Neste mês de setembro, em que celebramos o Dia do Cerrado (11/09), chegamos para compartilhar neste texto alguns elementos das experiências de cuidado, luta e sustentação da vida das mulheres no cerrado a partir dos processos de construção de uma cooperativa feminista e de farinhadas agroecológicas na região do Distrito Federal e Entorno.
Hellen Frida, Laura Lyrio Gonçalves (Juanita), Maria Bárbara Pereira Santos, Mônica Barbosa da Silva e Suely Nunes Magalhães
Recentemente, no dia 29 de agosto de 2026, mulheres que estão construindo juntas a Cooperativa Feminista para a Sustentabilidade (Coofesus) se encontraram na Casa de Farinha do Acampamento 8 de Março, em Planaltina (DF), para realizar sua primeira farinhada com o objetivo de avançar na construção da cooperativa feminista como empreendimento coletivo, autogestionário e feminista, antirracista, camponês e popular das mulheres sem-terra. A “Oficina prática de funcionamento de cooperativa: Produção de farinha de mandioca” se organizou como uma atividade que integra a etapa de acompanhamento do II Laboratório Organizacional para Sustentação da Vida – Território: Distrito Federal e Entorno, realizado em parceria entre a CFEMEA – Centro Feminista de Estudos e Assessoria e o MST – Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A farinhada foi um momento de formação onde cada uma aprendeu um pouco de como é a cooperativa, como um espaço de sustentação da vida e de acolhimento, onde nós mulheres aprendemos que somos especiais e que podemos alcançar aquilo que desejamos. Mesmo o breve tempo de um dia significou um momento de maior incentivo para nós mulheres termos um olhar apurado nesse projeto de cooperativa feminista, o qual queremos que siga em frente. Precisamos organizar muitas coisas ainda, mas é assim mesmo que vamos continuar organizando um pouco aqui, um pouco ali, até chegarmos aonde queremos todas juntas, de mãos dadas, acolhendo uma à outra chegaremos lá, ao objetivo de ver a cooperativa das mulheres sem-terra consolidada.
A muitas mãos que andam entrelaçadas, nos desafiamos, então, a contar sobre este processo também de forma coletiva, sendo sujeitas de nossa história, de nossa memória e de nossos processos de educação e comunicação popular, os quais buscam reverberar esta experiência tão potente, vivida a partir de nossos corpos-territórios de mulheres trabalhadoras, mulheres dos acampamentos de luta pela terra, mulheres dos assentamentos de reforma agrária. Queremos visibilizar e fazer ecoar a esperança que brota das iniciativas coletivas que as mulheres desenvolvem na atual conjuntura para acumular forças e defender a democracia, os direitos humanos, o bem viver das mulheres e de suas famílias e comunidades.

Com autocuidado, cuidado coletivo e cuidado com o bioma cerrado, as mulheres se desafiam a construir uma cooperativa feminista como meio para defender e fortalecer sua autonomia, suas práticas agroecológicas, sua participação política por projetos de vida e de sociedade em que mulheres e povos tenham: direitos; acesso aos serviços públicos e aos equipamentos públicos de cuidados e de reprodução da vida; acesso às tecnologias e assistências técnicas de produção, comercialização, informação e comunicação; garantia de autodeterminação em seus territórios; soberania alimentar com acesso e proteção a seus meios de vida e de suas culturas sejam elas originárias, tradicionais, camponesas, agroecológicas, populares; enfim, tenham vidas livres de desigualdades e violências.
Mulheres construindo cooperativa feminista: Farinhadas como experiências de cuidado, luta e sustentação da vida no bioma cerrado
No dia 29 de agosto, o sol ainda tímido anunciava mais uma jornada de luta e celebração nos territórios do MST. A Casa de Farinha, antes esquecida, mas cheia de possibilidades, transformou-se em palco de mobilização e esperança. Foi ali que as mulheres agricultoras familiares e camponesas, vindas dos acampamentos e assentamentos de reforma agrária organizados pelo MST, chegaram aos poucos e se reuniram para o primeiro experimento coletivo de produção de farinha, a primeira Farinhada da Cooperativa Feminista para Sustentabilidade (Coofesus). Entre cantos, risos e trabalho compartilhado, emergia a força coletiva capaz de mover montanhas e de restaurar cerrados.

