"Cada um de nós é um momento, uma partícula da gigantesca e incrível aventura do Homo sapiens-demens. Essa aventura, que começou com o nascimento, a grandeza e a queda de impérios e civilizações, prevaleceu num devir em que tudo o que parecia impossível tornou-se possível, tanto para pior como para melhor. Um humanismo aprofundado e regenerado é necessário se quisermos também reumanizar e regenerar os nossos países, os nossos continentes, o nosso planeta", escreve o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, em artigo publicado por La Repubblica, 11-02-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "paradoxalmente, no preciso momento em que deveríamos tomar consciência de forma solidária da comunidade de destino de todos os Terrestres, sob o efeito da crise planetária e das angústias que ela suscita, refugiamo-nos por toda a parte nos particularismos étnicos, nacionais e religiosos. Vamos chamar cada um à necessária tomada de consciência e aspiremos à sua generalização para que os grandes problemas sejam finalmente tratados em escala planetária".

Eis o artigo.

Somos muitos, embora dispersos, que suportamos com cada vez maior dificuldade a hegemonia do lucro, do dinheiro, do cálculo (estatístico, de crescimento, PIB, pesquisas), que ignora as nossas verdadeiras necessidades como as nossas legítimas aspirações por uma vida que seja ao mesmo tempo autônoma e comunitária.

Somos muitos, mas separados e compartimentados, que desejamos que a trindade “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” torne-se a nossa norma de vida pessoal e social e não a máscara que encobre o aumento das servidões, das desigualdades e dos egoísmos. Nas últimas décadas, com a hegemonia da economia liberal globalizada, o lucro cresceu além da medida em detrimento da solidariedade e das convivências; as conquistas sociais foram parcialmente anuladas; a vida urbana degradou-se; os produtos perderam a sua qualidade (obsolescência programada, ou seja, defeitos escondidos); os alimentos perderam as suas virtudes: sabor e gosto.

Certamente, muitos oásis de vida amorosa, familiar, fraterna, de amizade, solidária e lúdica testemunham a resistência de querer viver bem. A civilização do interesse e do cálculo nunca poderá aniquilá-los. Mas esses oásis ainda estão demasiado dispersos e sem ligações entre si.

Contudo, eles se desenvolvem e sua conexão esboça o perfil de uma outra civilização possível.

A consciência ecológica, nascida da ciência do mesmo nome, mostra-nos a necessidade de desenvolver não apenas fontes de energia limpa e eliminar progressivamente as outras, incluindo a energia nuclear tão perigosa, mas também dedicar uma parte importante da economia à limpeza das cidades poluídas e à saúde da agricultura, reduzindo consequentemente a agricultura e a pecuária industrializadas – em favor da agricultura de pequenas propriedades e da agroecologia. Um formidável relançamento da economia feito nesse sentido, estimulado pelos desenvolvimentos de uma economia social e solidária, permitiria uma reabsorção significativa do desemprego, além de uma marcada redução da precariedade do trabalho.

Seria também necessária uma reforma das condições de trabalho em nome daquela rentabilidade que hoje produz a mecanização dos comportamentos, até a robotização, o burn-out, as doenças e o desemprego – o que diminui a tão almejada rentabilidade. Na verdade, a rentabilidade pode ser obtida não com a robotização dos comportamentos, mas com o pleno uso da personalidade e da responsabilidade dos trabalhadores. A reforma do Estado deve ser pensada não como uma redução ou aumento dos parâmetros de produtividade, mas sim como uma desburocratização, ou seja, uma comunicação entre departamentos, iniciativas e interações constantes entre os níveis gerenciais e executivos.

