Precisamos reafirmar que nenhuma criança nasce querendo matar, dominar ou violentar. As crianças aprendem com o mundo que lhes apresentamos.

Por Hellen Frida | CFEMEA – Centro Feminista de Estudos e Assessoria
Uma criança sobre o teto de um carro, segurando objetos semelhantes a armas de fogo, enquanto adultos celebram uma vitória eleitoral. A cena, registrada em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, durante uma manifestação de apoiadores de Flávio Bolsonaro, após o primeiro turno das eleições de 2026, deveria provocar indignação em qualquer sociedade comprometida com os direitos humanos. No entanto, para determinados setores políticos, a imagem parece representar um ideal de força, liberdade e poder.

O episódio motivou ações legais da mãe para regularizar a guarda da criança e investigações sigilosas por parte da Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte. Ainda não há confirmação de que os objetos fossem armas verdadeiras, contudo, o Conselho Tutelar e a família relataram que o menino de nove anos exposto com o objeto semelhante a uma arma nesse ato político pró-Flávio Bolsonaro em Parnamirim (RN) apresenta sofrimento psíquico pós a exposição a que foi submetido e está recebendo acompanhamento psicológico. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) repudiou a exposição da criança e cobrou a apuração das responsabilidades dos adultos envolvidos.
Que sociedade estamos construindo quando transformamos uma criança empunhando uma arma em símbolo de celebração política?
Precisamos reafirmar que nenhuma criança nasce querendo matar, dominar ou violentar. As crianças aprendem com o mundo que lhes apresentamos. Aprendem com os exemplos dos adultos, com as relações familiares, com a escola, com o ambiente, com os discursos políticos, com os conteúdos que consomem nas redes sociais e com os valores que nossa sociedade escolhe celebrar.
Se ensinamos que a arma representa coragem, que a violência resolve conflitos e que a masculinidade se afirma pela capacidade de intimidar, estamos contribuindo para a reprodução de uma cultura que ameaça não apenas as infâncias, mas toda a sociedade.

O direito de brincar é também o direito de viver
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069/1990, representou uma conquista histórica dos movimentos sociais brasileiros ao reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, pessoas em condição peculiar de desenvolvimento e destinatárias da proteção integral e da prioridade absoluta.
O direito à vida, à saúde, à educação, à liberdade, ao respeito, à dignidade, à convivência familiar e comunitária, ao esporte, à cultura e ao lazer não pode ser relativizado por projetos políticos que naturalizam a violência.
Brincar não é um privilégio. É um direito fundamental.
Uma criança precisa ter a liberdade de correr pelas ruas, ocupar as praças, frequentar a escola, imaginar outros mundos, construir amizades, descobrir seu corpo e desenvolver sua autonomia sem medo de ser atingida por uma bala perdida, testemunhar uma execução ou perder alguém para a violência armada.
Entretanto, essa não é a realidade de milhares de crianças brasileiras, especialmente das crianças negras, indígenas, periféricas e moradoras de territórios atravessados pela violência armada, pelo racismo e pela desigualdade social.
O direito à infância também é atravessado pelas desigualdades de raça, classe, gênero e território. Enquanto algumas crianças têm acesso a parques, bibliotecas, equipamentos culturais e espaços seguros de convivência, outras crescem aprendendo a reconhecer o som dos tiros, a se esconder durante operações policiais e a conviver com o luto.
Não existe proteção integral da infância em uma sociedade que naturaliza a morte de suas crianças ou que suas crianças reproduzam símbolos de violência.
A violência contra as mulheres começa com a naturalização da violência na infância
A relação entre a cultura armamentista, a construção social das masculinidades e a violência contra meninas e mulheres é uma dimensão importante de se relacionar nesse caso.
A naturalização da reprodução de imagens e narrativas como essa, e o incentivo a colocar uma criança a empunhar uma arma como símbolo de poder, pode ser também o incentivo a reproduzir relações violentas no convívio social, inclusive contra meninas e mulheres. Ninguém está condenado a se tornar um agressor, mas a violência também é aprendida, legitimada e reproduzida socialmente, inclusive desde as infâncias.
Quando meninos são educados para acreditar que precisam dominar, controlar, impor respeito pela força e nunca demonstrar vulnerabilidade, estamos alimentando as mesmas estruturas patriarcais que sustentam a violência doméstica, a cultura do estupro e o feminicídio.
A cultura do estupro começa muito antes da violência sexual propriamente dita. Ela se manifesta quando ensinamos aos meninos que insistência é conquista, que o corpo das meninas está disponível, que o consentimento pode ser ignorado e que a masculinidade depende do exercício do poder sobre outras pessoas.
Da mesma forma, o feminicídio não começa necessariamente com uma arma apontada. Muitas vezes, começa com o controle, o ciúme tratado como demonstração de amor, a desvalorização das mulheres, as ameaças e a ideia de que homens possuem algum direito sobre a vida das mulheres, inclusive as que eles vêm a chamar de suas companheiras.
Quando essas concepções encontram uma sociedade que facilita o acesso às armas e legitima a violência como instrumento de resolução de conflitos, os riscos se tornam ainda mais graves.
Por isso, desarmar as infâncias também significa desarmar o machismo.
Significa educar meninos para o cuidado, para o respeito às diferenças, para a expressão de sentimentos, para a resolução não violenta de conflitos e para o reconhecimento da autonomia das meninas e mulheres.
Significa ensinar que coragem não é apontar uma arma, mas enfrentar injustiças. Que força não é dominar alguém, mas construir relações baseadas no respeito. Que nenhuma mulher é propriedade de um homem e que nenhum conflito justifica a violência.
Não queremos meninos preparados para matar. Queremos meninos preparados para cuidar, conviver, amar e respeitar.

