Documentário Por Dentro da Machosfera retrata as seitas digitais dos red pills – e também suas contradições, inclusive com a própria ideologia. Por trás da tentativa de oprimir mulheres, estão traumas de infância, codependência com as mães e inseguranças sexuais

 

Publicado 08/05/2026 às 17:06 - OUTRAS PALAVRAS


Arte: The Guardian — Reprodução: Kolehel

 

 

Dá pra saber que uma imagem é boa quando a gente entende ela de cara e ainda assim poderia falar sobre ela por horas.

 

 

O documentário, que mais parece a concretização do pesadelo de uma feminista millennial patrocinado por Hollywood, mostra um universo totalmente bizarro onde ostentação é a regra número 1 e o que move absolutamente todas as decisões estéticas e sociais. Tudo é sobre demonstrar ter grana para conseguir mais grana e demonstrar ter mulher para conseguir mais mulheres. A lógica é de acúmulo absoluto, acúmulo para além da razão.

Em um dado momento, um dos influencers filma a mulher que está com ele e pergunta “do que você mais gosta em mim?”, ao que ela responde: “do seu dinheiro”.

A maioria das mulheres que aparecem no filme são também influenciadoras, mas vindas da plataforma OnlyFans. Esse fato é relevante porque é nele que se baseiam boa parte das afirmações misóginas dos entrevistados, que humilham essas mulheres em seus podcasts julgando a profissão delas, enquanto eles mesmos lucram com elas. Em um ciclo completo da moralidade heterossexual clássica, esses homens cafetinam essas mulheres, enquanto produzem ódio sobre elas e reafirmam seu poder sobre suas esposas, as “mulheres de verdade” com quem vivem.

Mas como a ideologia nunca sobrevive à visita cruel da realidade, Theroux consegue, com poucas movimentações, capturar as diversas falhas na Matrix que esses machos construíram para si mesmos. Apesar de o termo red pill ou pílula vermelha remeter justamente a uma cena icônica do mesmo filme (não vou explicar porque você já deve ter lido isso mil vezes) e ser tida pelos homens dessa comunidade como uma expressão de sua liberdade, fica óbvio logo no início que essas pessoas vivem em uma espécie de seita virtual.

Até aí nada muito surpreendente também; toda seita, assim como todo clickbait ruim de extrema direita, sempre usa o conceito de VERDADE para atrair gente perdida no mar de informação dispersa que o mundo se tornou.

Com um jogo habilidoso de imagens entre o seu próprio documentário e as autorrepresentações que os influencers continuam produzindo, mesmo na presença de sua equipe de filmagem, o documentarista consegue demonstrar a rede de desconfiança, construção de imagem e identidades infladas que esse mundo da machosfera produz.

O cineasta também consegue captar cenas que desconstroem por completo a pose de machos-alfa ultrapoderosos de que os ídolos desse ecossistema tanto dependem. O jornalista prova como as dicas de investimento deles são completamente falidas, filma a mãe de um deles mandando o filho limpar o chão e ainda guarda para as constatações finais nos créditos do filme coisas no tom de “lembra da gata em quem ele tanto disse que mandava? Ela terminou com ele kkkk”.

Dá quase pra ouvir a equipe de pós-produção rindo enquanto escreve as cartelas.

Quando vi a cena da mãe, lembrei do ensaio fotográfico de Dennis Dellieux sobre bodybuilders e suas mães. É bem bonito como ele constrói imagens de vulnerabilidade masculina de um jeito tão simples e desconstrói o uso desses corpos muito malhados como símbolos de força e poder.

Theroux manda muito bem em não mostrar esses homens só como violentos e criminosos, o que eles na verdade são, mas também expandir para justamente desconstruir essa tentativa, já bastante ridícula para quem não é do grupinho deles, de parecer infalível. Ele mostra traumas de infância, insegurança frente às mulheres da vida real deles, além de milhões de contradições internas à própria ideologia.

Um bom filme para entender a dimensão que a demência online tem tomado.

 

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FONTE: https://outraspalavras.net/feminismos/o-ridiculo-macho-alfa-na-tela/