jota

27 de agosto, 2026 Jota 
Por Anna Paula Mendes e Sabrina de Paula Braga

 

No último dia 13 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em decisão histórica, julgou o primeiro caso de violência política de gênero e condenou um vereador do município de Nova Friburgo à pena de um ano de reclusão pela prática do crime, previsto no artigo 326-B do Código Eleitoral. A decisão da mais alta Corte eleitoral lançou luzes sobre violências simbólicas que o machismo normaliza, não só na esfera privada, mas também no espaço público, como é o da política.

São recentes os mecanismos jurídicos que protegem as mulheres vítimas desse tipo de violência. Na América Latina, a Bolívia foi pioneira ao regulamentar o assédio e a violência política, aprovando, em 2012, a Ley Contra el Acoso y Violencia Política hacia las Mujeres. Contudo, historicamente, elas têm sido invisibilizadas, silenciadas, desacreditadas e intimidadas, além de serem pressionadas a agir contra a própria vontade, inclusive no campo político, tanto nos espaços institucionais, quanto em suas atuações políticas dentro das famílias e comunidades.

No Brasil, à medida que mulheres avançam na busca por espaços na representação política, aumenta também a reação a essa presença, tornando tais ambientes cada vez mais violentos e hostis, o que reflete uma lógica machista e patriarcal naturalizada em nossa sociedade.

Nas palavras do relator do Agravo, o ministro Dias Toffoli, “é preciso reconhecer as especificidades e os desafios enfrentados por mulheres ao acessar o ambiente político, historicamente dominado por homens, o que as coloca em nítida desvantagem estrutural”.

Nesse contexto foi promulgada a Lei 14.192/2021, que tipifica como crime “o ato de assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou detentora de mandato eletivo, mediante menosprezo ou discriminação à condição de mulher, ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou dificultar sua campanha eleitoral ou o desempenho do mandato”.

Para o ilícito, previu-se pena de reclusão de um a quatro anos, aumentada em um terço, se o crime for cometido contra mulher gestante, maior de 60 anos ou com deficiência. A proteção penal, contudo, não esgota o fenômeno e tampouco pareceu ser suficiente para mudar a realidade das mulheres na política no Brasil.

Dentre as limitações da proteção apenas na esfera criminal, podemos citar a impossibilidade de analisar atos que acontecem na pré-campanha, bem como a falta de punição a microagressões simbólicas, muitas vezes disfarçadas em atos de propaganda negativa que, apesar de não configurarem crime em sentido estrito, continuam sendo fatores que contribuem para consolidar a política como um não-lugar para mulheres.

É justamente nesse terreno das microagressões simbólicas – que escapam ao crime, mas não à propaganda negativa – que os exemplos cotidianos se acumulam. Discursos de que as candidatas deveriam estar restritas aos afazeres domésticos questionam não apenas sua capacidade de gestão, mas o próprio direito de estarem na política.

Também são frequentes os casos de exploração desproporcional da vida privada, familiar ou afetiva de mulheres que ingressam na política, como se esses aspectos fossem critérios legítimos de avaliação eleitoral. Há, ainda, a utilização de montagens sexualizadas, hoje facilmente executáveis com inteligência artificial, para constranger candidatas e comprometer sua imagem perante o eleitorado.

É possível que alguns desses atos, quando vistos isoladamente, não sejam considerados crimes eleitorais. No entanto, eles funcionam como ferramentas de propaganda negativa, desviando o debate do que é relevante para o eleitorado, minando a competitividade das mulheres e reforçando o machismo como estratégia de campanha.

Atento à necessidade de ampliar o espectro de proteção da isonomia entre homens e mulheres na política, o TSE promoveu, para as eleições de 2026, alterações substanciais na Resolução 23.610/2019, que dispõe sobre a propaganda eleitoral, enquadrando a violência política de gênero como nova modalidade de ilícito, tratada em diferentes passagens do texto.