O dia só estava começando. Amanhecemos bem animadas e com muitas expectativas, indo ao encontro de outras companheiras dos territórios vizinhos, foi um encontro de acampamentos: Ana Primavesi, Pepe Mujica, Oscar Niemeyer. Chegando lá nos somamos a outras companheiras do Acampamento Keno e do Acampamento 8 de Março. A festa foi grande, pois ali se iniciava a nossa primeira farinhada e teríamos muito o que fazer. Foram muitos abraços coletivos, muitos reencontros com algumas companheiras e muitas vibrações coletivas positivas.
A recepção aconteceu na casa da Bárbara, onde o café da manhã aquecia os copos e as conversas. Ivonio já estava presente, Suely e Laura chegaram logo depois e se juntaram ao grupo. A necessidade de uma limpeza inicial não foi motivo de desalento ou desânimo, pelo contrário, virou oportunidade de aprendizado. Entre orientações sobre higiene e saúde coletiva, nasceu o primeiro exercício de todas: limpar o chão, as máquinas, proteger o espaço dos animais. Cada gesto era mais que trabalho: era afirmação de autonomia, pertencimento, confiança, consciência organizativa e cuidado.
Logo nos reunimos, cantamos músicas animadas e fomos para a divisão de tarefas, pois, todas nós precisávamos nos somar em alguma tarefa para que o processo coletivo pudesse acontecer. Tínhamos certeza de que seria um dia bem produtivo e animador com todas as companheiras que estavam presentes. Nos organizamos em grupos de três companheiras ou mais, cada grupo dirigindo-se para um equipamento e, no entanto, alguns apresentaram defeitos e tivemos que nos reorganizar rapidamente para colocar tudo nos trilhos e, por fim, conseguimos garantir que nossa farinha fosse produzida.

O processo produtivo seguiu como uma dança improvisada. A mandioca chegou em carrinhos de mão, lavada por três mulheres que logo ganharam reforço de outras. A máquina de descascar falhou, e as mãos trabalhadoras das mulheres assumiram a tarefa, sentadas ou em pé, rindo da dureza e celebrando cada avanço. Ivonio e Roberto tentaram consertar o equipamento; apenas uma remessa foi descascada, mas bastou para que todas vibrassem ao ver a máquina funcionar. A moagem, a prensa que demorou três horas, o forno aquecido, o peneiramento e o esfriamento — cada etapa era acompanhada de cantos da farinhada do MST. Entre uma mexida e outra, surgiam momentos de concentração e descontração, animados pela música e pela conversa. O ensacamento, no fim, foi mais que um ato técnico: foi símbolo de conquista.
Conforme algumas companheiras foram para os equipamentos na Casa de Farinha, outras também foram para a cozinha para preparar a comida do almoço para todas. Naquela hora fomos entendendo juntas que o objetivo central naquele dia era dar mais um passo coletivo da construção na prática da nossa cooperativa Coofesus, com foco na produção de farinha de mandioca, agroecológica e saudável.

Houve roda de conversa, almoço preparado por Mônica, acolhidas e aconchego das mulheres do Acampamento Keno, das mulheres dos Acampamentos Ana Primavesi, Pepe Mujica e da equipe Cfemea. Entre despedidas, celebrações e homenagens à companheira Suely que estava de partida de volta à Rondônia, o coletivo se fortalecia. A limpeza final do espaço não era apenas organização, mas ritual de cuidado e continuidade.
