História de Mãe Claudia é guiada pelo ativismo LGBT+ e por sua luta para transformar a espiritualidade em ferramenta de emancipação | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato
 

Um mito africano conta que Iansã, orixá guerreira e senhora dos ventos, pediu a ajuda de outra divindade, Exu, para lidar com o temperamento de seu companheiro, Xangô. Ela, mesmo se transformando em um poderoso búfalo que destruía tudo pela frente, era dominada pelo senhor do fogo. Então, Exu, grande mensageiro com espírito brincalhão, preparou uma poção para Iansã, que a transformou imediatamente em uma bela borboleta. 

A orixá, também conhecida como Oyá, ficou confusa: se um búfalo não era páreo para Xangô, como uma borboleta seria? Exu explicou que, como borboleta, Iansã seria capaz de voar para longe quando seu companheiro ficasse furioso. Segundo o mensageiro, nem sempre era preciso enfrentar as batalhas com violência; bravura e paciência também poderiam ser grandes aliadas de Oyá.

Assim como sua orixá, Claudia Rosa de Oyá se espelhou na borboleta, e não no búfalo, para lidar com a intolerância religiosa: depois que seu terreiro foi invadido três vezes no bairro de Guaianases, zona leste de São Paulo (SP), a ialorixá decidiu mudar de endereço. Ela estabeleceu o Ilê Asé Ojù Oyá em Valinhos (SP), louvando os orixás ao redor da natureza, a verdadeira casa dessas divindades. Hoje, mãe Claudia toca as funções de candomblé em um terreno sem piso e sem telhado, mas com uma fé inabalável em seus guias.

“Na época da invasão, a nossa casa era 90% de mulheres. Ela foi invadida três vezes. A primeira vez, percebe-se que é uma coisa muito raivosa, muito pesada em relação à casa ser basicamente de mulheres e ser sustentada, chefiada e organizada por meio destas mulheres, mulheres negras. Eles nos deixaram sem alimentos. Todo o alimento que existia na casa foi jogado no chão, misturado. ‘Como vocês não vão ter como se alimentar, vão embora daqui.’ Foi uma situação muito perversa, muito forte”, conta a ialorixá.

“Nossa decisão de sair do centro foi para que a gente pudesse preservar o nosso sagrado. Porque, sendo uma mulher negra, lésbica, periférica, de luta, que não se cala, que faz a participação social, eu sempre tive represálias por ter essa força, por ter essa visão diante do mundo.”

Assim como sua orixá, Claudia Rosa de Oyá se espelhou na borboleta, e não no búfalo, para lidar com a intolerância religiosa Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

 

A trajetória de mãe Claudia está presente no terceiro episódio da série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, do Brasil de Fato. Sua história é guiada pelo ativismo LGBT+ e por sua luta para transformar a espiritualidade em ferramenta de emancipação.

A série está disponível no YouTube do Brasil de Fato e traz, em cinco episódios, o cotidiano de lideranças que, entre a periferia, o interior e o litoral do estado de São Paulo, mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber. 

Confira os principais trechos da entrevista:

Brasil de Fato: Mãe Claudia, como a senhora conheceu o candomblé e como foi sua descoberta como ialorixá?

Mãe Claudia: A minha mãe nos levou para o candomblé quando eu tinha seis anos. São 53 anos de candomblé. Fui iniciada há 30 anos na nação de Ketu, pelas mãos do falecido babalorixá Ominarenã da Oxum, o Washington da Oxum, na zona leste de São Paulo (SP). Quando me iniciei, foi com a minha filha, que era um bebê, uma menina de dois anos, e a minha sobrinha, que se iniciou como ekedi; esse foi o meu barco. Eu sou dofonitinha, gosto muito de dizer isso. Eu fiquei 14 anos na casa do meu pai, e só saí porque ele faleceu. Aí você começa uma verdadeira jornada, porque tem que procurar um outro axé onde possa ficar.

Num dado momento, fui convidada para um encontro no Recôncavo Baiano, o encontro do Mulheres de Axé do Brasil. E lá conheci o pai Jean, Jean Lopes do Obalajá no Recôncavo. Tive uma afinidade com ele de imediato. Depois de uns dois anos, pedi para ele jogar búzios para mim e fui devagarzinho me entrosando. Nesse meio-tempo, eu me iniciei em Ifá por problemas de saúde, e é uma coisa que trago na minha alma, no meu coração. Então, sou Ìyánífá e tenho muito orgulho de fazer parte dessa família também. São as famílias que a gente traz no coração, na alma, e que fazem com que a gente tenha essa segurança, essa força para dar continuidade ao que fazemos dentro do candomblé.