Uma das novidades é a inclusão da violência política contra a mulher entre as hipóteses que obrigam os provedores de aplicação a indisponibilizar imediatamente conteúdos e contas durante o período eleitoral, conforme o art. 9º-E, VII. Também passou a ser vedado aos provedores de inteligência artificial criar ou promover alterações em fotografias, vídeos ou outros registros audiovisuais que contenham cenas de sexo, nudez ou pornografia envolvendo candidata, nos termos do art. 28, § 1º-C, III. A mesma regra proíbe que esses sistemas sejam usados para formular publicidade eleitoral que configure ato de violência política contra a mulher, como prevê o art. 28, § 1º-C, IV.

Por fim, o TSE estabeleceu um regime mais rigoroso para os conteúdos impulsionados que veiculem esse tipo de violência, excepcionando-os da regra geral que condiciona a responsabilização dos provedores ao descumprimento de ordem judicial específica, conforme o art. 29, §§ 4º e 4º-A, IV.

Essa positivação, feita pela via do poder regulamentar do TSE, é compatível com as diretrizes estabelecidas pelo Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero (Resolução CNJ 492/2023). No campo do direito eleitoral, considerar as desigualdades estruturais de gênero significa reconhecer as inúmeras práticas que acontecem ao longo de uma campanha eleitoral, por meio de uma propaganda capaz de reduzir a participação ou a competitividade das mulheres na política, prática que não deve ser tolerada.

Apesar dos avanços, o poder normativo do TSE não estabeleceu, expressamente, uma sanção pecuniária para a prática de violência política de gênero na propaganda eleitoral. Defendemos que a infração é capaz de atrair a incidência da multa já prevista no art. 57-D, § 2º, da Lei 9.504/1997, que, na atualidade, foi elevada à condição de verdadeira sanção guarda-chuva para os ilícitos de desinformação, que consiste no desvirtuamento da liberdade de expressão em ambiente digital.

Este entendimento foi inicialmente adotado no julgamento da Representação 0601754-50, de relatoria do ministro Alexandre de Moraes, em agosto de 2023 e, para as eleições de 2024, foi incorporado pelo art. 9º-H da Resolução 23.610/2019.

Não se pretende, com isso, criar uma punição sem previsão legal, mas estender ao ilícito de violência política de gênero na propaganda eleitoral a mesma interpretação que o próprio TSE já conferiu ao art. 57-D, § 2º, para outras formas de abuso da liberdade de expressão na internet.

As alterações promovidas para as eleições de 2026 representam, portanto, um avanço que não deve ser subestimado. Ao incorporar a violência política contra a mulher à disciplina da propaganda eleitoral, o TSE amplia a proteção para além dos limites próprios da tipicidade penal. A consolidação dessa mudança passa, agora, pela aplicação sistemática da disciplina da propaganda eleitoral, a fim de garantir efetividade à norma e verdadeira proteção à igualdade substancial entre homens e mulheres na política.

Acesse o artigo no site de origem.

 

Anna Paula Mendes

Mestre em Direito da Cidade pela UERJ. Servidora efetiva do TRE-RJ. Professora da pós-graduação em Direito Eleitoral do IDP, UERJ, Unifor, UERR E UFG. Professora da Universidade Iguaçu. Autora do livro “O Abuso do Poder no Direito Eleitoral: uma necessária revisitação ao instituto”

Sabrina de Paula Braga

Doutoranda em Direito Político pela UFMG. Professora, pesquisadora e servidora da Justiça Eleitoral

fonte: https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencia-politica/machismo-como-estrategia-de-campanha-por-anna-paula-mendes-e-sabrina-de-paula-braga/

 

Machosfera: Músculos, corações explosivos e mentes aflitas

Estimulado por farmacêuticas, big techs e indústria alimentícia, estereótipo de masculinidade precisa se materializar num ideal de corpo inalcançável. O resultado: misoginia e epidemia de mortes precoces de jovens. Agroecologia pode oferecer outro caminho

OutrasPalavras

Publicado 28/08/2026 às 18:30

 

A foto no perfil do Instagram apresenta um corpo compacto, em que os bíceps hipertrofiados saltam aos olhos – e parecem saltar até aos próprios braços, tamanha a desproporção. A pele que os recobre parece que vai estourar de tão esticada e as veias e tendões se destacam, formando um estranho desenho em 3D. Se a imagem equivale à fisionomia de alguém real ou não, é algo que já não é tão evidente. Com o desenvolvimento da Inteligência Artificial Generativa, as fronteiras entre o que existe materialmente e o que se reduz ao universo digital foram borradas – e, para uma parcela da sociedade, talvez nem se queira mais delimitá-las.  

