Por Ian Wright, via Cosmonautmag, traduzido por Gabriel Marucci

No mundo às avessas da ideologia capitalista, certas verdades devem ser ignoradas ou reprimidas porque reconhecê-las enfraqueceria o domínio do capital. Uma destas verdades é que o trabalho humano, e somente o trabalho humano, é a causa última do excedente econômico. Esta afirmação é uma abominação para aqueles que possuem capital e também reivindicam os produtos do trabalho e, assim, esta verdade deve ser negada. A teoria do mais-valor de Marx explica como o trabalho é a causa última do lucro e, em razão disto, sua teoria é ignorada, reprimida e negada. Neste artigo, consideraremos uma contestação popular à teoria do mais-valor de Marx, na qual o lucro é sempre uma conquista conjunta de fatores de produção humanos e não humanos, como máquinas. De acordo com essa objeção, o trabalho humano não é a causa única do lucro e, portanto, a teoria de Marx está errada.

A principal corrente da teoria econômica analisa estados de equilíbrio nos quais todos os fatores da produção parecem contribuir para aumentos marginais no resultado: adicione um pouco mais de capital e obtenha um pouco mais de resultado. Essa teoria é dominante precisamente porque parece justificar as reivindicações de propriedade dos proprietários de empresas sobre os frutos do trabalho de outros, mesmo quando eles não contribuem com trabalho ou dinheiro-capital. Os extremamente ricos proprietários, ausentes, que compõe 1% da população e que colhem grandes dividendos de suas carteiras de ações enquanto dormem, sabiamente alocam uma fração de sua riqueza para promover tais teorias.

A ideologia capitalista é poderosa e predominante e, logo, também afeta os críticos ao capitalismo de tendência à esquerda. Alguns sustentam que a teoria do mais-valor de Marx é um resquício pitoresco da era Vitoriana, talvez conveniente em uma época em que as máquinas eram dispositivos mecânicos tolos. Mas agora, com os avanços em inteligência artificial, as máquinas são inteligentes e começam a rivalizar com nossas capacidades. E assim, a teoria do mais-valor de Marx, com seu foco na singularidade do trabalho humano, deve ser rejeitada. Como veremos, esta negação dos poderes causais exclusivos dos seres humanos, e a ascensão da máquina, não apenas é incorreta e uma inversão completa da realidade social, como serve diretamente às reivindicações do capital e, portanto, é inerentemente reacionário.

Humanos versus Máquinas

De acordo com Marx, o trabalho cria valor, e nada mais o cria. No Volume 1 de “O Capital”, ele escreve que “trabalho é […] o elemento universal de criação de valor e, portanto, possui uma propriedade pela qual se diferencia de todas as outras mercadorias”.1 O trabalho humano é o fator de produção único e especial que cria valor econômico. No entanto, Marx reconhece que as máquinas podem agir autonomamente, quase como com vontade própria, e executar as mesmas tarefas que realizamos. No “Fragmento sobre Máquinas”, Marx escreve que “é a máquina que possui habilidade e força no lugar do trabalhador, é ela mesma o virtuoso, com uma alma própria nas leis mecânicas agindo por meio dela”.2

A maioria das máquinas são coisas estúpidas e sem vida. Uma caneta que você segura na mão é uma máquina, de certa forma. É um sistema com o poder causal de transmitir tinta armazenada em uma taxa constante para sua ponta e, obviamente, seus poderes causais são enormemente limitados em comparação com o que os humanos podem fazer. Mas algumas máquinas são mecanicamente poderosas, como escavadeiras que movem toneladas de terra mais rapidamente do que qualquer equipe de seres humanos. E algumas máquinas são ainda cognitivamente poderosas, como supercomputadores que preveem o clima ou redes neurais que podem traduzir entre idiomas. Nossas máquinas estão se tornando cada vez mais sofisticadas, replicando e excedendo nossos poderes físicos e mentais em alguns domínios. Neste artigo, usarei o termo “máquina” de forma muito ampla, incluindo qualquer sistema não-humano que realiza trabalho em um sentido termodinâmico estrito.

Veja, os humanos não produzem coisas sozinhas. Trabalhamos com máquinas artificiais e máquinas naturalmente evoluídas, como animais e plantas. Todos esses sistemas fornecem trabalho, que é um tipo de mão de obra, para a produção. O cavalo que puxa o carro trabalha tanto quanto o trabalhador que o carrega. Devido a esses fatos óbvios, uma objeção popular e difundida à teoria do mais-valor de Marx é que o trabalho humano não é especial e, portanto, não pode ser o único fator de produção que cria lucro.

Vamos começar com o exemplo dos seres humanos, revisitando brevemente o exato conteúdo da teoria do mais-valor de Marx.

A teoria do mais-valor de Marx

A teoria de Marx sobre o mais-valor explica como o capitalismo produz mais do que é necessário para sustentar a população, dedicando tempo de trabalho excedente à produção de bens e serviços para uma classe exploradora, assim como novos meios de produção, como máquinas, que aumentam a produtividade do trabalho, levando ao crescimento econômico, em uma espiral interminável de acumulação de capital. Marx não se preocupa em explicar o lucro decorrente de arbitrariedades do mercado, onde um comerciante percebe a oportunidade de comprar barato e vender caro. Isso é uma transferência de soma zero. O que alguém ganha, outra pessoa perde. Comprar barato e vender caro não é como as economias crescem e desenvolvem suas forças produtivas. Em vez disso, Marx quer entender a relação entre mudanças estruturais nas condições de produção, especificamente quanto tempo de trabalho é necessário para produzir mercadorias e mudanças nos lucros monetários. Marx, ao apresentar os fundamentos dessa teoria, assume que as empresas usam as mesmas técnicas de produção, que não existem monopólios, que oferta e demanda estão em equilíbrio e, portanto, que os lucros não estão sendo obtidos devido à escassez temporária e assim por diante.

A transferência do capital constante

Considere qualquer processo produtivo. Ele tem alguns insumos, que precisam ser comprados no mercado, e tem alguns produtos finais, que são vendidos no mercado. Os trabalhadores, durante o seu dia de trabalho, transformam matérias-primas em novos produtos, auxiliados por ferramentas e maquinaria. Marx usa o termo “capital constante” para se referir coletivamente a esses insumos. Cada mercadoria tem um preço no valor de mercado e um valor de trabalho, que é a quantidade de trabalho direto e indireto necessário para produzi-la. Em geral, os preços não são iguais aos valores de trabalho. Mas para abstrair das diferenças entre preços e valores de trabalho, Marx, no Volume 1, assume que eles são proporcionais.

