Camponesa paraense está marcada para morrer. Denunciou crimes dos ruralistas e passou 10 anos sob escolta policial. A ameaça persiste. Hoje, ela expõe o “apagão” de políticas pública e as novas artimanhas do capital para intimidar lideranças

OUTRASPALAVRAS

Publicado 25/08/2023 às 18:52

 

Imagem: Tapajós de Fato

Dona Maria Ivete Bastos dos Santos, 56 anos, está jurada de morte.

Este terror a acompanha há mais de década. Dona Ivete é uma camponesa paraense da Gleba de Lago Grande, em Santarém, um assentamento agroextrativista onde há 144 comunidades tradicionais: ribeirinhas, quilombolas, indígenas… Porém, os moradores ainda aguardam os títulos coletivos de suas terras.

— Se você pesquisar, vai ver que é o maior assentamento do planeta! — orgulha-se ela, abrindo um largo sorriso de covinhas no rosto.

Ela tem um frondoso quintal produtivo onde cultiva laranja, lima, limão, tangerina e hortaliças, também um pouco de pupunha, manga e sapotilha, “que é uma fruta da nossa região”. Uma linda roça! Também cria galinhas. Trabalha nas feiras. E é “um pouco artesã”: com palha de tucumã, costura cestos; e, com as sementes, joias amazônicas.

É economia e pertencimento, garante. Modo de vida e resistência. Para defender isso, ela arregaçou as mangas. Foi presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém – e sua luta implacável em defesa dos povos amazônicos foi, em 2006, reconhecida pelo Prêmio Mahatma Gandhi, em 2006. Hoje, ela é coordenadora da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém.

Mas ser roceira hoje arranca mais suor que antes, diz ela, com certa melancolia. Há uns dez anos, a enxada começava a roçar o chão às seis da manhã. O trabalho ia até às onze horas. Agora, ninguém mais suporta o sol escaldante, “parece que a gente está queimando vivo”. Até quando chove é assim, relata. E há ainda a propagação de enfermidades: diversos tipos de canceres flagelam as comunidades. É por causa do mercúrio e do agrotóxico, explica, que “todo dia a gente está chorando por alguém”.

— Mudou tudo. O comportamento do rio, a nossa saúde, a nossa cultura. Tudo, tudo!

E é com aperto no coração, olhos cintilantes de naufraga, que ela narra o acosso que, hoje, sua comunidade enfrenta em várias frentes. Nos últimos tempos, os sojeiros do sul brasileiro têm investido pesado na região de Santarém – o que intensificou a truculência dos ruralistas, agora com terras mais valorizadas. E, na esteira desse avanço, veio mais desmatamento e a construção de redes portuárias no rio Tapajós – como o monumental Porto da Cargill, edificado após uma série de irregularidades e desrespeitos ao processo de licenciamento ambiental. E há também as violações de mineradoras como a Alcoa, que opera na região de Juruti, oeste do Pará, sob um discurso de “mineração sustentável” – e que agora está mirando o território onde vive Dona Maria Ivete.

Mas ela não se aquieta. Tem vigor para enfrentar as injustiças e violências da vida. E, por isso, está marcada pra morrer.

Camponesa marcada pra morrer

Há décadas ela incomoda muita gente graúda. Latifundiários contrataram pistoleiros para calá-la. Grileiros, também. Diante do risco iminente, ela foi para na lista da Justiça de defensores ameaçados – e ficou sob proteção policial por dez anos: de 2007 a 2017. Foi duro; a gente renuncia a todos os lazeres da vida, confessa. Os filhos ainda eram pequenos – e o perigo era tal que ela não podia tê-lo por perto.

— Só de longe, só escondida, porque eu ameaçava a vida deles também.

Ela desvia o olhar para baixo, onde parece contemplar algum vazio. É uma história dolorida, afinal.

— O tanto que sofri quando as minhas companheiras eram executadas… Eu ficava doente… Dava uma crise emocional muito grande… Ficava olhando as coisas… Dava um tipo de alucinação… “Meu Deus, eles estão chegando?”… “O que foi esse barulho?”… E a gente vê: pode passar dez, doze anos e companheiras que estão marcadas para morrer acabam assassinadas…

As promessas do terror ruralista nunca expiram. Jurada de morte está, até morrer – de morte morrida ou morte matada. E a intranquilidade é perene. A camponesa precisa estar sempre ressabiada, precavida. Com olho na nuca. Por isso, nunca alardeia quando precisa viajar. Só vai à cidade acompanhada. Qualquer encarada – torta ou não – nas ruas faz palpitar o seu coração. O reconforto, conta, é o de não guardar remorsos na vida: nunca se corrompeu, nunca abaixou a cabeça.

Não sou de fugir da luta, garante ela, em frase firme, rápida, que deve sempre repetir em conversas, debates, discursos e entrevistas. Afinal, essas palavras são ela.

