Não há dúvida, Marcela não era anencéfala

Estado de São Paulo, 26/8/2008

Após analisar tomografia, médico afirma que bebê tinha parte do cérebro e, portanto, era portadora de outro tipo de anomalia

“Marcela não era anencéfala. Você pode mandar a tomografia dela pra qualquer especialista do mundo e ele não fará esse diagnóstico.” Com essa afirmação, feita após analisar os exames da bebê Marcela de Jesus Ferreira, o especialista em ultra-sonografia e medicina fetal Heverton Petterson, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, esclarece a polêmica em torno do diagnóstico do caso, que ocorreu no interior de São Paulo e se tornou conhecido após grupos católicos divulgarem a notícia de que havia uma anencéfala que sobrevivera, ao contrário do que indica a literatura científica. Marcela morreu com 1 ano e 8 meses.

- O que aconteceu com esse caso para que até vários médicos afirmassem que ela era anencéfala?

- O que aconteceu é compreensível. Poucos especialistas tiveram acesso ao exames feitos por essa garota e nenhum chegou a vê-la. Muitos viram só a fotografia de frente dela, e o rosto era semelhante a de uma anencéfala, mas esse aspecto é provocado por uma série de outras anomalias, cada uma com um prognóstico diferente. Somente no exame você enxerga claramente que não se trata de um caso de anencefalia, que é a ausência de hemisférios cerebrais, de cerebelo e de mesencéfalo. No caso dela, a tomografia mostra que há tronco cerebral, mesencéfalo e parte do hemisfério cerebral. Há desenvolvimento do cérebro, só que incompleto. Portanto, não há dúvida. Não é nenhuma surpresa ela ter sobrevivido por 1 ano e 8 meses. Ela não era anencéfala.

- O senhor participará, junto com outras sociedades médicas, da audiência no STF na quinta. Falará sobre o uso desse caso lá?

- Sim, vou explicar o que é anencefalia, mostrar exames de anencéfalos e mostrar esse caso. As pessoas perceberão a diferença. É uma questão de informação, de dados científicos. Pelo debate feito até agora, a tendência é que haja uma polarização. De um lado, representantes de grupos religiosos e de outro os médicos e cientistas.

Esse é o bom da democracia e do Estado laico. Não quero mudar a crença dos religiosos. Eles devem poder, num caso desses, seguir com a gestação. Mas as outras mulheres, que não compartilham das mesmas crenças ou que não querem correr os altos riscos dessa gestação, devem poder interromper.

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