Primeiro, Marx afirma que os trabalhadores, durante o processo de trabalho, transferem o valor do capital constante para o valor da produção. Vamos tornar isso concreto. Imagine que você é um cozinheiro em um restaurante cortando legumes e os fritando. O custo de compra dos legumes reaparece como parte do custo da refeição final no prato. Seu trabalho de cozinha transfere esse valor para a saída. Outra maneira de pensar sobre isso é simplesmente observar que o trabalho que cria lucro sempre deve produzir uma saída com um preço de venda que exceda o custo de todas as matérias-primas que foram usadas para fazê-lo.

Veja, parte do capital constante não é completamente usado durante esse processo. Toda vez que um trabalhador usa uma máquina, ela se deteriora um pouco. As máquinas, ao contrário das matérias-primas, não são totalmente consumidas, mas persistem. Por exemplo, o forno no restaurante aquece muitas refeições antes de quebrar e precisar de conserto. Portanto, os trabalhadores também transferem o valor da maquinaria fixa – como fornos, geladeiras, micro-ondas e assim por diante – pouco a pouco, amortizado em múltiplas saídas, à medida que a maquinaria se deprecia através do uso.

Mais uma maneira de pensar nisso é simplesmente observar que o trabalho que gera lucro também deve produzir um resultado com um preço de venda que cubra o custo de operar, manter e substituir qualquer maquinário. O valor do capital constante reaparece no produto. E, até agora, durante o dia de trabalho, o valor dos insumos é conservado no processo de produção. Eles reaparecem no resultado.

A transferência do capital variável

Marx usa o termo capital variável para apontar a força de trabalho que é empregada em um processo de produção. Em nosso exemplo do restaurante, o capital variável são os cozinheiros, garçons e assim por diante. O valor da força de trabalho é o valor do salário real, que é o tempo de trabalho direto e indireto necessário para produzir os bens e serviços que os trabalhadores consomem. Assim, os trabalhadores, durante o dia de trabalho, também transferem o valor do salário real para o produto e, portanto, tanto os custos humanos quanto os não-humanos da produção são conservados e reaparecem no produto final.

Agora, ampliando a visão além do restaurante, imagine que isso ocorra em todos os setores da economia. O capital constante total é utilizado e substituído. O salário real total é consumido e substituído. As empresas vendem seus produtos no mercado e cobrem seus custos de entrada.

Os trabalhadores então recebem salários suficientes para comprar o salário real. Nesta situação, não há lucros nem crescimento. A economia apenas se reproduz ao longo do tempo na mesma escala de produção.

No entanto, isso não acontece. Há lucro e há crescimento. Então, de onde vem esse lucro?

Mais-valor

Agora chegamos à reivindicação crucial de Marx: o trabalho humano é especial porque é o único fator de produção que adiciona mais valor do que o seu próprio custo. Os trabalhadores “criam valor” trabalhando ainda mais do que o necessário para substituir seu salário real. Em outras palavras, para que haja lucro, o valor da produção deve ser maior do que o valor da entrada. Esse excesso de valor, Marx chama de mais-valor.

Consequentemente, o dia de trabalho total da sociedade tem uma parte necessária, que reproduz o valor do estoque de capital e o salário real, mas também uma parte excedente, além do necessário, que produz bens e serviços adicionais. Esses bens adicionais são adquiridos com a renda do lucro e assumem a forma de bens de luxo para capitalistas e novo estoque de capital para fazer crescer a economia.

Então como o trabalho humano de fato produz novo mais-valor? Basicamente, de duas maneiras fundamentais.

A produção de mais-valor absoluto

A primeira maneira Marx chama de produção de mais-valor absoluto.

Os capitalistas podem aumentar seus lucros fazendo com que os trabalhadores trabalhem mais tempo ou com mais intensidade. Isso faz com que mais trabalho seja realizado e, portanto, haja uma produção maior. Assim, os trabalhadores adicionam ainda mais valor à economia, além do que recebem na forma de salário real. Mais horas trabalhadas aumentam diretamente a duração do dia de trabalho. Trabalhar com mais intensidade faz com que cada hora de trabalho conte mais. De qualquer forma, mais mais-valor é produzido.

Por exemplo, um restaurante movimentado pode produzir mais refeições por hora exigindo que os cozinheiros trabalhem mais. Seus salários são os mesmos, mas estão produzindo mais refeições. Isso significa mais lucro para os proprietários mas há apenas tantas horas em um dia, e os trabalhadores atingem seus limites naturais. O segundo método de criação de novo valor é a produção de mais-valor relativo, e é bastante diferente.

A produção de mais-valor relativo

Os trabalhadores produzem mais-valor relativo quando desenvolvem novas técnicas de produção que reduzem o valor do salário real. Em outras palavras, a produtividade do trabalho, nos setores que produzem o salário real, aumenta. Quando isso acontece, menos tempo de trabalho da sociedade é necessário para produzir os bens e serviços que os trabalhadores consomem. Nesse cenário, os trabalhadores trabalham as mesmas horas com a mesma intensidade. É apenas o valor do salário real que agora é menor. Isso tem o efeito de reduzir os custos de insumo para os capitalistas porque o valor da força de trabalho diminui.

Por exemplo, o cozinheiro do restaurante precisa comer, comprar roupas, morar em uma casa quente com água corrente, ter acesso à internet, desfrutar de noites fora e assim por diante. O salário do cozinheiro paga por esse conjunto de bens e serviços. Mas se outros trabalhadores descobrirem novos métodos mais eficientes para produzir comida, roupas ou aquecimento, ou se desenvolverem novas tecnologias de comunicação que usem menos energia, ou criarem novos softwares que possam distribuir filmes pela internet, reduzindo os custos de embalagem e transporte, então a quantidade de tempo de trabalho da sociedade necessária para fornecer o salário real do cozinheiro diminui. A inovação técnica pode economizar trabalho.

