Na data em que as mulheres comemoram os 115 anos da histórica manifestação de 10 mil mulheres na luta pelo voto feminino em Londres, em 1908, confira na entrevista da militante da Marcha Mundial de Mulheres sobre conquistas e desafios das feministas

Mulheres sufragistas em protestos pelo direito ao voto, em Londres, 1908. Imagem: Museu de Londres/ imagens do Patrimônio/Biblioteca de Fotos Científicas
Ouça a entrevista completa de Miriam Nobre.

Por Solange Engelmann
Da Página do MST

Você sabia que o simples ato de uma mulher sair de casa no dia das eleições para votar no Brasil e no mundo só foi possível após um longo processo de luta das mulheres do movimento sufragista?

O movimento sufragista foi uma longa campanha de luta direta, nas ruas, organizado pelas mulheres, em diversos países, reivindicando o direito ao voto feminino, entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Na Inglaterra o direito ao voto foi conquistado em 1918, mas só para as mulheres com propriedade. Já o direito de todas as mulheres votarem só foi possível em 1928 no país.

No Brasil as mulheres só conquistaram o direito de votar em 1932, no governo Getúlio Vargas, após vários anos de lutas feministas.

“A luta pelo direito ao voto tinha a ver como uma agenda das mulheres em relação ao mundo, por exemplo, pela questão da educação, do antimilitarismo e pela abolição da escravidão; pelo direito ao trabalho em condições não tão duras como acontecia naquele período”, afirma Miriam Nobre, engenheira agrônoma, integrante da SOF Sempreviva Organização Feminista e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

No dia em que as mulheres no mundo comemoram os 115 anos da histórica manifestação de 10 mil mulheres na luta pelo voto feminino em Londres, que ocorreu no dia 21 de junho de 1908, confira na entrevista de Miriam algumas conquistas e desafios que ainda permanecem nas lutas feministas da mulheres por direitos e igualdade no mundo e no Brasil.

Miriam Nobre, da SOF Sempreviva Organização Feminista e Marcha Mundial das Mulheres. Foto: Arquivo pessoal

Página do MST: Este ano a histórica manifestação de 10 mil mulheres pelo voto feminino em Londres, que ocorreu no dia 21 de junho de 1908, completa 115 anos. Na sua opinião, qual a importância dessa manifestação na luta das mulheres no mundo hoje?

Miriam: No século XIX, quando as mulheres estão lutando pelo direito ao voto, também estão lutando pelo direito à educação das mulheres e meninas. A luta pelo direito ao voto tinha a ver como uma agenda das mulheres em relação ao mundo, por exemplo, pela questão da educação, do antimilitarismo (1) e pela abolição da escravidão; pelo direito ao trabalho em condições não tão duras como acontecia naquele período, em que as mulheres trabalhavam em condições muito degradantes com assédio e violência permanente. Também para enfrentar a situação do trabalho e ter salário igual ao dos homens.

Outra coisa desse período tem a ver com as formas de luta que as mulheres criaram: a organização na forma de coalizões, sindicatos de mulheres e também elas começaram a fazer todo processo organizativo de criar consciência e ganhar outras pessoas pra essa ideia; de arrecadar fundos e de fazer mobilizações públicas.

Então, logo depois dessa grande manifestação um setor do movimento sufragista se radicaliza na Inglaterra e Estados Unidos, sobretudo, criando formas de luta de ação direta.

No final do século XIX no Brasil, em 1873, tinha um jornal editado por mulheres abolicionistas, republicanas e sufragistas (2), articulando essas três dimensões da luta. Mas, depois a luta no Brasil teve a característica da vertente bem comportada, que tinha relação com o movimento nos EUA. Mas, o interessante é que as mulheres no Brasil, da Federação Brasileira pelo Progresso do Feminino, quando foram negociar no governo Getúlio foi apresentado pra elas a possibilidade do voto qualificação – o voto pras mulheres com propriedade e elas não aceitaram, mantiveram um compromisso de classe. Disseram não: “ou é tudo ou nada!”. E quando a gente conquistou o direito do voto feminino no Brasil já era para todas as mulheres.

Você pode comentar sobre algumas conquistas e mudanças em relação aos direitos das mulheres no mundo após essa manifestação histórica?