A busca por um corpo ideal não é algo novo. Cada época da história teve seus padrões relativos ao que é ou não desejável para os seres humanos do sexo masculino e feminino. O terror do uso do espartilho pelas mulheres no período medieval, espremendo seus abdômens para moldar uma cintura idealizada, demonstra que nem sempre esses padrões eram minimamente saudáveis. No mundo capetalista, essa padronização (que não precisa ser única e pode ter nichos junto a determinados públicos) está atrelada não apenas ao poder e ao status, mas à geração de robustos rendimentos financeiros, através de um mercado em constante mutação.  

Se uma pessoa que tem pernas grossas desembolsa uma grana parruda para comprar produtos zero, na esperança de “obter” pernas mais delgadas; e outra se mata no levantamento de peso porque tem pernas delgadas e deseja o contrário, certamente “alguéns” estão lucrando (e muito!) com o estímulo a essa insatisfação generalizada na sociedade. Existe até quem lucre nas duas pontas, ganhando com a venda do que contribui para gerar o problema e com a venda do que poderia atenuá-lo, como acontece frequentemente na indústria química, que produz, ao mesmo tempo, o veneno tascado na comida e o remédio para controlar seus efeitos horrorosos na saúde. 

Voltando à esfera do desejo, gerar descontentamento para vender a ilusão de saná-lo é um pilar básico da sociedade de consumo. Nada como estimular a perseguição de um ideal inatingível para manter pessoas comprando produtos, usando serviços e sugando conteúdos midiáticos às toneladas. E isso é reforçado com a veiculação da ideia de que não existe alternativa ao capetalismo, apesar de todas as suas desgraças, e de que o colapso ambiental não poderá ser mitigado, mesmo se mudarmos nossos hábitos. Com o fim do mundo chegando e o aprofundamento da sensação de impotência para impedir sua chegada, para quê se preocupar com o futuro, inclusive o do próprio corpo?  

Cultivar o imediatismo não apenas impulsiona a produção e o consumo de uma massaroca de coisas não duráveis, mas gera também um efeito ambíguo sobre a própria percepção do cuidado consigo e com os demais. De um lado, há a busca por se adequar a certos padrões e, para isso, é preciso transformar a própria vida de forma acelerada, não importando muito as consequências a longo prazo geradas pelas medidas tomadas. De outro, há um anseio por se destacar em meio a uma massa de gente que persegue ideais semelhantes e se coloca em exposição contínua nas redes internéticas.  

Nesse redemoinho, a relação com a própria corporalidade fica sujeita a essas forças – que são externas à sua constituição e ao seu ritmo biológico, e podem violentá-la. Essa violência pode se estender para o entorno e acabar repercutindo na esfera coletiva, como veremos mais para frente.  

Crescendo e aparecendo 

A visão estereotipada do ideal de masculinidade na história da sociedade ocidental sempre envolveu a presença da força. Homens precisam ser fortes, por dentro e por fora, e ponto final. Isso significa que não podem manifestar seus sentimentos livremente, reconhecer que estão errados, muito menos ficar em posição considerada inferior à posição ocupada por mulheres. E essa fortaleza deve ser materializada em um corpo grande e rígido, transbordando virilidade, o que se traduz em músculos ultrabombados.  

Se a percepção do tempo está dominada pela velocidade das novas tecnologias – com seu rolar infinito das telas e sua simulação de realidades fake -, não há espaço para processos lentos de transformação. Há que se forçar braços e pernas a mostrarem uma musculatura volumosa logo, desconsiderando seus processos naturais próprios e seus limites. Mas, como a maioria de nós está nas cidades e não tem uma rotina de atividades que movimentam o corpo com vigor e constância, a tendência é que nossos músculos experimentem justamente o contrário, e se enfraqueçam.  