E conta que vive novo momento da vida, que a idade avança – e as dificuldades físicas, também.

— Eu sinto medo, mas eu estou mais preparada hoje do que antes — diz, ressaltando que vive novo momento de vida, em que a idade avança; e, com ela, as dificuldades físicas.

Mas o vigor de uma mulher como Maria Ivete não desaparece tão fácil.

Novas roupas da intimidação

Um senhor bem-vestido bateu à porta do Sindicato onde Maria Ivete atua. Levava uma mala cheia de dinheiro, como vemos em filmes. Representava algum poderoso, que a camponesa furtou-se a nomear, e queria “conversar”. Ela mandou ele chispar dali. Com delicadeza corporativa, ele chispou; mas antes advertiu: quando o diálogo não funciona, vem a reação…

— Isso foi recente. Com um novo momento, vem novas ameaça. O capitalismo é assim, sempre se reconfigurando… — analisa ela.

Então, ela descreve a roupagem moderna do capital para acossar os povos da floresta. A primeira tentativa é a de comprar lideranças. Se não dá certo, ele come pelas beiradas, instigando desavenças entre elas para fomentar a discórdia e a canibalização dos movimentos populares. Outra opção é cooptar setores de partidos políticos nos quais essas lideranças atuam; e assim pressioná-las. Se tudo isso fracassa, tentam iludir a base de sindicatos, presenteando famílias, bancando festas nas comunidades, prometendo mais empregos e melhores salários, fornecendo antenas parabólicas, patrocinando motores de geração de luz…

— Onde o governo não chega para atender as necessidades básicas do povo, lá estão eles!

Se tudo fracassa, vem a estratégia clássica: promessas de assassinato, pistolagem, casas incendiadas…

Mas dona Maria Ivete tem um antídoto para mitigar essa truculência: políticas públicas para os povos das florestas.

Ela aponta a importância do Bolsa Verde em sua comunidade, auxílio este criado em 2011, no governo Dilma, que concedia R$ 300 a cada três meses para famílias que vivem dentro de reservas e assentamentos extrativistas – mas foi interrompido por Bolsonaro.

—Era uma segurança para a gente.

Neste mês, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática, anunciou a retomada do programa, dobrando o benefício para R$ 600.

Maria Ivete também denuncia a irracionalidade de projetos de infraestrutura na Amazônia servirem apenas “os grandes”. “E a gente, como fica?”, revolta-se ela. E que a assistência técnica para a agricultura familiar, que deveriam ser ofertada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e pela Embrapa, está desmantela no país, o que gera muitas dificuldades para que agroextrativistas como ela participarem de programas como o de Aquisição de Alimentos (PAA), no qual o governo adquire e doa alimentos da agricultura familiar, e do de Alimentação Escolar (PNAE), para o fornecimento de comida nutritiva e saudável na educação básica pública.

Santos amazônicos

Maria do Espírito Santo da Silva, 51 anos, liderança agroextrativista. Baleada com seu esposo José Cláudio Ribeiro da Silva, 52 anos, em uma emboscada no dia 24 de maio de 2011, no assentamento Maçaranduba, oeste do Pará.

Irmã Dorothy Stang, 73 anos, defensora dos direitos humanos na Amazônia. Recebeu seis tiros, um deles na cabeça, no dia 12 de fevereiro de 2005, em Anapu, sudoeste do Pará.

Chico Mendes, 44 anos, liderança dos seringueiros da Bacia Amazônica. Foi baleado no peito a tiros de escopeta quando saia de sua casa para tomar banho, em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, interior do Acre.

Ao narrar labutas, ideias e enfrentamentos, dona Ivete evoca estes ativistas tragicamente assassinados, por vezes cerrando os olhos em ato de fé. Ela poderia (e ainda pode) ser eles. “Como a situação vivida por Maria do Espírito Santo”… “Muitos como a irmã Dorothy”… “E Zé Cláudio”… “É preciso lembrar de Chico Mendes, dos que se foram”… É quase uma oração. Soa como um pedido de benção para dar-lhe forças e coragem para perseverar na luta, não cair na resignação e ajudar a livrar os povos da floresta dos males do capital, amém.

Seriam estes alguns das santas e santos amazônicos?

— Quando a gente está sofrendo muito, no sufoco, a gente chama por eles — diz dona Ivete, surpresa com a pergunta. — Quando estamos precisando, eles dão força para nós, iluminam nossas cabeças. É muito conflito… e todos da luta passam por isso. Eles se foram, mas ainda são muito importantes para nós. E todos nós temos um sentimento… um sentimento de amor que não tem explicação com a terra, com a floresta, com o rio, com os encantados que estão por ali…

Eu só tenho o quintal de casa, lembra ela. Portanto, o único patrimônio que poderá deixar são os laços criados para as lutas que se seguirão – como os de Chico Mendes, de Maria do Espírito Santo, de Zé Cláudio, de irmã Dorothy…

— A gente vive porque acredita.

   

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