Tem a conquista formal, mas como ela se concretiza na vida das mulheres? Tem uma consigna do movimento feminista: “que a igualdade ou é pra todas ou não é”. Em termos de garantir o direito de voto, exista a possibilidade, mas de fato as mulheres conseguiam votar? A gente vê no processo eleitoral nos EUA até hoje todas as barreiras criadas pras pessoas efetivamente irem votar.

Em termos da agenda política das mulheres: a guerra aconteceu, teve a Primeira Guerra, depois a segunda, até hoje a gente vive na situação do militarismo. O acesso das mulheres e meninas à educação foi um direito que a gente viu se expandir no mundo. No Brasil a escolaridade das mulheres já é maior que dos homens, nas faixas etárias mais novas. Porém, no mercado de trabalho isso não repercutiu imediatamente, a gente vê que tem uma sobre escolarização das mulheres em determinadas profissões; às vezes, os homens que estão recebendo a mesma coisa que as mulheres são menos escolarizadas que elas.

O setor de educação, pelo menos no ensino fundamental e médio é uma profissão bastante feminizada, mas em que condições as mulheres estão exercendo a profissão? Qual a remuneração? Como a sociedade reconhece a valoriza o trabalho das professoras, das educadoras nas creches? Ainda tem muitos desafios para que a educação, seja de fato uma prioridade.

A outra grande questão era a abolição da escravatura, formalmente derrotada, porém, o racismo e esse modo de plantation, extraindo toda energia da natureza e das pessoas, em benefícios de poucos proprietários que extraiam lucro desse tipo de produção, ainda está estruturando a sociedade. Ainda tem toda uma batalha pra que isso, de fato, se concretize.

Sufragista e professora Emmeline Pankhurst (1858-1928) sendo presa quando tentava apresentar uma petição ao rei George V, em 1914, no Palácio de Buckingham, em Londres. Foto: Divulgação web

Que desafios ainda permanecem na atualidade na luta das mulheres por direitos no Brasil e no mundo, principalmente para as mulheres dos movimentos populares?

A agendas das mulheres é tudo, as mulheres acompanham a vida. Tem o fato das mulheres serem responsabilizadas pelo trabalho doméstico, de cuidados que sustenta a vida e tem uma demanda pra que seja reconhecido, redistribuído; não só entre as pessoas que convivem, mas com uma presença grande do Estado de ter políticas públicas que acolham muito desse trabalho e ter um reconhecimento, ser valorizada, ser bem remunerada.

Mas, a gente pode ampliar pra, por exemplo, o cuidado das pessoas idosas e outras questões do cuidado. E também quando realizado de forma comunitária, que é muito importante pra experimentar jeitos nossos de como fazer isso, de como cuidar das crianças, fazer comida e lidar com lavanderias coletivas. Pra que esses processos possam ser feitos do jeito que as pessoas que estão na comunidade querem fazer, mas também com apoio financeiro e infraestrutura do estado. Essa questão do cuidado é super importante por ser essencial pra gente existir. Esse cuidado é distribuído desigualmente, as mulheres cuidam mais do que são cuidas. É uma questão de a gente enfrentar isso.

Outra coisa é a gente ter a capacidade de fortalecer as comunidades onde a gente vive, poder decidir, se quer ou não ter filho, quando, decidir sobre a nossa vida sexual e reprodutiva sem imposições. Como ainda é difícil, as mulheres são responsabilizadas totalmente sobre isso e, num quadro em que a possibilidade de fazer um aborto seguro é ilegal no país.

Mas, as mulheres também estão no movimento de luta por moradia e querem uma casa boa, as mulheres estão no movimento lutando por terra na Reforma Agrária, lutando pelos seus territórios. E que elas possam decidir sobre o jeito como a terra é manejada.

As mulheres estão auto-organizadas no movimento feminista e também organizadas em muitos movimentos sociais, com uma agenda ampla e é muito importante garantir que as mulheres possam se expressar, ter voz, participação política ativa pra que essa visão das mulheres, de como a vida acontece, possa organizar a nossa sociedade.

Referências:

1. Virginia WoolfTrês Guinéus.Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019.

2. Alves, Branca Moreira e Pitanguy, Jacqueline. A luta pelo voto no Brasil. In: Feminismo no Brasil. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2022

Confira: Dez filmes que relembram as lutas políticas das mulheres pelo direito ao voto

*Editado por Fernanda Alcântara

fonte: https://mst.org.br/2023/06/21/a-luta-das-mulheres-pelo-direito-ao-voto-no-mundo-completa-115-anos/

 


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