Desde a partida do meu pai até hoje, já se vão 16 anos, e nesse tempo eu formei o Ilê Asé Ojù Oyá, que é a casa da qual hoje sou regente. Sou ialorixá junto com as minhas filhas, a ialaxé, Ana de Oxum, e a yakekê, Carolina de Odé. E também o babalaxé, que é o Murilo Rosa. São meus filhos, meus parentes consanguíneos que fazem parte da hierarquia da nossa casa. 

Como vocês chegaram a este terreiro em Valinhos?

Nessas idas e vindas, eu recebi uma ekedi que veio se iniciar na minha casa. Ela já era ekedi apontada há mais de 20 anos e ela veio e decidiu se iniciar em casa. Passado um tempo, ela nos ofereceu essa terra aqui em Valinhos, e nós estamos aqui, construindo a casa, o ilê, a comunidade de Mãe Oyá Balé, com muito orgulho, com muito sacrifício, com muita luta. Nós não somos um axé rico, somos um axé trabalhador. Trabalhador da cultura, da educação, da saúde, das artes. Nós temos muitas pessoas da área artística em casa, como temos pessoas da área de educação, como temos pessoas da área social que frequentam a nossa casa.

Eu sou uma pessoa que, desde os 14 anos, tem um lado de militância muito forte. Eu começo a minha militância nas Comunidades Eclesiais de Base dentro da Igreja Católica; não tenho por que não dizer isso. A Igreja Católica me deu um caminho social, me ensinou muito. Eu fui catequista na Igreja Católica, fiz parte dos grupos de perseverança na Igreja Católica na adolescência. Minha mãe, mesmo tendo ido para o candomblé, sempre fez muita questão de que a gente tomasse as decisões quanto à religião, e incentivava a ir à missa, a frequentar os grupos, e eu até um certo ponto frequentei com muita força mesmo. E aí, quando eu me inicio no candomblé, é quando eu me afasto da Igreja Católica e venho para os caminhos do candomblé. Mas eu tenho essa base social, de luta, de entendimento da comunidade como um grupo em que você tem que interferir; isso vem lá de trás, da religião da minha família, que antecede o candomblé.

A senhora é muito ligada aos movimentos populares. Isso se expande para a sua casa de candomblé?

Quando eu tinha meus sete anos e começo a iniciar filhos, muitos vêm do movimento social que eu frequentava. Então, os primeiros filhos que eu vou iniciando vêm por meio dos movimentos sociais. E aí eu continuo no movimento até hoje. Participo da Marcha de Mulheres Negras, participei durante muitos anos da Liga Brasileira de Lésbicas, de Candaces, de lésbicas negras, do Mulheres de Axé do Brasil, da Renafro e de outras redes que vão surgindo. Em algum momento eu passo e me formo dentro desses espaços, mas o ilê te toma muito. Eu tive que me dedicar ao terreiro porque nós temos uma construção aqui, uma obra, uma coisa muito forte. Quando você tem filhos de axé, você tem que se dedicar a eles, então a casa de axé me tomou de tal forma que todos os projetos que eu tenho são por meio dela.


Ilê Asé Ojù Oyá sempre teve uma relação muito forte com o nosso entorno, conta Mãe Claudia Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

 

Hoje nós temos o Samba Muketu, que nasce da reunião dos filhos do Ilê Asé Ojù Oyá. Na verdade, a Associação de Mulheres de Ketu nasce lá atrás; aí ela fica algum tempo próxima ao movimento de mulheres, participa das conferências municipais, estaduais e nacionais de mulheres, e aí, quando surge a necessidade de fazermos um evento junto ao ilê, nós escolhemos trabalhar com o samba. Por que o samba? A minha família, a família paterna, nasce ali no Morro do Chapéu, na Vila Santa Maria, na zona norte de São Paulo, e sempre foi muito próxima ao samba, sempre foi muito próxima à Camisa Verde e Branco, ao Peruche, àquelas escolas que existiam ali na região. Eu tenho recordações da minha infância, com três ou quatro anos, com os tios fazendo samba, com a roda de samba de terreiro, com as rezas, as ladainhas que se faziam nas festas de São Pedro, que no final de tudo acabavam na batucada, no balde, na panela, na lata. E aí veio essa vontade de fazer um samba, uma roda de samba, fazer um evento para que arrecadassemos fundos para construir e para terminar a nossa obra.