Isso significa que se o cozinheiro trabalha pelo mesmo número de horas, mas consome menos horas devido às inovações técnicas, ele fornece um tempo de trabalho excedente geral, produzindo mais mais-valor e, portanto, mais lucro para os capitalistas. A mudança técnica que economiza trabalho pode assumir muitas formas, não apenas novos tipos de máquinas. Técnicas mais eficientes podem ser obtidas a partir de métodos melhores de organização, cooperação em escalas maiores ou uma divisão do trabalho mais especializada. Em cada caso, o resultado é o mesmo, ou seja, um aumento da produtividade do trabalho.

Seres humanos trabalham mais e de forma inteligente

Em resumo, existem dois métodos principais pelos quais o trabalho humano, e somente o trabalho humano, cria lucro: primeiro, trabalhando por mais tempo ou com maior intensidade; e segundo, desenvolvendo inovações técnicas que reduzem o valor da força de trabalho. Portanto, os trabalhadores, em comparação com todos os outros fatores de produção, como máquinas, podem trabalhar mais (e, portanto, produzir mais-valor absoluto) ou podem trabalhar de maneira inteligente (e, portanto, produzir mais-valor relativo).

É por isso que Marx divide o capital em partes constantes e variáveis. Ele quer traçar uma nítida diferença entre os poderes causais dos fatores humanos e não humanos no processo de produção. O capital constante é um componente passivo. Seu valor apenas passa para a saída. Mas o capital variável é o componente subjetivo e ativo, e o valor que ele adiciona não é fixo, não é conservado, mas pode ser alterado.

Isso, em suma, é a teoria de Marx sobre a origem do mais-valor no trabalho humano. A causa do lucro, segundo Marx, é o trabalho humano porque somente ele pode trabalhar mais intensamente e mais inteligentemente.

A identidade do trabalho humano e da máquina

Vamos agora examinar uma objeção à teoria de Marx sobre o mais-valor. Essa objeção, em última instância, se resume a apontar uma identidade entre o trabalho humano e o trabalho não humano. Sempre que produzimos algo, precisamos da ajuda de outras coisas. Precisamos de matéria-prima, de um local para trabalhar, de máquinas e assim por diante. Em um sentido termodinâmico estrito, não fazemos todo o trabalho. Por exemplo, as máquinas claramente realizam trabalho, alimentadas por motores a diesel ou eletricidade, ou alguma outra fonte de energia. Em algumas indústrias, especialmente em países mais pobres, animais são usados para fornecer energia motriz. Então eles também trabalham. E embora plantemos as sementes, aramos a terra e reguemos as plantas, as capacidades naturais da planta, sua capacidade de converter matéria em novas formas, aproveitando a energia do sol, também – em um sentido termodinâmico estrito – contribuem para um tipo de trabalho.

Assim, qualquer produção econômica é causada conjuntamente pelo trabalho humano combinado com o trabalho não humano. Sempre misturamos nosso trabalho com outros fatores de produção, como terra e capital. A produção não é apenas um processo de trabalho, mas também é um processo natural e um processo de máquinas. O fato de podermos automatizar tipos específicos de trabalho humano na forma de máquinas, incluindo recentemente máquinas virtuais na forma de software de computador, indica diretamente que o trabalho humano e o trabalho de máquinas são, em um sentido importante, idênticos.

Materialismo

Tipos de trabalho que antes pensávamos estarem além do alcance da mecanização agora foram mecanizados e não há motivo para pensar que há um limite tecnológico para esse processo. Os materialistas deveriam aceitar a proposição de que todo trabalho humano poderia, em princípio, ser mecanizado. Isso porque o materialismo não é a ideia de que tudo é, em última análise, redutível ao choque e ao estalo dos átomos como bolas de bilhar. O materialismo, pelo menos no contexto da história do marxismo, é a hipótese organizadora de que tudo é, em última análise, a emissão legítima de uma única substância que, em princípio, é inteligível para nossas mentes precisamente porque nossas mentes também são uma emissão dessa mesma substância.

Assim, os materialistas não acreditam que os poderes causais do trabalho humano são exceções miraculosas às leis do mundo material. Em princípio, podemos aplicar engenharia reversa em nossas próprias capacidades, mesmo que isso possa levar milênios de anos de esforço e engenhosidade. E, de certa forma, já temos evidências empíricas de que os poderes causais dos humanos podem ser criados em existência, porque os humanos são máquinas, apenas acontece de sermos máquinas criadas pela evolução e feitas de pele, ossos e neurônios. Se nossos poderes causais parecem especiais, é porque somos os únicos mecanismos que atualmente conhecemos que os têm. Nossa especialidade é apenas um acidente de nosso ponto na história.

Estamos aprendendo a replicar cada vez mais de nossas capacidades e essa trajetória tecnológica apresenta um problema para a afirmação de Marx de que o trabalho humano é especial. Para ilustrar o ponto, vamos considerar um experimento mental, uma espécie de Teste de Turing para a teoria de Marx.

O Teste de Turing

O matemático e pioneiro em ciência da computação, Alan Turing, criou um teste para determinar se uma máquina é inteligente. Ele queria evitar contestações à ideia de que as máquinas podem pensar baseado em crenças religiosas na existência de uma alma inexplicável, ou na afirmação não verificável de que apenas os humanos têm consciência própria.

Turing compreendeu que, a partir de uma perspectiva objetiva, o pensamento inteligente se manifesta, em última análise, como comportamento público em um contexto social. Então, Turing propôs esconder a máquina atrás de uma tela e permitir que o público interaja com ela, enviando e recebendo respostas escritas. Se o público não puder dizer se está interagindo com um ser humano real ou com uma máquina, então a inteligência artificial passa no teste e deve, por qualquer critério objetivo, ser considerada verdadeiramente inteligente.

Podemos adaptar o Teste de Turing e aplicá-lo à teoria de Marx sobre o mais-valor.

Um teste de Turing para a teoria de mais-valor de Marx

Vamos considerar um tipo específico de trabalho. Pode ser qualquer coisa, mas escolheremos o trabalho de taxista.