O caminho encontrado pelos habitantes urbanos, para não enferrujar em frente aos computadores ou nos bancos dos veículos de transporte para o trabalho, é estabelecer um programa de exercícios físicos para encaixar na rotina. No caso de quem quer ter um corpo com a musculatura hipertrofiada, o que se costuma fazer é mesmo puxar ferro, seja em casa ou em uma academia. Disciplina, constância e paciência são pré-requisitos básicos para obter resultados positivos, algo que leva tempo – e não significa ficar igual ao influencer seguido nas redes digitais.  

Sabemos que genética, condições sociais na infância, alimentação, sono e outros fatores têm influência decisiva no processo de desenvolvimento físico e psicoemocional. Além disso, há a biologia para botar limites na visão fantasiosa de quem quer inflar os músculos de um dia para o outro, e ela já nos mostrou inúmeras vezes que a natureza não funciona como o ser humano quer. Assim, vemos a todo instante a frustração de quem acreditou no guru do momento e imaginou que ficaria igual a ele apenas seguindo seu roteiro de maromba.  

 

E é aqui que um determinado mercado, que vem estufando no ritmo que essas pessoas desejam que ocorresse com seus bíceps, entra nessa história. Trata-se do mercado dos esteróides anabólico-androgênicos (EAAs), compostos sintéticos ou naturais normalmente usados para repôr o principal hormônio do corpo masculino, a testosterona. Em apenas 5 anos, as vendas no Brasil aumentaram 670%, como mostra um levantamento feito pelo jornal Valor junto à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); um salto de cerca de um milhão (2018) para mais de 7 milhões (2023) desses medicamentos comercializados legalmente.  

Os números podem estar bem abaixo da realidade porque as vendas de algumas das empresas fabricantes não foram computadas. E há o que é produzido e comercializado sem regulamentação em “laboratórios” improvisados, circulando em um comércio clandestino online ou até nas próprias academias, inclusive nas periferias, onde é chamado de “suco”.  

Esse mercado em expansão atende à ânsia em obter resultados rápidos e à vontade de chegar a um nível de hipertrofia que vai muito além do que é comum na população – inclusive do que é comum em quem treina do modo chamado de natural, ou seja, livre de EAAs. Só que o combo “crescer e aparecer” cobra um preço salgado, em grana e em consequências complicadas para o organismo de quem se joga nessa aventura. 

Em algum lugar a bomba estoura 

Todas as vezes que o ser humano tenta forçar a natureza a sair de seu ritmo, ela reage. Frequentemente, essa reação costuma ser bem diferente da que era desejada – e lidar com ela torna-se um novo desafio. Estamos vendo isso em nossa relação com o ambiente planetário, já que ele nos mostra inegavelmente que nossa pegada ecológica (inflada pelo estilo de vida dos bilionários) é insustentável, e que desacelerar a extração dos chamados recursos naturais é inevitável para sobrevivermos como espécie.  

Exigir que um determinado lote de terra produza mais (e mais velozmente) do que seria produzido naturalmente, não importando os danos ao seu equilíbrio, é a base do modelo imposto pelo Ogronegócio. A plantação, feita com sementes geneticamente modificadas, é entupida de fertilizantes químicos e de agrotóxicos, para que as espécies escolhidas se desenvolvam exponencialmente, eliminando as demais.  

O resultado está aí: empobrecimento do solo, perda da biodiversidade, aumento da resistência por parte do que se considera praga, contaminação e adoecimento. É apenas com o aumento do uso desses produtos, a expansão de suas fronteiras e a absorção de musculosos subsídios governamentais que o sistema se mantém, permitindo a exportação de 132,8 milhões de toneladas só de soja em 2025, novo recorde histórico.  

Em relação aos elementos ingeridos ou injetados no território íntimo que é o corpo humano, existe a mesma tendência de gerar desequilíbrio quando se quer forçá-lo a adquirir uma condição irreal para sua constituição. Não foram poucos os casos de pessoas que perderam a vida, ao se lançarem em processos radicais de transformação, como cirurgias plásticas e dietas restritivas. No caso de anabolizantes, podemos dar uma olhada no que acontece com fisiculturistas de elite.  

