Kristine Stolakis, autora do documentário Pray Away, que investigou as chamadas terapias de reorientação sexual, participa hoje, na Casa Thomas Jefferson da Asa Sul, da exibição e discussão do filme

 

Victor Correia
postado em 19/06/2023 Correio Braziliense

 

 (crédito: /RJ Losada/Divulgação )
(crédito: /RJ Losada/Divulgação )

A chamada "cura gay", prática nociva que tenta fazer com que pessoas LGBTQIA se conformem à heterossexualidade, não é um problema apenas no Brasil. Em entrevista ao Correio, a diretora do documentário Pray Away, Kristine Stolakis, conta que as chamadas terapias de reorientação sexual, ou terapias de conversão, existem e continuarão a existir enquanto houver uma cultura de homofobia e transfobia no mundo. Lançado em 2020, o filme aborda a história de pessoas LGBTQIA que passaram por esse processo, bem como antigas lideranças de organizações que ofereciam a prática.

Kristine alerta que a "cura gay" ainda é muito presente dentro de organizações religiosas, embora a prática da terapia por psicólogos registrados tenha sido proibida em muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Os danos da terapia de reorientação sexual são fartamente documentados, incluindo efeitos severos na saúde mental de pessoas que passaram por isso. Para a diretora, é preciso combater a homofobia e a transfobia também a nível cultural, e cobrar que instituições religiosas se posicionem vocalmente contra a prática.

Kristine está em Brasília e participa hoje, às 19h, da exibição e discussão do documentário, organizada pela Embaixada dos Estados Unidos do Brasil e sediado na Casa Thomas Jefferson da Asa Sul.

Por que você decidiu produzir um documentário sobre o tema?

Eu decidi dirigir este filme porque tive um tio, infelizmente já falecido, que passou pela terapia de conversão após se descobrir trans ainda criança. Ele passou por isso em uma época muito diferente, quando todos os psicólogos registrados e ativos eram, essencialmente, terapeutas de conversão. Eu tive dificuldades para entender, o quão profunda era a esperança dele de que a mudança estava logo ao seu alcance, que mudar de trans para cis, ou de gay para hétero, era possível. E, claro, sua devastação e o caminho muito duro que ele acabou percorrendo por causa de sua saúde mental, isso resultou que, por toda a vida, ele acreditou que essa mudança era possível.

Para mim, criar um documentário que explora como o poder funciona nesse mundo, onde a homofobia e a transfobia estão internalizadas e externalizadas de uma forma muito perigosa, me interessou. Por que isso é tão poderoso? Por que continua a existir? Eu passei quatro anos, do começo ao fim, produzindo o documentário e gravando com antigos líderes do movimento, com pessoas que disseram que conseguiram se "curar", que lideraram o que foi a maior organização de terapia de conversão do mundo, a Exodus International, e nós gravamos com pessoas que deixaram esse movimento e depois se declararam LGBTQIA .

O que motiva as pessoas LGBTQIA a procurarem essa chamada "cura"?

Uma frase no final do nosso filme responde a essa pergunta. "Enquanto existirem homofobia e transfobia, algo parecido com o movimento da terapia de conversão vai continuar". Se você ensina as pessoas que ser LGBTQIA , de alguma forma, é uma doença psicológica, ou um pecado espiritual, elas vão se sentir motivadas a "se corrigirem", apesar de sabermos que não há nada para consertar. As pessoas que passaram pela terapia de conversão têm duas vezes mais probabilidade de tentar suicídio.

Mas, você pode pensar que esse movimento oferece a promessa de pertencimento. De pertencer à sua comunidade espiritual, à sua família, ao seu país. Se você está cercado de uma retórica odiosa sobre quem você é, e você ouve que está doente de alguma forma e não tem o direito de fazer parte dessa comunidade que você ama, você pode entender porque as pessoas são tentadas a mudar.

Eu digo que esse movimento das pessoas que se declaram "ex LGBTQIA " e o olhar que nós trouxemos no filme é um estudo sobre o lado escuro da necessidade — extremamente humana — de pertencimento. Quando você não sente que pertence, você faz muitas coisas para tentar mudar isso, mesmo que isso te machuque ou machuque outras pessoas. Essa é uma parte muito triste e complexa desse movimento.

A prática é proibida no Brasil e em outros países. Isso não foi o suficiente para frear o movimento?

Você pode fechar uma organização na sua rua, você pode impedir que um pastor pare de fazer uma pseudoterapia em seu escritório uma vez por semana, mas você também precisa lidar com o problema maior da cultura de homofobia e de transfobia. Nos Estados Unidos, pelo menos, é normalizado pensar que ser uma pessoa trans é algum tipo de doença psicológica, ou que é um pecado. E, novamente, não é nada disso, e dizer isso fere pessoas trans extremamente vulneráveis que estão tentando apenas se encaixar nesse mundo.

Atualmente, a maioria das terapias de conversão ocorrem dentro de instituições religiosas. Então, há um pastor atuando como conselheiro, oferecendo para se reunir com seu filho, que pode ser gay, uma vez por semana. Infelizmente, nos Estados Unidos, temos proteções à liberdade religiosa e não podemos proibir essas práticas em ambientes religiosos. Não é fácil fechar uma igreja. Houve um forte movimento no mundo para proibir que psicólogos e profissionais registrados aplicassem a terapia de conversão, e você pode fazer isso com leis, mas é algo difícil de parar. É preciso haver uma mudança não somente legislativa, mas também cultural.

Então, a nível cultural, o que pode ser feito?

Na pesquisa para o documentário, muitas pessoas compartilharam comigo que a vontade que tiveram de buscar essa "cura" começou após ouvir um comentário de um parente, ou de um pastor, de um líder do governo, e isso deu a eles uma "pista", completamente prejudicial, que algo neles estava errado. Uma coisa que eu diria para pessoas que não são LGBTQIA é que tomem cuidado e combatam os pequenos comentários e ações que podem ocorrer na sua comunidade.

Como ajudar as pessoas que passaram por essas terapias de conversão?

Para pessoas que passaram pela terapia de conversão, é uma questão complicada. Eu ouvi de muitos sobreviventes a necessidade de haver uma justiça restaurativa forte e local. Que líderes locais, inclusive de entidades religiosas, se pronunciem contra essa prática. A maioria das instituições já não acredita nisso, internamente, mas pouquíssimas se manifestaram publicamente. E elas precisam fazer isso. O poder de instituições religiosas condenando essa "cura" não pode ser subestimado. E essa é questão é muito ampla, porque a dor é muito grande. Eu não tenho a resposta para melhorar isso no curto prazo, é uma estrada longa.

 


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