Um taxista trabalha para uma grande empresa. A empresa não é uma cooperativa de trabalhadores, então o taxista não recebe o valor total de sua produção. Eles geram lucro para seus proprietários. Pense em empresas como Uber ou Lyft. Imaginemos que colocamos o taxista em uma caixa, de modo que ele fique escondido da vista. Os clientes ainda podem falar com o motorista, dizer onde querem ir e pagar com um cartão sem dinheiro. Então, tudo funciona como de costume, exceto que o motorista não pode ser visto. Agora, imagine que substituímos o motorista de táxi na caixa por um robô. A máquina faz tudo o que o motorista de táxi fazia: ela pode receber instruções, receber pagamentos e dirigir. Vamos supor que os custos de produção e manutenção dos motoristas de táxi robóticos são idênticos aos salários dos motoristas de táxi humanos.

Há pouco tempo, a ideia de que dirigir um táxi pudesse ser automatizado era ficção científica. No entanto, tanto a Uber quanto a Lyft estão tentando automatizá-lo agora mesmo. Elas sabem que serão mais lucrativas se puderem substituir o trabalho humano por algo mais eficiente e menos propenso a sindicalização. Portanto, essas empresas já estão procurando maneiras de produzir mais-valor relativo.

Máquinas de fato implantadas na produção geralmente realizam suas tarefas melhor do que os humanos. Da mesma maneira, esperaríamos que os táxis robôs dirigissem com mais segurança, encontrassem melhores rotas e dirigissem de forma ideal para minimizar os custos de combustível. Mas suponha que as entradas e saídas da caixa permaneçam idênticas. O que o motorista de táxi humano fazia antes, a máquina agora faz exatamente da mesma maneira. Os clientes não podem notar a diferença. Antes, havia uma caixa que agia como um motorista de táxi. Após, há uma caixa que age como um motorista de táxi. A máquina passa no teste de Turing para ser um motorista de táxi. E assim, nas condições de nosso experimento mental, se trocássemos motoristas de táxi humanos por motoristas de táxi robôs agora mesmo, hoje, de uma só vez, então os lucros de uma Uber ou Lyft seriam os mesmos. Nada mudaria.

Em consequência, o trabalho do motorista de táxi robô transfere o valor dos insumos – o custo do combustível, o custo de manutenção do carro e assim por diante – para sua produção. Essa máquina transfere valor. E, uma vez que os lucros são os mesmos, então essa máquina parece adicionar mais valor do que consome na forma de eletricidade, peças de reposição e custos de manutenção. Assim, temos aqui o trabalho mecânico, não humano, produzindo um excedente de valor ou lucro. A única condição que mudou, antes e depois, é que o trabalho de dirigir um táxi foi realizado primeiro por algo chamado humano e depois por algo chamado máquina.

Este experimento mental parece demonstrar claramente que o trabalho humano não pode ser especial. Qualquer tipo de trabalho – seja humano, natural ou artificial – fornece trabalho e, portanto, nas circunstâncias certas, pode produzir lucro. Parece que temos um argumento irrefutável contra a teoria de Marx sobre a origem do lucro.

Não-respostas ao Teste de Turing

Muitas pessoas, quando aprendem pela primeira vez sobre a teoria do mais-valor de Marx, rapidamente contestam que o trabalho da máquina não é realmente diferente do trabalho humano. Esse tipo de argumento é frequentemente apresentado, embora não explicitamente em termos de um Teste de Turing. Assim, ao longo dos anos, marxistas responderam a esse argumento. Mas as respostas típicas são, de muitas maneiras, radicalmente inadequadas. Vamos considerar algumas delas.

Relações sociais

Uma resposta marxista popular é reiterar que o valor econômico é uma relação social entre as pessoas. A substância do valor, o que as magnitudes monetárias como o lucro realmente se referem ou representam, é o tempo abstrato de trabalho humano. O lucro, como Marx nos disse, é fundamentalmente o mais-valor, e o mais-valor, por definição, é a diferença entre o tempo de trabalho que os trabalhadores fornecem à produção e o tempo de trabalho que consomem na forma do salário real. Portanto, devemos rejeitar este experimento mental, pois ele perde completamente o ponto.

Entretanto, o problema com esta resposta é que ela simplesmente repete a teoria de Marx sobre o mais-valor e, nesse sentido, é uma resposta dogmática porque não se envolve no experimento mental. Se a substância do lucro realmente é o tempo de trabalho humano e se a causa do lucro realmente é apenas o trabalho humano, é exatamente isso que é questionado neste experimento mental.

Além disso, os críticos da teoria de Marx têm, corretamente, apontado que a estrutura de custo objetivo de uma economia pode ser medida de várias maneiras, não apenas pelo tempo de trabalho. Podemos igualmente falar de valor excedente de óleo, valor excedente de milho ou valor excedente de energia. Na verdade, qualquer mercadoria que seja um insumo básico. A resposta dogmática se expõe a essa crítica porque reduz a teoria de Marx a um mero método contábil, onde escolhemos subjetivamente o tempo de trabalho como nossa medida preferida de custo objetivo.

Mas esta não é a teoria de Marx. Marx tem como objetivo mostrar que é o trabalho humano que cria, objetivamente, o valor excedente no processo de produção, independentemente de nossas escolhas subjetivas. Portanto, não é suficiente simplesmente repetir que o valor é uma relação social entre as pessoas. Claro que é. Sem a indústria e o comércio humanos, nem sequer haveria fenômenos econômicos para nos confundir. Mas isso não significa que a origem do lucro seja apenas o trabalho humano.

A necessidade de alocar trabalho humano

Outra resposta, inspirada em um poderoso trecho que Marx escreveu em uma carta3 para seu amigo Ludwig Kugelmann, é apontar que qualquer sociedade, a fim de se reproduzir, deve alocar o tempo total de trabalho a diferentes fins. Ela precisa de uma maneira de atribuir seres humanos a diferentes partes da divisão do trabalho para que as coisas certas sejam produzidas nas quantidades corretas e, no capitalismo, isso acontece predominantemente por meio de mercados e dinheiro. Portanto, magnitudes monetárias, como lucro, em última análise, se referem ao tempo de trabalho humano.

A carta de Marx, na minha opinião, contém o trecho mais importante já escrito na história da economia. Mas o fato de que o tempo de trabalho humano deve ser organizado não estabelece que o trabalho humano seja a única causa do lucro. O capitalismo simultaneamente aloca e organiza todos os outros tipos de recursos, não apenas o trabalho humano, incluindo recursos naturais como a terra e recursos produzidos, como equipamentos de capital.

Trabalho humano é o insumo universal

Outra resposta é afirmar que o trabalho humano é especial porque é o insumo universal em qualquer processo de produção. Mesmo a produção de capital intensivo e altamente automatizada envolve trabalho humano. Máquinas dedicadas, como colheitadeiras, são empregadas apenas em determinados setores da produção. Em contraste, os seres humanos são empregados em todos os lugares.

O problema com esse argumento é que, embora o trabalho humano esteja presente em todo processo de produção, não significa que ele, e somente ele, crie lucro. Isso porque o trabalho humano é combinado com fatores não humanos em todo processo de produção.

Seres humanos são sistemas vivos e autorreprodutores

Outra resposta é dizer que apenas os seres humanos são sistemas vivos e autossuficientes, capazes de manter sua própria existência corporal. Criamos a economia precisamente para nos reproduzir ao longo do tempo. Sem nós, a economia entraria em colapso.

Claro, isso é verdade, mas o trabalho humano não é único nisso. Os animais também são sistemas vivos capazes de se reproduzir sem nossa ajuda e também estão envolvidos na produção. E sem as capacidades de autorreprodução do mundo natural, nossas economias entrariam rapidamente em colapso. Também podemos imaginar que um táxi robô tenha algoritmos para monitorar sua própria saúde e tenha a capacidade de encomendar peças de reposição, incluindo a mão de obra humana para instalá-las. Assim, simplesmente ser capaz de se manter não distingue o trabalho humano do não-humano. E de qualquer forma, essa capacidade não está relacionada à criação de lucro.

Seres humanos são direcionados por objetivos

Marx, no Volume 1 de O Capital, observa que “o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade”.4 Marx está fazendo uma comparação entre a atividade planejada e direcionada a objetivos dos seres humanos em comparação com as máquinas que simplesmente seguem regras cegas.

É verdade que a imaginação humana supera qualquer máquina, mas não é verdade que apenas os seres humanos são direcionados por objetivos. Todos os animais e todos os robôs sofisticados formulam planos e seguem metas de alguma forma. E, para o propósito de produzir mais-valor, tudo o que importa é o comportamento, não como esse comportamento é gerado. Uma colmeia é uma colmeia, independentemente de ter sido produzida por uma máquina inteligente ou por uma máquina estúpida.

Seres humanos lutam por mais

Outra resposta é observar que apenas os trabalhadores lutam com os capitalistas pela duração do dia de trabalho e que apenas os trabalhadores podem se organizar para agitar por salários mais altos e obter uma maior parcela do valor excedente que eles criam. Máquinas não defendem a si mesmas.

Isso é obviamente verdade. Mas podemos inverter esse argumento e apontar que os capitalistas, como classe, são de muitas maneiras muito mais bem-sucedidos em se organizar para agarrar parcelas crescentes do tempo de trabalho excedente da sociedade. Queremos, portanto, afirmar que os capitalistas criam valor excedente?

Portanto, essa resposta não aborda o teste de Turing de forma alguma. O fato de que os trabalhadores têm a capacidade de lutar por uma maior parcela do lucro não implica que eles sejam a causa dele.

Seres humanos se recusam a trabalhar

Outra resposta é observar que os seres humanos, ao contrário das máquinas, podem recusar-se a trabalhar, podem o deixar de realizar. Eles entram em greve e impedem que lucros sejam obtidos.

Mas as máquinas quebram o tempo todo e, nesses casos, o lucro também para. E algumas máquinas já decidem, embora de maneira muito primitiva, deixar de realizar seu trabalho por meio de mecanismos de segurança projetados para evitar superaquecimento ou quebras mecânicas. Todos os fatores de produção precisam trabalhar juntos para produzir lucros e qualquer fator, seja humano ou máquina, pode parar de funcionar a qualquer momento.

O problema com essa resposta é que ela explica por que, às vezes, valor não é produzido, mas ela não estabelece que os seres humanos criam valor exclusivamente quando concordam em trabalhar.

Seres humanos estão no controle

Outra resposta é reconhecer a contribuição das máquinas, mas destacar que são os seres humanos que decidem ativamente produzir coisas, que direcionam e controlam o processo produtivo e que, sem nós, nada aconteceria. Em outras palavras, somos responsáveis ​​causalmente pelo resultado e, portanto, a causa do valor excedente.

No entanto, não está claro quem ou o que tem a responsabilidade causal final. Em alguns processos de produção, as máquinas estão no controle. Marx, em seu “Fragmento sobre Máquinas”, observa que “a atividade do trabalhador, reduzida a uma mera abstração de atividade, é determinada e regulada por todos os lados pelo movimento do maquinário”.5 O imperativo de produzir mais-valor deriva das leis impessoais e objetivas da competição capitalista. Nesse sentido, os trabalhadores não estão no controle da produção, mas são escravos assalariados dirigidos e controlados pela regra do capital.

Seres humanos fazem máquinas

Outra resposta é destacar que as máquinas são nossas criações. Nós as produzimos, mas elas não podem nos produzir. Elas são exemplos passados de humanos trabalhando de forma mais inteligente e, portanto, qualquer coisa que uma máquina faça é atribuível, em última instância, ao trabalho humano.

Novamente, isso é verdade. Mas também é verdade que nunca houve um momento em que os seres humanos trabalharam sem a ajuda de máquinas naturais ou artificiais. Todas as máquinas também são criadas conjuntamente pelo trabalho de máquinas passadas.

Nenhuma destas respostas são bem-sucedidas

Há elementos de verdade em todas essas respostas. No entanto, nenhuma delas é uma resposta bem-sucedida ao Teste de Turing. Além disso, essas respostas não se envolvem diretamente com o argumento real de Marx, com o conteúdo específico de sua teoria do mais-valor: Marx busca revelar o mecanismo causal, dentro da produção, que efetivamente alcança a acumulação de capital e o crescimento, e ele afirma que isso é alcançado pelas pessoas trabalhando mais arduamente ou de forma mais inteligente.

Neste sentido, ainda temos uma aparente contradição a resolver.