Qual a relação entre o seu terreiro e a comunidade no entorno?

Mãe Claudia: O Ilê Asé Ojù Oyá sempre teve uma relação muito forte com o nosso entorno. Na época da pandemia, nós distribuímos cerca de 4.500 cestas básicas. As costureiras da casa fizeram entre 1.000 e 1.500 máscaras. Nós distribuímos kit de álcool, sabão, detergente, máscaras e alimentos para a comunidade. Durante todo o período da pandemia de covid-19, as filas na porta de casa eram imensas. E nós conseguimos manter a minha mãe, que hoje tem 83 anos, sem contrair covid. A nossa família toda serviu à comunidade, entregando os insumos, alimentos e tudo mais, e, graças a Olodumaré, ninguém teve covid na época. 

O Ilê sempre participou tanto das conferências quanto das reuniões municipais contra a intolerância religiosa e nas lutas feministas; nós estamos sempre presentes. Todo 25 de julho, nós estamos lá na abertura da Marcha de Mulheres Negras, na rua. No início, nós tínhamos poucas ialorixás, mas as ialorixás foram se juntando aos poucos e trazendo as suas comunidades. 

E o terreiro é uma comunidade. Dentro do terreiro você tem o médico, o psicólogo, a assistente social, o professor, o motorista, o pedreiro, você tem tudo. Mas a nossa inserção na sociedade nos fortalece quando você vai para um conselho público, um gabinete, uma organização social. Você fortalece a casa de axé porque ela precisa ter uma estrutura social e política. Sem isso, fica muito fácil as pessoas nos destruírem por meio da intolerância religiosa, do racismo, porque a intolerância vem do racismo.

Sua casa sofreu racismo religioso algumas vezes, inclusive com ataques. O que a senhora acredita que falta na sociedade para que os terreiros possam cultuar sua fé sem medo?

Não é fácil. Nós temos aqui em casa muitas pessoas LGBTQI+ e a luta é diária. Você não pode andar na rua com um fio de santo, você não pode andar na rua tendo o branco das suas vestes, porque corre o risco de sofrer violência, de sofrer humilhação, de ser rechaçado em qualquer espaço.


Série traz o cotidiano de lideranças que mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

 

Eu não vou no espaço de ninguém pichar “Eparrei Oyá”, “Laroyê Exu”, não! Eu respeito a fé do outro. Eu tenho Jesus como uma grande liderança política. Eu nunca afrontei nenhum amigo, nenhum parente que tenha uma fé diversa da minha. Por que as pessoas se acham no direito de vir à minha casa afrontar a minha fé? Eu não saio de dentro da minha casa batendo palma no portão de ninguém para dizer: “Aceite a minha fé, a minha fé é a verdadeira”. Não, eu só quero cultuar a minha fé com direito de liberdade, para cultuar o que eu penso, o que eu acredito, o que eu sinto, o que eu amo. Agora, eu mereço ser morta por isso? Como muitas ialorixás foram, como babalorixás foram mortos a tiros por estarem professando a sua fé? Nós temos que lutar contra a intolerância, contra o racismo religioso. É uma luta que é diária, é todos os dias. Nós, que temos o dom da palavra, temos que falar todos os dias sobre isso. É muito importante. E eu agradeço quando os espaços são abertos para que a gente possa falar. É muito importante.

Nós temos um Estado laico que não é laico. Nós temos um Estado laico em que, quando você entra numa repartição pública, vê um crucifixo, uma Bíblia aberta. Eu tenho todo o respeito, mas eu gostaria de ter um alguidar ali com uma oferenda que toda semana fosse trocada, porque aí, sim, nós estaríamos presentes dentro daquele espaço, daquela repartição. A sociedade não está pronta para nos receber. Não somos nós, do candomblé, que não estamos prontos para ir para a sociedade. É a sociedade que não está pronta e não merece nos receber. Porque o nosso povo, que foi sequestrado, que veio escravizado, construiu essa terra. Enquanto não houver uma mudança estrutural na educação, na saúde, em todos os setores sociais, não vai mudar.

“Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz