No longo curso, a narrativa de Aristides Milton foi suplantada pelos Sertões, de Euclides da Cunha. Mas em seu tempo, com base em cientificismo e manipulação de fontes, ela ajudou a legitimar a violência do Estado contra os revoltosos

População de Canudos (os poucos que não foram mortos) amontoada pelos militares. A foto fez parte da exposição “Euclides da Cunha. Os sertões — testemunho e apocalipse”, na Biblioteca Nacional

Sem sombra de dúvidas Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, foi o livro que imortalizou em nossa tradição cultural e intelectual o movimento liderado por Antônio Conselheiro no agreste baiano no final do século XIX. Talvez essa permanência discursiva de Os Sertões junto à memória cultural brasileira se dê, para além de todo o talento estilístico e de estruturação narrativa da obra, pelo fato de Euclides ter verificado ali as mazelas advindas do confronto entre as tropas militares e os habitantes de Canudos, ressaltando que os ditos civilizados agentes públicos implantaram um verdadeiro estado de barbárie ante aquela população sertaneja, a qual, como argumentou o engenheiro-jornalista, passava por todos os tipos de provações sociais. Não por acaso Os Sertões ostenta a insígnia de ser um livro “vingador”.

No entanto, e percebendo a repercussão imediata do livro de Euclides entre os letrados e as letradas do começo do século XX, naquele presente da ainda nascente Repúblicaencontramos uma “história oficial” da Campanha de Canudos, que se articulava de maneira diametral à obra euclidiana, sustentando a legitimidade do cerco aos sertanejos e evocando que essa operação se fez necessária para a instauração e perpetuação da ordem político-social republicana. Essa obra foi encomendada e publicada pelo IHGB e o seu autor é o sócio Aristides Milton, um republicano histórico.

O texto de Milton, saído na Revista do IHGB em 1900 com o título A campanha de Canudos, já em seu parágrafo inicial evidencia que de algum modo o movimento messiânico liderado por Antônio Conselheiro é um perigo à ordem republicana há pouco consolidada, bem como os seus desdobramentos uma repercussão negativa diante da população em geral, a qual pode tomar consciência da falta de legitimidade do governo e da ineficácia político-social das suas instituições.[1] Para Aristides Milton:

Quando o país, depois de ver jugada a revolta de 6 de setembro, se reputava livre do pesadelo, que por longos meses o oprimira, e, restabelecidas afinal a tranquilidade e a ordem – que a República estava definitivamente consolidada, graves e originais acontecimentos, ocorridos no Estado da Bahia, vieram sobressaltar o espírito público, abrindo na história do Brasil um novo sulco de lágrimas e sangue (MILTON, 1900, p. 5).

Deliberadamente Aristides Milton atrela o movimento de Canudos ao separatismo, estando a unidade nacional, portanto, ameaçada. Interessante que Milton filia os acontecimentos de Canudos aos movimentos que no passado colocam sub judice a unidade metropolitana, ou a imperial brasileira. Essa força “revolucionária” dos movimentos separatistas do passado, que o próprio Milton em outra oportunidade identifica como precursores do federalismo, difere do ocorrido em Canudos pelo simples fato que é, agora, a causa republicana que está questão. De todo modo, o que retemos é que o agremiado do IHGB vislumbra certa força revolucionária em Canudos, ou seja, um movimento que se bem-sucedido é capaz de transformar toda a ordem implantada:

A mesma tendência revolucionária que, desde 1822 até 1848, trouxera pendente da sorte das armas o futuro do império, e, predominado ora aqui, ora acolá, celebrava esse quarto de século por uma agitação constante, e lutas fratricidas de pungitiva lembrança, havia ressurgido na plenitude de sua funesta energia para perturbar o regime, que em 1889 tinha sido inaugurado (MILTON, 1900, p. 5).

Milton destaca que há entre os protagonistas do movimento dois tipos específicos de cidadãos. Primeiro há aquele que, para além das convicções políticas, são estimulados pelo desejo de servir à pátria e respeitam as instituições republicanas. Porém, há um segundo tipo de cidadão ali existente totalmente contrário ao republicanismo. Faz-se necessário controlar esses sujeitos, porquanto Canudos corre o risco de tornar-se, e isso é muito difundido pela imprensa da época, um Estado dentro de outro Estado.

Mesmo que a Campanha de Canudos não revelasse um posicionamento político unitário por parte dos seus adeptos, ela ainda sim assinalava uma ruptura com a estabilidade do regime. Além disso, a existência de um movimento como esse servia de pretexto para a oposição, sobretudo, para aqueles que almejavam uma restauração monárquica, a deslegitimação do governo, bem como das instituições republicanas. De acordo com Aristides Milton:

Em todo caso, forçoso é confessar – que a campanha de Canudos, a despeito de não revelar feição partidária bem caracterizada, assinala um período de grandes surpresas e reais temores para a república. E – o que mais é – tendo sido explorada por uma politicagem perversa, serviu muitas vezes de pretexto para agressões injustas ao governo, e afrontas insensatas ao povo baiano (MILTON, 1900, p. 6).