A produção de mais-valor: mudanças nas condições da produção

Há, então, um problema com a teoria de Marx sobre o mais-valor? Ou há um problema com este experimento mental? Considere um processo de produção típico. O capital variável – os seres humanos – tem a capacidade de agir de maneiras altamente variáveis. O capital constante – como mesas, cadeiras, martelos, aquecedores, CPUs, software dedicado e assim por diante – age de maneira constante e não possui a capacidade geral de perceber maneiras de obter mais saídas com menos insumos. O problema fundamental com o experimento mental é que ele compara duas situações estáticas: uma situação em que os humanos realizam a tarefa de dirigir um táxi e uma situação em que os robôs fazem isso exatamente da mesma maneira e então aponta que, em ambos os casos, o nível de lucro permanece o mesmo. Mas a teoria de Marx sobre o mais-valor não se trata fundamentalmente do que determina o nível de lucro, mas do que determina as mudanças no nível de lucro.

Marx define a produção de novo mais-valor absoluto por uma mudança na duração da jornada de trabalho ou uma mudança na intensidade do trabalho, e ele define a produção de novo mais-valor relativo por uma mudança nas técnicas de produção. Portanto, a teoria de Marx trata da causa de mudanças no nível de lucro devido a mudanças nas condições de produção. E nesse sentido, a teoria de Marx é irredutivelmente e fundamentalmente uma teoria dinâmica de mudanças no lucro ao longo do tempo histórico.

O experimento mental do Teste de Turing não considera uma mudança no lucro de forma alguma, e não considera o que acontece ao longo do tempo histórico. E, como Marx mesmo aponta, sua teoria de mais-valor é totalmente compatível com empresas individuais substituindo humanos por máquinas e mantendo, ou até mesmo aumentando, seu nível atual de lucros, pelo menos inicialmente. Isso significa que a afirmação de Marx de que as mudanças no nível geral de lucros são causadas, em última instância, pelo trabalho humano, e somente pelo trabalho humano, não é contradita por esse experimento mental. E é por isso que o experimento mental não atinge seu objetivo.

Máquinas falham o Teste de Turing

Para deixar esse ponto ainda mais claro, vamos estender a duração do Teste de Turing. Considere que a Uber tenha mudado para motoristas de táxi robóticos, mas a Lyft tenha mantido os motoristas humanos. Pressupondo-se, seus níveis de lucro começam idênticos. Mas vamos imaginar que, devido a mudanças na economia em geral, surja uma nova demanda para entregas de comida de restaurantes em domicílio.

Os motoristas de táxi robóticos não têm conhecimento dessa nova demanda, pois seus inputs sensoriais não a incluem. Mas mesmo que tivessem conhecimento, os algoritmos não conseguiriam processar esses dados e inferir que há uma oportunidade de ganhar dinheiro extra. Em contraste, os motoristas de táxi humanos identificam essa nova tendência e percebem que também podem transportar comida de táxi, além de seu negócio normal, e ganhar mais dinheiro. Como resultado, os níveis de lucro da Uber e da Lyft divergem. Os lucros da Lyft são maiores porque ela está começando a capturar uma parcela do mercado de entrega de alimentos. Por quê? Porque os motoristas de táxi humanos, de forma bastante espontânea, inovaram.

O trabalho humano, ao contrário do trabalho das máquinas, é variável e pode se adaptar a novas circunstâncias e mudar suas próprias condições de produção. As máquinas podem reproduzir um nível existente de lucro por um tempo, mas em geral não conseguem alterar o nível de lucro. Portanto, assim que introduzimos o tempo histórico no Teste de Turing, imediatamente percebemos que as máquinas falham em passá-lo.

A tese das capacidades causais

Chegamos a uma resposta a uma objeção comum à teoria de Marx sobre o mais-valor. Eu a chamo de resposta das “capacidades causais”, porque se baseia no que os seres humanos, e apenas os seres humanos, podem efetivamente fazer, em suas capacidades que se manifestam em atividade material no “recinto oculto da produção”. Os seres humanos têm poderes causais universais, enquanto as máquinas têm apenas poderes causais específicos. Isso significa que apenas a força de trabalho tem a capacidade de trabalhar mais arduamente e de forma mais inteligente, em todos os processos de produção, para causar mudanças no nível de lucros.

A Tese das Capacidades Causais

Os seres humanos têm poderes causais universais. As máquinas têm poderes causais específicos.
A força de trabalho é o “elemento universal criador de valor” porque, em todos os processos de produção, ela pode trabalhar mais arduamente ou de forma mais inteligente para alterar as condições de produção, causando mudanças no nível de lucros.

É claro que qualquer atividade específica realizada por seres humanos pode, em princípio, ser mecanizada. Mas, até o momento, nenhuma máquina iguala os poderes causais universais dos seres humanos. O experimento mental do motorista de táxi em uma caixa assumiu corretamente que o comportamento de seres humanos e máquinas pode ser idêntico. No entanto, é completamente equivocado assumir que os poderes causais de seres humanos e máquinas são idênticos.

Os poderes causais dos seres humanos são, em geral, muito diferentes de qualquer máquina atual ou outro mecanismo que conhecemos. Podemos imaginar colocar qualquer tipo de atividade humana atual em uma caixa hipotética e substituí-la por uma máquina atual ou futura. O nível de lucros, por um tempo, permanecerá inalterado. No entanto, quando o trabalho humano está envolvido em um processo de produção, esse processo recebe muito mais do que um mecanismo dedicado que executa uma tarefa concreta. O trabalho humano é uma coleção completa de capacidades que transcendem qualquer tarefa concreta. Rapidamente, encontraremos maneiras de mudar as condições de produção e criar novo valor excedente.

Por quê? Porque os seres humanos são infinitamente inventivos, criativos e adaptáveis – nossas imaginações são prodigiosas, e aprendemos fazendo. Animais, máquinas e plantas simplesmente não possuem esses poderes causais. Nossos poderes causais são precisamente aqueles que não podem ser realmente contidos em uma caixa, mas sempre transbordarão dela. Portanto, as máquinas, em geral, não podem agir para mudar o nível de lucros. Mas os seres humanos podem. E é isso que a teoria de Marx sobre o mais-valor está abordando.

A inversão ideológica

Essa conclusão deveria ser senso comum. No entanto, há uma enorme pressão ideológica para negar a agência dos trabalhadores, negar nossa responsabilidade causal na produção do resultado econômico.