Enquanto práticas regulares de musculação e de outras atividades físicas estão relacionadas a uma melhor condição de saúde, o comportamento extremo de pessoas adeptas do fisiculturismo está ligado ao aumento de problemas no organismo e até à diminuição da expectativa de vida. Atingir um tamanho agigantado e uma força descomunal exige o consumo intenso desses esteróides e de muitas outras substâncias, como diuréticos e estimulantes, sobretudo quando o tempo é curto. 

Uma das consequências já muito bem documentada desse uso é a sobrecarga cardiovascular. Sofrer um ataque cardíaco aos 30  anos não é algo que gera surpresa na classe médica quando se trata de “atletas” desse setor. Recentemente, o caso da morte de um jovem de 22 anos (que tinha mais de um milhão de seguidores/as e era referência no setor marombado) deu visibilidade a esse debate, que costuma se desenrolar sem ecoar fora do seu circuito.  

No entanto, o conhecimento sobre esse drama não deu as caras hoje. Já em 2000, a Revista Internacional de Medicina Esportiva publicou um estudo com dados alarmantes. Em um período de 12 anos, o índice relativo à mortalidade constatado foi de 12,9% para os levantadores de peso acompanhados pela pesquisa. É quatro vezes maior ao que foi obtido em relação ao grupo de controle, formado por não fisiculturistas.  

Outro amplo levantamento, registrado na revista JAMA em 2024, analisou usuários de EAAs por 11 anos e comparou os dados encontrados com os de não usuários. A mortalidade em geral de quem fez uso dessas substâncias foi cerca de 2,8 vezes maior que a do restante. E esse número aumenta para 3,6 vezes, quando comparamos apenas a mortalidade associada a suicídios, homicídios e acidentes, fatores relacionados a desequilíbrios psíquicos. Assim, é possível perceber que além dos próprios usuários, outras pessoas também são afetadas por esse uso indevido, já que podem ser vítimas de confrontos violentos provocados por eles.  

O mantra entoado por quem acha que se trata de uma escolha pessoal – “cada um faz o que quiser consigo mesmo” – cai por terra quando vemos que as consequências não se restringem aos territórios corporais de quem usa esteróides. Além disso, há o impacto na saúde pública, que terá que atender aos problemas físicos e mentais vivenciados por esse público. E, dada a identificação de muitos desses usuários com ideologias reacionárias, a bomba pode estourar no colo das mulheres. 

Pau nas diferenças      

O recrudescimento da misoginia e do feminicídio nos últimos anos é expressivo. O velho ódio ao sexo feminino tem surfado na onda dos ideais de ultra-direita que tomaram boa parte do mundo, sobretudo os EUA – país cujo Ministério da Guerra anda vetando a liderança de mulheres e pretende implantar um programa para reforçar a testosterona dos integrantes de suas forças armadas, de modo a aumentar sua agressividade e, claro, a grana na conta da Big Pharma.  

Acusadas de mentirosas, manipuladoras, interesseiras, destruidoras da família tradicional e dos bons costumes, nós mulheres devemos ser postas no cabresto, nem que seja na base da porrada. Tudo o que conquistamos (e sabemos bem o preço pago pelas conquistas e o quanto ainda falta para conquistar) teria que ser retirado de nós, para que o patriarcado voltasse a exibir quadríceps avantajados, restaurando a ordem e a moralidade perdidas.  

As frustrações provocadas por um modelo econômico que promete maravilhas (como as mostradas nas redes virtuais) e distribui pedradas (como trabalho precário, serviços desestruturados por privatizações e profunda insegurança em relação ao espaço e ao tempo em que se vive) são canalizadas para alvos convenientes ao sistema. Entre eles, encontramos o corpo feminino.  

Historicamente visto como mais fraco e mais “ligado ao pecado”, ele pode e deve ser controlado pelos homens, sobretudo pelos considerados grandes, como os musculosos, ricos e famosos que se destacam como influencers. Desse modo, os anabolizantes que povoam a machosfera fazem parte de um movimento de negação a tudo que pode ser considerado manifestação de fraqueza – caraterística que seria exclusivamente feminina, física e emocionalmente falando, incluindo a parte que é referente ao caráter.  