Do ECA ao ECA Digital: proteger as infâncias também nas redes
Em 2026, a proteção das crianças e adolescentes ganhou um instrumento importante com a entrada em vigor do ECA Digital, instituído pela Lei nº 15.211/2025.
A legislação amplia as garantias de proteção para os ambientes digitais, estabelece responsabilidades para plataformas e serviços tecnológicos e reafirma o princípio do melhor interesse de crianças e adolescentes.
Essa conquista é especialmente importante em uma sociedade na qual crianças são constantemente expostas a conteúdos violentos, discursos de ódio, misoginia, racismo e outras formas de discriminação.
A circulação de imagens de crianças empunhando armas, transformadas em propaganda ou espetáculo político, exige uma reflexão sobre a responsabilidade dos adultos, das instituições e das plataformas digitais.
Não podemos permitir que a infância seja instrumentalizada para promover projetos políticos baseados na violência.
O ECA Digital nos lembra que a proteção integral não termina quando uma criança entra na internet. Ao contrário, precisa alcançar os espaços virtuais onde valores são construídos, comportamentos são estimulados e diferentes formas de violência podem ser reproduzidas.
Proteger as crianças também significa garantir sua privacidade, sua dignidade e sua segurança, inclusive diante da exposição indevida de suas imagens.
Desarmar para construir uma cultura de paz
Esse é o momento e oportunidade de reafirmar a importância da prevenção da violência e da construção de uma cultura de paz. A campanha brasileira pelo desarmamento, fortalecida a partir do Estatuto do Desarmamento, representa um marco na defesa da vida e na compreensão de que a segurança pública não pode ser reduzida à circulação de armas.
Desarmar é retirar armas de circulação e muito mais do que isso: é enfrentar a naturalização da violência nas relações sociais, nas instituições, nas famílias e nos territórios. É defender políticas públicas de cuidado, educação, saúde, cultura, esporte, assistência social, segurança alimentar, meio ambiente, moradia e proteção social.
É garantir escolas seguras, espaços públicos de convivência, políticas de prevenção à violência de gênero, educação em direitos humanos e oportunidades para que crianças e adolescentes possam desenvolver plenamente suas capacidades. É reconhecer que a verdadeira segurança não se constrói pelo medo, mas pela garantia de direitos.
Para nós, feministas antirracistas, essa construção está profundamente relacionada ao Bem Viver, uma perspectiva política que coloca a sustentabilidade da vida, a coletividade, a justiça ecosocial, a igualdade e o cuidado no centro da organização da sociedade.
O Bem Viver nos convida a superar uma lógica de poder baseada na dominação, na exploração e na violência, para construir relações de cooperação e solidariedade, reciprocidade, respeito à diversidade e convivência harmoniosa entre as pessoas, os territórios e a natureza.
Não existe Bem Viver onde meninas crescem com medo de serem violentadas, mulheres precisam temer seus companheiros e crianças são ensinadas a admirar armas antes mesmo de compreender o valor da vida.
Que futuro queremos colocar nas mãos das nossas crianças?
O debate sobre o desarmamento infantil não é apenas uma discussão sobre armas. É uma disputa sobre valores, educação, masculinidades, democracia e sobre o projeto de sociedade que queremos construir.
O Brasil precisa escolher se continuará alimentando uma cultura de violência, autoritarismo e medo ou se assumirá o compromisso de construir uma sociedade fundada nos direitos humanos, na igualdade e na proteção da vida.
Precisamos de políticas públicas que enfrentem a violência armada, mas também de uma profunda transformação cultural que questione o machismo, o racismo, a misoginia e todas as formas de opressão. Precisamos de famílias, escolas, comunidades, instituições e representantes políticos comprometidos com a proteção integral das infâncias. Precisamos ensinar que a paz não é ausência de conflito, mas a capacidade coletiva de enfrentar desigualdades e resolver conflitos sem recorrer à violência.
Uma criança com uma arma nas mãos não representa liberdade. Representa o fracasso de uma sociedade que deveria estar lhe oferecendo proteção, cuidado e oportunidades.
Que nossas crianças possam carregar livros, brinquedos, instrumentos musicais, sementes, pinceis e sonhos. Que possam brincar de construir mundos, e não de destruí-los. Que os meninos aprendam que suas mãos podem acolher, criar e cuidar. Que as meninas cresçam sabendo que seus corpos e suas vidas lhes pertencem.
E que todas as crianças, independentemente de sua raça, gênero, classe ou território, tenham assegurado o direito de viver uma infância plena, livre da violência. Construir uma sociedade sem feminicídio, sem violência sexual, sem racismo e sem medo também começa pela forma como educamos nossas crianças.
Desarmar as infâncias é desarmar o patriarcado. É proteger o presente e transformar o futuro. O lugar de criança é onde houver cuidado, liberdade, brincadeira e vida. Nunca na mira de uma arma ou engatilhando uma.

Ana Clara foi assassinada na porta de casa, quando brincava, por um policial defendido por Flávio Bolsonaro









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


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