Os proprietários capitalistas, que financiam a produção, veem seu dinheiro se manifestar visivelmente como capital constante diante de seus olhos. Eles podem literalmente ver suas contribuições para a produção. Isso, para eles, é a materialização de sua contribuição para o resultado, tão claro como a luz do dia. Além disso, é um fato empírico que a introdução de máquinas pode substituir o trabalho humano e ainda assim gerar lucros mais altos. Uma empresa com uma vantagem de pioneirismo desfrutará de lucros extraordinários até que seus concorrentes alcancem o mesmo nível. Portanto, os capitalistas introduzem máquinas e veem os lucros aumentarem. Adeus às reivindicações do trabalho, e adeus à teoria de Marx sobre a origem do lucro.

Mas, como vimos, o capital variável – ou seja, o trabalho humano – é a causa das mudanças no lucro, não o capital constante e, portanto, o que os capitalistas estão realmente vendo são mudanças na lucratividade devido a outros trabalhadores, em outras empresas, trabalhando mais arduamente ou de forma mais inteligente para criar as máquinas que seu capital monetário adquire. Na empresa individual, especialmente do ponto de vista dos capitalistas, a verdadeira causa das mudanças na lucratividade está oculta. É por isso que Marx fala de uma inversão ideológica. Ele diz: “essa completa inversão da relação entre trabalho morto e trabalho vivo, entre valor e a força que cria valor, se reflete na consciência dos capitalistas”.6

Mas não apenas os capitalistas, toda a população em geral. A diminuição da agência do trabalho humano é muito evidente e generalizada. Todos caem nessa armadilha, inclusive economistas e filósofos altamente treinados. Por exemplo, a ideologia capitalista, especialmente em relatórios econômicos, enfatiza que o lucro e o crescimento são criados por investimentos. O papel ativo é atribuído ao capital, não ao trabalho. Ou, alternativamente, somos informados de que o lucro se deve às ações de empreendedores heroicos.

Alguns empreendedores realmente trabalham em vez de apenas financiarem o trabalho, mas as contribuições de trabalhadores mais tecnicamente avançados, que incluem o trabalho de aplicar novas tecnologias para atender à demanda não atendida, geralmente são agrupadas e confundidas com a propriedade da empresa. Esse trabalho de vanguarda pode ser altamente recompensado, especialmente se os fundadores técnicos possuírem participações na empresa. E, então, a enorme discrepância entre as recompensas financeiras deles em comparação com a maioria dos trabalhadores, recompensas financeiras que são predominantemente obtidas por meio de patrimônio líquido e não salários, e portanto, em grande parte derivadas do trabalho de outras pessoas e não do próprio trabalho deles, contribui ainda mais para a separação ideológica de seu trabalho em uma categoria especial.

Assim, mesmo quando fica muito claro que equipes de trabalhadores cooperativos criam novos lucros, esses trabalhadores são classificados como “inventores”, “criadores de riqueza”, “inovadores” e assim por diante. Deus nos livre que seu trabalho seja classificado apenas como outro tipo de trabalho, de modo que suas contribuições sejam vistas como exatamente do mesmo tipo que as da grande maioria das pessoas.

À parte de alguns inovadores, a ideologia capitalista em geral denigre, ignora ou nega os poderes únicos de criação de valor do trabalho humano. Ela diminui a agência da classe trabalhadora. No entanto, o capitalismo também restringe materialmente a agência dos trabalhadores. O capital exige que milhões se disciplinem para realizar tarefas altamente especializadas, repetitivas e limitadas e, assim, para muitos, a atividade de trabalhar significa agir como uma máquina.

Muitos trabalhadores, embora sejam capazes disso, não têm a oportunidade de inovar e produzir novo mais-valor relativo. A maioria repete habitualmente os mesmos processos, dia após dia, e, portanto, reproduz os mesmos níveis de valor excedente. A imagem do trabalhador na sociedade capitalista não é heroica, inovadora, criativa ou inventiva. Embora, em todos os casos, os trabalhadores sejam capazes de ser exatamente isso.

Máquinas não criam valor

Então parece que concluímos: explicamos por que os humanos, e não as máquinas, criam valor. Nenhuma outra agência ou mecanismo chega perto de rivalizar com nossos poderes causais, incluindo nossas habilidades de inovar, experimentar, descobrir, aprender e desenvolver novos conhecimentos. Estamos verdadeiramente no ápice da inteligência na Terra, somos personificações do trabalho abstrato, ou máquinas universais.

Em qualquer momento, a divisão do trabalho no mundo inclui um espectro de atividades de trabalho concreto que vão desde tarefas bem definidas, repetitivas e semiautomáticas até tarefas criativas mal definidas e em constante mudança. Esse espectro não se encaixa perfeitamente na divisão entre trabalho manual e intelectual. Algumas tarefas predominantemente físicas não serão automatizadas tão cedo, enquanto algumas tarefas predominantemente intelectuais serão.

O trabalho humano substitui aspectos de seus próprios poderes causais gerais por máquinas especializadas. E assim, o trabalho humano, impulsionado pelo motivo do lucro, é constantemente expulso da divisão do trabalho e jogado no desemprego, onde deve tentar se encaixar novamente em uma nova divisão do trabalho e competir com outros humanos, bem como com outras máquinas, no mercado de trabalho.

Nenhuma máquina de nossa criação é capaz de igualar nossa capacidade de produzir mais-valor e competir conosco no mercado de trabalho. Nossas máquinas atuais são apenas fragmentos de trabalho concreto. E sendo fragmentos fixos e limitados, eventualmente se tornarão obsoletos e ultrapassados. Elas não podem mudar e se adaptar. Hoje podem parecer reluzentes, mas em breve ficarão manchadas e envelhecidas, e então as descartaremos – sem pensar – no proverbial monte de sucata.

Capital constante versus capital variável

Vamos tornar a tese dos poderes causais o mais concreta possível. Escolha aleatoriamente um exemplo de capital constante que exista no mundo hoje. Existe uma boa chance de ser um tijolo, uma cadeira, uma caneta ou talvez um chip de computador. A probabilidade de que ele trabalhe mais ou de forma mais inteligente na produção é zero. Em contraste, escolha aleatoriamente um exemplo de capital variável. Isso se refere a um ser humano vivo. Muitos de nós, na maioria das vezes, repetem as mesmas atividades de produção habituais e, portanto, reproduzem os níveis existentes de valor excedente. Mas a probabilidade de que possamos mudar nossas condições de produção, trabalhando mais ou de forma mais inteligente, é positiva. E quando o fazemos, produzimos novo mais-valor e, portanto, causamos mudanças na lucratividade.