A reforma do consumo seria de importância capital. Permitiria uma seleção consciente dos produtos de acordo com as suas qualidades reais e não aquelas imaginárias alardeadas pela publicidade ou pelos influencers, levando assim a uma diminuição das intoxicações consumistas (entre as quais aquela automotiva ou alimentícia). Seriam então o sabor, o gosto, a estética que orientariam os consumos, que, ao se desenvolverem, reduziriam a agricultura industrializada, o consumo insípido e pouco saudável e, com isso, o domínio do lucro. O desenvolvimento de cadeias de abastecimento curtas, especialmente para os produtos alimentares, por meio de mercados e associações, promoveria a nossa saúde e restringiria a hegemonia das grandes áreas e dos produtos ultraprocessados. Por outro lado, a resistência contra produtos de obsolescência programada (carros, geladeiras, computadores, celulares, meias, etc.) favoreceriam um novo artesanato.

O incentivo ao comércio de proximidade humanizaria, além de tudo, consideravelmente as nossas cidades. O que faria, ao mesmo tempo, regredir aquela formidável força técnico-econômica que empurra para o anonimato, para a ausência de relações cordiais com as outras pessoas, muitas vezes dentro de um mesmo prédio. Os consumidores, ou seja, o conjunto dos cidadãos, também adquiriram poder que, na ausência de confiança mútua, resulta invisível para eles, mas que, uma vez esclarecido e tornado por sua vez esclarecedor, poderia determinar não apenas uma nova orientação para a economia (indústria, agricultura, distribuição), mas indicar possíveis caminhos para o crescimento do convívio.

Um novo processo civilizacional tenderia a restaurar formas de solidariedade locais ou a estabelecer novas - como a criação de casas da solidariedade nas cidades pequenas ou nos bairros das grandes cidades. Estimularia o convívio, uma necessidade humana primária, que inibe a vida racionalizada, cronometrada, votada à eficiência. Podemos redescobrir as virtudes do bem viver pelo caminho de uma reforma existencial.

Devemos reconquistar um tempo adequado aos nossos ritmos, que obedece apenas parcialmente à pressão cronométrica. Poderíamos alternar períodos (desgastantes) de velocidade com períodos (serenos) de lentidão. Vamos redescobrimos o sabor de uma vida tornada poética pela festa e pela comunhão nas artes, no teatro, cinema, dança. Para além da esfera da vida quotidiana, aspiremos fazer parte do mundo, tomemos consciência da nossa pertença à humanidade, hoje interdependente.

Vamos acreditar, como já dizia Montaigne no século XVI, que “todo homem é meu compatriota” e que o humanismo se dá como respeito a todo ser humano. As nossas pátrias, cada uma individualmente, fazem parte da comunidade humana. Os problemas e perigos vitais resultantes da globalização agora ligam todos os seres humanos numa comunidade de destino. Devemos reconhecer a nossa pátria terrena (que nos tornou filhos da Terra), a nossa pátria terrestre (que integra as nossas diferentes pátrias), a nossa cidadania terrena (que reconhece a nossa responsabilidade no destino terrestre). Cada um de nós é um momento, uma partícula da gigantesca e incrível aventura do Homo sapiens-demens. Essa aventura, que começou com o nascimento, a grandeza e a queda de impérios e civilizações, prevaleceu num devir em que tudo o que parecia impossível tornou-se possível, tanto para pior como para melhor. Um humanismo aprofundado e regenerado é necessário se quisermos também reumanizar e regenerar os nossos países, os nossos continentes, o nosso planeta.

A globalização, com as suas possibilidades e sobretudo os seus perigos, criou uma comunidade de destino para todos os seres humanos. Devemos enfrentar, nós todos, a degradação ecológica, a proliferação das armas de destruição em massa, a hegemonia das finanças sobre os nossos estados e os nossos destinos, o crescimento de fanatismos cegos, o retorno da guerra na Europa. Paradoxalmente, no preciso momento em que deveríamos tomar consciência de forma solidária da comunidade de destino de todos os Terrestres, sob o efeito da crise planetária e das angústias que ela suscita, refugiamo-nos por toda a parte nos particularismos étnicos, nacionais e religiosos. Vamos chamar cada um à necessária tomada de consciência e aspiremos à sua generalização para que os grandes problemas sejam finalmente tratados em escala planetária.

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