 O Conselheiro é, no texto de Milton, figurado e reconhecido como um “homem alucinado” pela própria doutrina. Esse sujeito é marginalizado totalmente pelo discurso oficial de Aristides Milton, que sempre o aborda pelo crivo da des-razão[2]. Enquanto isso os habitantes de Canudos, à mercê das mazelas sociais que lhes abatem, são vistos sob a pecha de “fanáticos”. No fundo todos estão em uma loucura coletiva e o seu discurso não possui legitimidade diante da civilizada República. No discurso oficial de A Campanha de Canudos a cisão entre litoral e interior, entre barbárie e civilização, que tanto imortaliza a interpretação de Euclides da Cunha, é expandida no seu limite máximo.

 É certo que Antônio Conselheiro ataca em suas pregações e discursos a República, mas como sinaliza Aristides Milton é menos para uma propaganda restauracionista da monarquia e mais em razão da vontade de ver restabelecidas certas instituições do regime deposto, como, por exemplo, o casamento religioso, que a constituição não mais valida como oficial, “incorrendo por isto no desagrado dos tradicionalistas impenitentes”. Em resumo: “O Conselheiro hostilizava a república – por ter está decretado a separação do Estado e da Igreja, medida repelida por quantos não aprofundam jamais os ensinamentos de Cristo, ou não tem forte e enraizada a sua fé” (MILTON, 1900, p. 6). 

Vê-se claramente que o fio condutor da narrativa de Aristides Milton estava ao lado da República como ilustradora, ou civilizadora, da sociedade, nem que para isso ela marginalizasse, ou exterminasse, setores da sociedade que não se adequavam a sua ordem política-social-cultural, como era o caso de Canudos. Milton sugestiona os sertanejos como inimigos da República, e narra uma história épica e heroica da vitória dos militares sobre aqueles sujeitos, que para além de “fanáticos” são considerados “bandidos”. É uma história confessadamente dos vencedores, como se pode apreender neste excerto: “Ele [o Conselheiro] insurgia contra a república, porque esta ousara enfrentá-lo em Maceté, dando assim o sinal que não reconhecia aquele Estado no Estado, constituído à sombra de uma tolerância imperdoável, em menoscabo das autoridades e da lei” (MILTON, 1900, p 6).

Os poderes republicanos não podem aceitar o “Bom Jesus” do agreste, tampouco a sociedade brasileira pode permitir tamanha insanidade, totalmente fora dos padrões de civilização que circulavam na Belle Époque brasileira, especialmente em suas grandes cidades. A descrição das migrações de sertanejos em direção à Canudos sinaliza para um olhar que estereotipa o Outro, caracterizando-o, pela falta de senso de alteridade, a partir de uma lógica identitária que se quer negar e colocar à margem. Vejamos um trecho do artigo de Milton: “(…) das cercanias desse lugar, como de pontos mais afastados, até onde chega a fama do santo, vinham troços de homens e mulheres, velhos e crianças, doentes e sãos, com o fim de ouvir e consultar ao Bom-Jesus, nome por que era tratado o Conselheiro, o qual não passava de um louco, de um sonhador das coisas do céu” (MILTON, 1900, p. 8).

Além disso, o olhar cientificista da época, carregado de preconceitos em razão dos seus determinismos, também se fez presente no estudo de Aristides Milton. O movimento e o seu líder são considerados frutos do meio, bem como das formas de pensar nordestinas; o que implica, evidentemente, uma classificação taxonômica dessa região e dessa população, sempre vistos a partir do olhar civilizador, racional e republicano, marcas incontestes do progresso nacional. Como assinala o sócio do IHGB: “Alguma coisa, mais do que loucura de um homem, era necessária para este resultado, e essa alguma coisa é a psicologia da época e do meio, em que a loucura de Antônio Conselheiro achou combustível parar atear o incêndio de uma epidemia vesânica” (MILTON, 1900, p. 8).