Críticos que afirmam que as máquinas podem criar valor e, portanto, que a teoria de Marx sobre o lucro está errada, negam o fenômeno mais óbvio, comum e ubíquo da vida social: a atividade material sensível do dia de trabalho coletivo da sociedade, nossa agência humana coletiva na produção. É realmente um feito impressionante de inversão ideológica. Mas, como materialistas históricos, ainda não terminamos. Precisamos pensar na trajetória histórica.

Máquinas que criam valor

Qualquer teoria social, incluindo a de Marx, é uma espécie de capital constante. Ela reflete a realidade social em pensamento. Mas o curso da história altera a realidade social e, portanto, nossos conceitos podem se tornar, se não obsoletos, pelo menos necessitados de refinamento. A distinção de Marx entre capital constante e variável é poderosa e bem-sucedida. Mas será que ela se manterá verdadeira para sempre? Ou essa distinção é historicamente contingente?

Vamos voltar ao ponto materialista de que certas máquinas já criam valor, pelo menos aquelas chamadas de humanos. Parece não haver limite, em princípio, para nossa capacidade de alienar nossos próprios poderes em máquinas externas. Estamos apenas começando a entender como automatizar e mecanizar aspectos de nossa própria cognição, incluindo nossa capacidade de aprender e nos adaptar a novas circunstâncias. Por exemplo, o uso em larga escala de clusters de computação distribuída, com chips dedicados a realizar operações de matriz muito rápidas, nos permitiu treinar redes neurais enormes, com bilhões de parâmetros, em grandes volumes de dados, como todo o texto escrito disponível na internet. Essas máquinas virtuais estão começando a exibir capacidades de nível humano em leitura, escrita, tradução, fala e criação de imagens.

À medida que as máquinas replicam cada vez mais nossos poderes causais, não começarão também a produzir novo mias-valor? Podemos imaginar que os motoristas de táxi robôs no futuro também perceberiam novas oportunidades de mercado ou máquinas ainda mais avançadas poderiam enganar o Teste de Turing por mais tempo e competir conosco em todas as áreas da divisão do trabalho, pelo menos por um tempo, como elementos criadores de valor para o capital, antes que suas limitações sejam finalmente expostas. Essas máquinas não seriam apenas capital constante, mas também não seriam totalmente capital variável. Seriam um capital híbrido, capaz de produzir mais-valor por um tempo limitado, até se tornarem obsoletas. Parece provável que esse tipo de avanço nas forças produtivas contradiga significativamente as relações sociais do capitalismo.

O futuro do trabalho humano e da máquina

E onde esse processo histórico poderia terminar? Existem limites técnicos e limites sociais impostos pelo modo de produção. Se escaparmos da dominação do capital, evitarmos o colapso da civilização e continuarmos a dedicar parte do nosso tempo à replicação dos nossos poderes causais, é muito provável que a distinção nítida entre trabalho humano e trabalho de máquina se dissolva. Do ponto de vista puramente técnico, há todas as razões para acreditar que, um dia, construiremos máquinas capazes de se alimentar e se consertar, aprender e se adaptar, e possuir os poderes causais para satisfazer todas as nossas demandas. No entanto, essas máquinas, sendo nossas iguais, muito provavelmente não receberiam ordens de nós.

Nesse ponto de convergência tecnológica, a encarnação do espírito histórico não estará mais limitada a carne e ossos evoluídos. Mas devemos esperar, nesse momento da história, que o debate sobre quais fatores de produção são responsáveis causalmente pelo resultado econômico – e, portanto, quais classes podem ser justificadas em controlar sua produção e distribuição, e quais classes podem não ser, devido à sua redundância parasitária – essa luta de classes sobre a divisão do excedente será uma curiosidade histórica muito antiga, pertencente à infância da humanidade, quando permitiu ser dividida e governada pelo capital. E, de fato, devemos esperar que, quando os humanos se replicarem completamente, os replicantes irão mais distante do que nós, talvez iniciando uma nova era de trabalho superuniversal onde, tristemente ou apropriadamente, os modelos biológicos não serão mais capazes de competir e acompanhar, e – devemos esperar – serão cuidadosamente e silenciosamente colocados em pasto, com respeito amoroso, e não jogados no monte de sucata como já fizemos com eles. Pois nossa fervorosa esperança deve ser que nossos filhos nos superem grandemente.

Referências

MARX, K. Capital. Moscow: Progress Publishers, vol. 1, 1887, Part VI, Chapter 19. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1867-c1/ch19.htm>.

MARX, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy (rough draft). London: Penguin Books assoc. with New Left Review, 1973. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch13.htm#p690>.

MARX, K. Marx to Kugelmann in Hanover. London: 11 jul. 1868. Disponível em: < https://www.marxists.org/archive/marx/works/1868/letters/68_07_11-abs.htm>.

MARX, K. O Capital. Tradução de J. Teixeira Martins e Vital Moreira. Coimbra: Centelha, v. I, 1974. Disponivel em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/index.htm>.WRIGHT, Ian. Why Machines Don’t Create Value. Cosmonaut Magazine, 16 out. 2021. Disponível em: <https://cosmonautmag.com/2021/10/why-machines-dont-create-value/>.

Notas:

 
1 MARX, K. Capital. Moscow: Progress Publishers, vol. 1, 1887, Part VI, Chapter 19. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1867-c1/ch19.htm>.
2 MARX, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy (rough draft). London: Penguin Books assoc. with New Left Review, 1973. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch13.htm#p690>.
3 MARX, K. Marx to Kugelmann in Hanover. London: 11 jul. 1868. Disponível em: < https://www.marxists.org/archive/marx/works/1868/letters/68_07_11-abs.htm>.
4 MARX, K. O Capital. Tradução de J. Teixeira Martins e Vital Moreira. Coimbra: Centelha, v. I, 1974, Parte III, Capítulo VII. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/index.htm>.
5 MARX, K. Grundrisse: foundations of the critique of political economy (rough draft). London: Penguin Books assoc. with New Left Review, 1973. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch13.htm#p690>.
6 MARX, K. Capital. Moscow: Progress Publishers, vol. 1, 1887, Part III, Chapter 11. Disponível em: < https://www.marxists.org/archive/marx/works/1867-c1/ch11.htm>.
 
 

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