamentos, cultivamos o ambiente interno e entre nós na relação de confiança, segurança que sustenta o campo energético da jornada e fortalece os vínculos políticos afetivos dentro do movimento de mulheres feministas, reconhecendo o autocuidado e cuidado coletivo como uma semente que alimenta o corpo das mulheres, gerando e renovando a força vital para mais coesão, cooperação e unidade na luta popular feminista e camponesa.
O vínculo é fortalecido na convivência e maior proximidade umas das outras, realizamos práticas de cuidado em duplas, sustentando o olhar, olhos nos olhos, coração com coração, formando uma linha conectiva através do contato visual, do toque com permissão, das mãos energizadas e da respiração sincronizada, conduzimos juntas um processo profundo de reconhecimento. Acolhimento de si mesma e das outras transmite confiança, alivia tensões e constrói apoio mútuo ao encostar uma costa na outra e soltar o corpo cuidando de si e sem sobrecarregar a outra. É criado um contato fino e delicado onde prestamos atenção a nossa respiração e da companheira e sentimos os movimentos dos corpos respirando juntos, no contato aprazível que ressoa a satisfação e o prazer de cuidado de si e cuidar da outra sem sobrecarga, sem obrigação, sem opressão. Por amor, com respeito e reconhecimento profundo do que somos juntas, somos mais fortes.
Temos transformado nós mesmas e as relações entre nós
A cada encontro, as mulheres se envolvem e se permitem mais nas práticas de cuidado, gostam muito dos conteúdos propostos. Superam dificuldades emocionais, de interação social e de limitações físicas momentâneas e permanentes. Participam de todas as atividades, se sentindo mais confiantes com o aprendizado do próprio corpo durante a jornada de cuidado. A interação nas atividades com todas unidas trás motivação, se encontram felizes, renovadas, motivadas e mais decididas. As mulheres relatam estarem dormindo melhor, melhorado o humor e reproduzindo também em casa os exercícios e práticas de cuidados diárias, trazendo benefício a saúde física, emocional, mental e igualmente ao controle físico.

A crescente consciência corporal estimula o autoconhecimento e traz as mulheres para a ação da prática da autorregulação emocional e física através do contato mais presente e atencioso com a respiração. A entrega total nas atividades propostas traz também retornos pessoais incríveis a cada uma das mulheres que garante e transparece livre, leve e solta o prazer que o autocuidado e cuidado coletivo possibilita e cultiva entre nós. Algumas afirmam ser quase um orgasmo de tão bom e relaxante. Relatam ter melhorado a diurese, a intimidade e o conhecimento das limitações do corpo, quebrando tabus e autoconfiança “perdendo a vergonha e se entregando”. Todas dizem da vontade de aprender mais, memorizar os exercícios e seguir praticando para também poder repassar o aprendizado e a experiência para outras mulheres.
Durante toda a jornada, composta por três ciclos, somando seis encontros durante os 70 dias de Laboratório, estabelecemos a Técnica de Redução de Estresse entre Mulheres, a TREM, como prática permanente realizada em todos os encontros da jornada de cuidado. A intenção foi que a TREM ficasse memorizada e experimentada de forma coletiva para que de forma autônoma cada mulher possa praticar em casa e no MST entre as companheiras de luta. Levar a TREM para a vida enquanto um recurso de autocuidado e cuidado coletivo e prática de forma autônoma e independente.
Durante a jornada de cuidado, a cada encontro, era oferecido dois espaços simultâneo para realização da TREM - um grupo que praticou a sequência de exercícios de pé e deitada e outro grupo que praticou a TREM sentada, direcionada para acolher necessidades de atenção e movimentos mais suaves, devagar e com adaptações importantes para cada corpo. Os dois espaços funcionaram conectados, trazendo alívio e abrindo espaços de segurança para relaxar o corpo, confiando no apoio e nos tremores com seus poderosos efeitos de liberação para permitir que o fluxo da vida siga naturalmente.
É na relação entre nós que tudo se experimenta. Celebramos a colheita. Celebramos a autotransformação e a transformação das relações entre nós, celebramos os aprendizados que o corpo trouxe a cada mulher, celebramos o sentir, celebramos nossas preciosidades garimpadas e reconhecidas em nós mesmas, celebramos o alívio que sentimos juntas através do cuidado com partilha e escuta das experiências vivenciadas, celebramos a criação coletiva e poderosa da varinha que faz circula o poder da fala e a certeza da escuta e emana entre nós confiança, amor compassivo, mobiliza a força do grupo, da cooperação, da realização, da generosidade, traz habilidade de conduzir processos, reunir esforços, energia de renovação e expansão. Celebramos a jornada de cuidado. Celebramos a nós mesmas, nossas amizades, nossas conexões, o carinho que buscamos e que recebemos de cada uma de nós. Na verdade, as mulheres não mais existiriam se não contássemos umas com as outras.
Reconhecemos o corpo território político de cuidado!
“Em silêncio, duas mulheres ensimesmadas sonham com uma cadeira de balanço sob a luz do sol. O stress delas é como o blues, como uma melancolia. Tem pés e dentes. Enquanto elas se balançam levemente, sempre devagarzinho, movendo-se suavemente para frente e para trás, o stress pisa de mansinho nos próprios joanetes e deixa as mulheres em paz. Elas tiram um cochilo. Doces sorrisos dão contorno às suas bocas; rugas em suas testas se alisam com suavidade. Elas sonham que caminham sobre a água, atirando flechas como faziam suas ancestrais que eram guerreiras. Esse balanço prossegue enquanto as mulheres continuam sonhando”. Opal Palmer Adisa