No circuito de machos bombados, seja em que estágio a pessoa estiver (e pode ser apenas o do desejo de pertencer a ele), o que é valorizado é a grandeza. Alguém grande deve ser entendido como um homem ultra musculoso, ultra (re)conhecido, ultra rico e ultra bem sucedido em tudo, incluindo suas relações com as mulheres, com os negócios e com o mundo plataformizado. Nesse sentido, atingir a grandeza é poder ter (e demonstrar que se tem) uma vida identificada como a ideal pelo macho alfa contemporâneo, aquele que é vencedor – ou melhor, aquele que é invencível (e imbrochável!). 

O processo de construção desse ideal de ser humano traz na sua rabeira a intolerância com quem não segue seus passos. Não são apenas as mulheres que são discriminadas, mas também a comunidade LGBT+ e os povos tradicionais, cujos corpos-territórios não se encaixam na estética masculina preconizada. Se os bombados são os vencedores, essas outras pessoas são vistas como as perdedoras – ou losers, em língua de gringo.  

Uma das características do fascismo é desumanizar quem é diferente. Ao ser coisificado, um ser pode ser atacado e destruído sem remorsos. Se pensarmos nestes tempos de multiplicação de agentes de IA, com quem se pode interagir sem o menor cuidado ou respeito, há um impulso para o desenvolvimento de relações desumanizadoras, que podem se estender aos seres humanos de carne e osso. Por isso, e voltando ao tratamento dado às mulheres, é bom prestar atenção no modo como muitos homens másculos “falam” com suas Alexias ou suas Siris, assistentes virtuais submissas aos seus comandos.    

Quando alguém acha que seu tamanho e sua fama dão aval para que possa acelerar carrões caríssimos, provocar acidentes e colocar a vida alheia em risco, tornar-se um modelo para uma juventude emocionalmente vulnerável, através de canais com milhões de seguidores/as, é alimentar uma sociedade perturbada, competitiva e autoritária. Todos/as perdemos com isso.  

Explode coração  

Em 2023, o Conselho Federal de Medicina decretou a proibição do uso de anabolizantes para fins estéticos, já que é impossível assegurar as condições de saúde de pacientes que fazem uso deles sem necessidade clínica.  

Quem resolve insistir no uso inadequado, têm aumentados os riscos das seguintes tretas: queda de cabelo, acne, trombose, embolia, elevação do colesterol ruim (LDL); redução do colesterol bom (HDL), resistência à insulina, insuficiência renal, diabetes tipo 2, ginecomastia, hepatite medicamentosa, cirrose, infarto e AVC. E vale destacar, ainda, a diminuição da fertilidade, algo que deveria ser caro aos que tanto cultuam a virilidade. Portanto, as alterações estéticas almejadas pelos usuários são acompanhadas de alterações no organismo como um todo, principalmente em alguns órgãos vitais. 

Um dos efeitos físicos mais característicos de quem abusa dessas substâncias é a hipertrofia ventricular: o aumento do tamanho do coração (ele pode mais que dobrar de peso e ficar próximo ao tamanho do coração de uma anta, maior mamífero terrestre nativo). Como os demais músculos do corpo, quando está sob à ação de esteroides, ele sofre um estímulo para crescer e se torna mais espesso e endurecido, dificultando o bombeamento do sangue. E o problema não atinge só quem usa por muito tempo, já que as deficiências cardiovasculares podem ser sentidas a partir da quarta semana de utilização.  

O processo é ainda mais traiçoeiro porque engana suas vítimas. Elas costumam se sentir mais dispostas, vigorosas e energizadas, enquanto o órgão vai sendo atacado. No momento em que os sintomas (como dores no peito, dificuldades respiratórias e até desmaios) começam a ser percebidos, é comum os danos já estarem em um estágio muito difícil de reverter. Vale lembrar que uma outra impossibilidade de reversão ocorre com a produção natural de testosterona, que cairá abaixo do que seria normal, caso se interrompa o uso (questão sensível para quem se apresenta como imbrochável). 