Essa farinhada foi mais que a produção agroecológica de alimentos saudáveis em territórios de reforma agrária, que por si só já é muito especial, também representou uma experiência de cooperação feminista, marcada pela coordenação coletiva e pela emoção compartilhada, revelando como as mulheres do MST transformam trabalho cooperada em resistência e a resistência em celebração da vida. Ao ser a primeira farinhada da Coofesus, inaugurou-se uma prática que ultrapassa o ato de fazer o produto farinha, posto que abre caminho para a construção da autonomia econômica e política na luta por justiça de gênero, racial e socioambiental no bioma cerrado. A cooperativa feminista nasce como espaço de sustentabilidade e, ao mesmo tempo, como território de emancipação, onde cada gesto coletivo reafirma o protagonismo das mulheres e fortalece a luta por equidade.
Produzir coletivamente significa garantir renda, fortalecer vínculos comunitários e afirmar o protagonismo das mulheres na construção de alternativas ao modelo excludente. Cada etapa — da limpeza ao ensacamento — foi também exercício de decisão coletiva, de partilha e de afirmação política.
Tivemos certeza de que tinha valido a pena encarar cada desafio encontrado, pois, o avanço que a gente deu foi gigantesco. A certeza que nos move é que precisamos mobilizar mais companheiras para este esperançar em coletivo, para se somar nesse processo tão bonito, em que estamos ali como multiplicadoras para afirmar que vale muito à pena se somar para próximas farinhadas.

Assim, a farinhada é alimentação saudável e é símbolo de que a autonomia das mulheres se constrói no saber e na prática, entre cantos, risos e trabalho compartilhado. É promessa de futuro em que a sustentabilidade se alia à sustentação da vida livre de violências e desigualdades, onde a farinha carrega o sabor da luta pela terra e da liberdade. Porque, no fim, cada grão de farinha ensacado carregava também a memória de mãos unidas, vozes firmes que ecoam na história a certeza de que juntas construímos futuro esperançado com crônicas que brotam do nosso dia a dia, com prosas de nossas rebeldias, com versos de nossas poesias.
Uma economia feminista antirracista para sustentar a vida: Quando a farinha carrega cultura alimentar, território, memória e conhecimento
Há uma diferença política importante entre criar uma cooperativa para somente gerar renda e entre construir um empreendimento coletivo feminista voltado à sustentação da vida. A COOFESUS nasce dessa segunda perspectiva.
Desde o Laboratório Feminista, produzir não significa colocar mercadorias no mercado. Produção é realizar produtos carregados de culturas e projetos de vida e sociedade, bem como também produzir autonomia, relações humanas emancipadas, alimentos saudáveis, conhecimentos agroecológicos, vínculos comunitários e condições para que as mulheres possam permanecer e viver com dignidade em seus territórios, tendo acesso a seus meios de vida e cultura e aos bens comuns.
Por isso, a autogestão é central. Não se trata de trocar um patrão por uma estrutura burocrática em que poucas decidem e muitas executam. A experimentação busca construir mecanismos para que as próprias mulheres sejam responsáveis pelas decisões sobre o empreendimento: da organização do trabalho à definição dos preços, da comercialização ao destino dos recursos, das regras coletivas aos tempos de trabalho e cuidado.
Por exemplo, durante a Farinhada, o tempo necessário para a prensagem da mandioca foi pensado como oportunidade para conversar sobre a cooperativa, avaliar a experiência e discutir os próximos passos, incluindo a formação do preço da farinha e as possibilidades de comercialização. Isso também é formação política. Porque aprender autogestão é experimentar a tomada coletiva de decisões, reconhecer conflitos, negociar caminhos e construir acordos coletivos. É compreender que a autonomia econômica das mulheres não se resume à renda individual, mas passa pela possibilidade de administrar e organizar coletivamente os meios, os processos e os resultados do próprio trabalho e, ademais, está entrelaçada com a autonomia política, a saúde e a cultura.