Esse discurso de exclusão e de interdição daquilo que se considera fora da razão, ou seja, o louco, não era apenas registrado pela narrativa de Milton, mas pelas próprias fontes que utilizou, as quais mais do que informar o sujeito cognoscente historiador eram legitimadoras da história que se queria escrever. Entre elas encontramos estudos considerados científicos, que de antemão, por meio das suas leis deterministas, classificavam, rotulavam e excluíam quem estava fora dos padrões estabelecidos como civilizatórios, como era o caso dos habitantes de Canudos, fadados a toda sorte de atavismo em decorrência do meio em que viviam.[3] Verificamos isso a partir da utilização de um atestado de sanidade mental do Conselheiro realizado por um médico da época:

Antônio Conselheiro é seguramente um simples louco. Mas, essa loucura é daquelas, em que a fatalidade da moléstia registra com precisão instrumental o reflexo, senão de uma época, pelo menos do meio em que elas se geraram. E acrescenta:  a cristalização do delírio de Antônio Conselheiro, ao terceiro período de psicose progressiva, reflete as condições sociológicas do meio em que organizou (MILTON, 1900, p. 11).

Os sertanejos que migram para Canudos são narrados como descumpridores da lei e da ordem, mesmo antes de surgir o movimento propriamente dito. A República paira onipresente na narrativa de Aristides Milton. Os habitantes do sertão baiano são considerados bandidos, foras da lei e desordeiros antes, durante e depois do conflito armado. A governantabilidade republicana disciplina o espaço público e as formas de conduta, além de criar inimigos comuns que atentam contra a ordem e o discurso dominantes.[4] Assim Milton descreve o arraial:

Foi desse modo que se formou aquela nova Vendéia, comparável à da França pelos acidentes topográfico, que ambas ofereciam, natureza especial do solo, devotamento cego a uma superstição e a um erro, pretexto religioso também como justificativa de uma conduta antipatriótica, insensata e criminosa (MILTON, 1900, p. 10).[5]

Nem mesmo a fé professada pelos habitantes de Canudos, de matriz cristã, é aceita pela República e por suas instituições. Primeiro de tudo, em razão desses sujeitos seguirem um “alucinado” que se considera o próprio Jesus de Nazaré. Algo inaceitável, como se pode perceber, para a Igreja católica da época. Em segundo lugar Antônio Conselheiroé acusado pela Igreja de usar o nome de Deus para “fanatizar” centenas de pessoas. Ademais, e isso é uma nova ordem política da Igreja na República, o Conselheiro e seus seguidores não respeitam a autoridade republicana. Por fim, o discurso católico da passagem para o século XX, cientificizado desde as reformas de Leão XIII, desautoriza as pregações do Conselheiro por não se pautarem por uma racionalidade litúrgica, sendo mera obra de crendice, de fanatismo e de distorção dos princípios verdadeiramente cristãos.

Em vista disso, mais uma vez as fontes utilizadas por Aristides Milton confirmavam o seu preconceito racionalizador diante de um episódio que estava fora tanto da ordem política quanto dos princípios que organizavam a sociedade brasileira, majoritariamente católica. A fonte utilizada foi um ofício do chefe de polícia da Bahia remetido ao governador, ainda no ano de 1876, ou seja, em plena Monarquia Antônio Conselheiro já agia:

É de meu dever levar ao conhecimento de v.s. que, no arraial de Bom Jesus, existe uma seita de fanáticos e malvados que põe em perigo a tranquilidade pública. Há 12 anos, pouco mais ou menos, com pequenas interrupções fez sua residência neste termo Antonio Vicente Mendes Maciel, vulgo Antônio Conselheiro, que, por suas prédicas, tem abusado da credulidade dos ignorantes, arrastando-os ao fanatismo (MILTON, 1900, p. 15). 

 Aristides Milton narra que o fanatismo se prolifera como uma espécie de “contágio”. Isso a partir da sua análise de “psicologia das multidões”, em que se assinala que os seres agem por imitação. Os sertanejos, em busca de um lugar estável para estabelecer as suas moradas, algo que só ocorre na década de 1890, entregam-se, na narrativa de Milton, aos crimes, perturbam a ordem pública, impelem à mão armada a cobrança de impostos, invadem e saqueiam as povoações. Ou seja, o que se inicia como um movimento religioso toma forma de “quadrilha” e coloca, naqueles sertões baianos, em suspeita o poder republicano em atuação por todo o território nacional. Para Milton, o Conselheiro é o líder de um Estado autônomo:

Realmente, não tardou muito – que os sectários do suposto profeta, abandonando a primitiva posição de simples adoradores do Bom-Jesus, como ao Conselheiro denominavam, se convertessem todos numa de legião de jagunços, que foram praticando por aqueles arredores vários atos infringentes da lei” (MILTON, 1900, p. 18).