Além disso, o estrago pode ser ampliado da esfera individual para a coletiva porque muitas das pessoas usuárias costumam postar seus feitos nas redes virtuais, transmitindo uma ideia de saúde totalmente inconsistente para quem as admira e deseja seguir seus passos. Ao menos até que seus corações “explodam” no peito mega turbinado e, por um curto tempo, um alarme soe na mídia do setor, logo perdido nos feeds controlados pelas Big Techs.  

Considerando que o órgão é simbolicamente associado ao amor e à generosidade, fica parecendo um contra senso que pessoas narcisistas, competitivas e intolerantes (como boa parte da machosfera marombada) possam ter um “coração enorme”. Mas a verdade é que, à medida que ele cresce, começa a perder sua elasticidade, dificultando o relaxamento necessário ao processo do batimento. Essa inflexibilidade física pode ser um símbolo mais coerente em relação à inflexibilidade psicoemocional/ideológica de quem desfila seus egoísmos e preconceitos em perfis seguidos por uma trempe de garotos ansiosos por referências de homens bem sucedidos.  

Mas, se voltarmos à questão do tamanho ampliado do órgão, talvez o que esteja ocupando esse “espaço emocional”, agigantando-o, seja algo muito diferente dos sentimentos amorosos socialmente convencionalizados. E sentimentos, sejam quais forem, também estão rotineiramente relacionados a outro órgão do corpo: o cérebro.  

Martelando o crânio  

A revista Frontiers in Communication publicou um estudo científico sobre a Geração Alfa, formada por pessoas nascidas entre 2010 e 2024. Elas são consideradas a primeira geração totalmente “platform-native”, ou seja, constroem suas identidades na interação com as plataformas digitais, algo muito além de usar as ferramentas tecnológicas para determinadas finalidades, como obter informações ou entretenimento.  

As relações que elas estabelecem com outras pessoas, a linguagem que adotam, a percepção do tempo… tudo passa a ser referenciado pelas dinâmicas do universo online. E, como sabemos, essas dinâmicas são moldadas para viciar, envolvendo a criança ou adolescente em um labirinto personalizado, de acordo com algoritmos criados para maximizar sua permanência nessas plataformas.  

É essa mistura contínua de socialização, aprendizado, consumo e diversão, sempre condicionada e direcionada pelos interesses das Big Techs e de seus clientes, que irá influenciar decisivamente na formação de um determinado eu, a ser incorporado por pessoas cujo organismo ainda está em formação. Nesse meio vampiresco, podemos dizer que vício puxa vício. No artigo Big Techs e Big Foods – um casamento lucrativo, eu já havia esmiuçado as relações nada saudáveis para a sociedade entre essas gigantes.  

Quanto mais viciado/a na internet, mais tempo online, mais anúncios absorvidos, mais estímulo ao consumo de ultraprocessados (UPPs), certo? E quanto mais se ingere esses preparados lotados de aditivos, mais se quer devorá-los, devido a alterações no paladar e no próprio funcionamento do cérebro. Sem comida nutritiva, a cognição de um ser humano fica prejudicada e mais facilmente ele/a irá se ligar em conteúdos superficiais e distorcidos, inclusive aqueles que fazem apologia à violência e à discriminação.  

Neurônios condicionados, papilas gustativas moldadas, a juventude fica mais e mais sujeita aos complicômetros contemporâneos, como obesidade, ansiedade e depressão. É o pacote perfeito para gerar insatisfação com a própria vida, que costuma ser canalizada para o próprio corpo. No caso masculino, pode produzir os gatilhos ambientais que ajudem a desencadear  a ocorrência de vigorexia, uma doença em que a pessoa se sente mais fraca do que é, sofre com essa percepção e se lança em processos que podem ser perigosos.  

Só tendo em vista esse mecanismo esmagador é possível entender que existem multidões de adolescentes envolvidos com o que é chamado de Looksmaxxing, uma corrente estética que busca maximizar as características consideradas masculinas para aumentar a atratividade. Segundo um monitoramento do conteúdo de uma dessas comunidades (que é visitada por 6 milhões de pessoas ao mês), publicado na revista Sociology Health & Illness, o predomínio é de incitações a procedimentos agressivos, incluindo autolesões – como martelar repetidamente a própria mandíbula, procedimento que supostamente a deixaria mais acentuada, prática conhecida como “bone smashing”.  