Escolher uma Farinhada para essa experimentação também tem significado. A farinha carrega cultura alimentar, território, memória e conhecimento. A mandioca atravessa a história alimentar e produtiva dos territórios brasileiros, desde saberes, práticas e culturas de povos originários até saberes, práticas e culturas de povos e comunidade tradicionais e das mulheres do campo, florestas, águas e periferias. Seu cultivo e beneficiamento carregam conhecimentos transmitidos entre gerações, práticas comunitárias e tecnologias sociais populares. Na Casa de Farinha, esse conhecimento encontra a proposta de um empreendimento econômico feminista e agroecológico: Colheita. Limpeza. Descasque. Moagem. Prensagem. Esfarelamento. Peneiração. Torrefação. Embalagem. Cada etapa depende da anterior. Cada tarefa importa para o resultado em que nenhuma sustenta sozinha aquilo que precisa ser coletivo, trata-se de uma construção que se faz junto.
A Farinhada também colocou lado a lado mulheres provenientes de diferentes territórios, fortalecendo vínculos construídos ao longo das rodas e das demais etapas do Laboratório. Esse encontro é parte fundamental da proposta, porque a COOFESUS pretende ultrapassar as fronteiras de um único acampamento ou assentamento e criar uma articulação econômica e política entre mulheres que compartilham desafios, conhecimentos e possibilidades. Uma cooperativa pode ter estatuto, CNPJ, regimento, conta bancária e todas as formalidades necessárias. Mas uma cooperativa autogestionária precisa de algo que nenhum documento é capaz de criar sozinho: um coletivo capaz de gerir junto. É esse coletivo que está sendo cultivado.
A COOFESUS começa a existir antes mesmo de sua institucionalização definitiva. Existe quando as mulheres discutem o que querem produzir, compartilham seus conhecimentos e projetos de vida e de sociedade, quando percebem que determinada atividade sobrecarrega uma companheira e reorganizam o trabalho para que seja leve e libertador. Quando reconhecem que cuidado também precisa fazer parte da organização econômica e política. Por isso, a Farinhada é também uma experimentação de futuro.
A farinha produzida no Acampamento 8 de Março é, nesse sentido, produto e processo. É alimento que alimenta a vida em seu todo, é possibilidade de renda e é resultado de uma nova organização cooperada do trabalho que visa superar desigualdades estruturais. Também é memória, aprendizado, vínculo, experiência de autogestão e exercício de autonomia.
A cada mandioca descascada, a cada decisão compartilhada e a cada conversa sobre preço, produção ou comercialização, vai sendo experimentada uma economia política na qual as mulheres não são apenas força de trabalho invisibilizada, mas sujeitas políticas e econômicas capazes de decidir, produzir, gerir e criar coletivamente seus próprios caminhos.
A COOFESUS ainda está sendo construída. A aposta é criar as condições para que as próprias mulheres possam experimentar, avaliar, errar, reorganizar, decidir e construir juntas àquilo que faz sentido para suas vidas e seus territórios.
Na Farinhada, enquanto a mandioca se transformava em farinha, uma outra transformação também estava em curso: Mulheres por meio do trabalho coletivo e cooperado transformam a realidade cotidiana e a realidade social, construindo autonomia e autodeterminação nos territórios.
“Trago um verso rasteiro
Pra contar com alegria
O dia em que a mulherada
Se junta na cantoria
Pra fazer uma farinhada
Com força e sabedoria!
O tacho já tá quentinho
A lenha estala no chão
Não entra homem no meio
É a força do batalhão
As muié toma de conta
Com o sorriso na mão!
Uma descasca ligeiro
Outra já bota pra ralar
A fofoca corre solta
Ninguém pensa em cansar
É o tacho que esquenta
E o povo a gargalhar!
Na prensa o caldo escorre
E a massa fica branquinha
A peneira vai voando
Pra peneirar a farinha
E no forno o cheiro espalha
Pela rua e a vizinha!
É farinha bem torrada
Feita com muito amor
Mulherada reunida
Tem garra, fibra e valor
O sustento da família
Trabalhado no suor!
Viva a prensa, viva o forno!
Viva o tacho e a colher!
A melhor farinha da terra
É a que o povo quer
Pois tem o tempero santo
Da força da mulher!”
(Poesia de Mônica Barbosa da Silva)










Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.