Como forma de fazer os seus leitores verem a movimentação político-religiosa e os seus descaminhos do arraial de Canudos, Milton mais uma vez se valeu de uma fonte que apenas confirmava o seu ponto de vista. Uma fonte, como as outras, de natureza oficial. A testemunha ocular acionada por Milton foi o capuchinho João Evangelista de Monte Marciano, que permaneceu entre os sertanejos por algum tempo, podendo, então, emitir um relatório às autoridades locais e centrais sobre o cotidiano do Arraial. O relato do capuchinho só corroborava a narrativa do sócio do Instituto Histórico:

(…) confiou-me a árdua missão de ir ao povoado de Canudos, freguesia de Cumbe, onde se estabeleceu o indivíduo conhecido vulgarmente por Antônio Conselheiro, afim de procurar pela pregação da verdade evangélica, e apelando para os sentimentos da fé católica, que esse indivíduo diz professar, chamá-lo e aos seus infelizes companheiros aos deveres católicos e de cidadão, que de todo esqueceram, e violam habitualmente com as práticas mais extravagantes e condenáveis, ofendendo a religião e perturbando a ordem pública (MILTON, 1900, p. 18).

A história oficial da Campanha de Canudos escrita por Milton nos revela, pois, o enfrentamento entre República versus desordem e entre razão versus loucura ou fanatismo. Obviamente que a República e a razão se impuseram diante daquela “seita político-religiosa”, capaz de “hostilizar” o governo constituído e manipular a fé dos crentes. A derrubada de Canudos foi o signo máximo do poder republicano em suas ambições de ordenamento social, repressão ideológica, violência de Estado e de legitimação política. Uma perfeita história dos vencedores, porém longe de ser a versão que prevaleceria a longo prazo.[6]

Referência bibliográficas

HERMANN, Jacqueline. Canudos destruído em nome da República. Uma reflexão sobre as causas políticas do massacre de 1897. Tempo, vol. 2, n. 3, 1996.

HERMANN, Jacqueline. Canudos sitiado pela razão: o discurso intelectual sobre a ‘loucura’ sertaneja. Questões e Debates, vol. 13, n. 24, 1996.

KOSELLECK, Reinhart. Mudança de experiência e mudança de método. Um esboço histórico-antropológico. In: _____. Estratos do tempo. Estudos sobre história. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

MILTON, Aristides. A Campanha de Canudos. RIHGB, tomo LXIII, parte II, 1900.

MONTEIRO, Vanessa Sattamini Varão. Canudos: guerras de memória. Mosaico, vol. 1, n. 1, 2009.

RODRIGUES, Nina. As coletividades anormais. Rio de Janeiro, 1939.

VENTURA, Roberto. A nossa Vendéia: Canudos, o mito da Revolução Francesa e a formação de identidade cultural no Brasil (1897-1902). Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 31, 1990.


[1] Reapropriado por setores políticos desfavoráveis à República civil, como os jacobinos e os monarquistas, e tornado um ingrediente que dirige a opinião pública, “o discurso que transformara Canudos num foco revolucionário e perigosamente subversivo incendiou a arena política, tornando o extermínio do arraial conselheirista o único meio capaz de provar o compromisso do governo eleito com os princípios republicanos. Os ataques dos jacobinos eram diretos e passaram a exigir uma imediata tomada de posição do governo” (HERMANN, 1996, p. 14).

[2] Essa interpretação sobre o Conselheiro torna-se mais conhecida a partir da análise de Nina Rodrigues. Para conferir o ensejo ver “A loucura epidêmica de Canudos. Antonio Conselheiro e os jagunços” (RODRIGUES, 1939, p. 6).

[3] A busca de explicações “científicas” agencia elaborações discursivas que deixam Canudos “sitiado pela razão” (HERMANN, 1996, p. 2021).

[4] Vanessa Sattamini Varão Monteiro expõe que o arraial de Canudos se torna “um território que não estava submetido a lógica instituída pela República. Por isso mesmo, uma ameaça. A comunidade é identificada pelos homens da República como local de desordem, de atavismo, um atraso que era preciso combater” (MONTEIRO, 2009, p. 84).   

[5] Roberto Ventura faz uma aproximação entre o caso francês da sublevação da Vendéia, em 1893, ainda nos horizontes da Revolução Francesa, e o imaginário republicano brasileiro: “A metáfora da Vendéia incorpora Canudos a uma história, a da Revolução Francesa, vivida ao nível imaginário pelos republicanos brasileiros, expurgando dúvidas e incertezas coletivas quanto ao futuro nacional” (VENTURA, 1900, p. 131).

[6] De acordo com Reinhart Koselleck em curto prazo a história é feita pelos vencedores, porém em longo prazo ninguém a domina. A narrativa histórica dos vencedores “é elaborada para curto prazo, concentrando-se naquelas sequências de eventos que, graças à sua ação, lhes propiciariam a vitória” (KOSELLECK, 2014, p. 63).

   

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