E tudo regado a insultos e a ridicularização de quem não adere ao que é pregado e não conquista as condições físicas que representam a virilidade almejada. Sob esse bombardeio psicoemocional, começar a se envolver com outras “bombas”, agora na esfera material, acaba sendo um dos caminhos encontrados para a auto-afirmação desses jovens.  

Isso tem acontecido cada vez mais cedo, tornando o processo ainda mais conflituoso, já que o uso precoce causa a interrupção do crescimento dos ossos e faz com que o jovem fique menor em altura do que seria o esperado para sua constituição natural. É algo que tem entrado na rotina em nosso país, onde 1 em cada 16 estudantes já utilizou anabolizantes, incluindo os que estão no ensino fundamental (menores de 15 anos). 

Vale lembrar que, nesse meio, os passos para encontrar os EAAs estão todos dados, não sendo difícil driblar as leis, como mostram seus gurus em posts abertos ou em cursos pagos. Ao experimentar essas bombas na juventude, a chance de se tornar dependente é maior, lembrando que o índice para adultos (30%) já é bem alto comparado com outras drogas, como a cocaína (25%). Então, os tais ciclos (períodos de administração dos EAAs) vão se sucedendo, envolvendo doses cada vez mais altas – e as consequências podem ser fatais. 

Do ciclo mortal para o ciclo vital 

Ao vermos  influencers famosos, ricos e fortes, patrocinados por empresas que fabricam produtos para acelerar o aumento dos músculos, nossa tendência é condená-los pelos danos que provocam, ao estimular outras pessoas a entrar nesse furacão. Mas é preciso olhar com atenção para eles. No fundo, também são peças manipuladas, arrastadas em uma engrenagem que mastiga cérebros e corações. Afinal, o mercado “juicer”, como é chamado nos EUA o que envolve os “tomadores de suco”, faz parte de um sistema que se sustenta com a proliferação de polêmicas e extremismos, principalmente do tipo visualmente chocante.  

Ao serem levados a submeter seu próprio corpo a processos não saudáveis para conquistar e manter seguidores/as, eles mesmos se tornam um produto, ficam reféns dos personagens que criaram e têm que jogar o jogo sujo que garante essas existências performáticas. Portanto, o vício fisiológico e a prisão psicoemocional e econômica se entrelaçam. Atrás desse palco, em que desfilam músculos e egos parrudos, iremos encontrar outros elementos turbinados: os bolsos dos grandes acionistas de Big Techs, Big Pharma e Big Foods.  

É dessa forma que a plataformização da vida de muitos jovens (emocionalmente vulneráveis, em uma sociedade que não acolhe seus anseios e parece prestes a ruir) os aprisiona em um ciclo de agressividade para consigo e os/as demais, torturando o próprio corpo em um circuito de adoecimento que os aproxima de uma morte precoce. Como escreve Catherine Shannon, “os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso”.  

Enfrentar esse universo multi espelhado, que nos escraviza, nos antagoniza e nos consome, é um desafio existencial que passa pela luta contra os mecanismos político econômicos que permitem a exploração ininterrupta de corpos, emoções e mentes por uma elite tecnológica disposta a sugar nosso planeta até o osso, como podemos perceber com a multiplicação dos data centers mundo afora. Sobretudo em ano de eleições, quando nosso país vai definir quem ocupa o Congresso Nacional e as cadeiras do executivo no planalto central e nos estados, é preciso expor essas entranhas. 

São ações indispensáveis e urgentes: regular as plataformas digitais; desmontar as redes ilegais e reduzir a influência das redes legais de produção e venda de substâncias danosas; criar programas de prevenção e cuidado; combater a misoginia e a homofobia em suas raízes; incentivar e dar condições para a prática saudável de exercícios; ampliar o acesso à alimentação de qualidade; coibir a publicidade de ultraprocessados e, principalmente, abrir portas para que a juventude possa encontrar caminhos de atuação coletiva em torno de uma agenda construtiva, que a permita lidar com os desafios atuais. 

É nesse sentido que os movimentos agroecológicos podem ser acionados e apoiados pelo poder público. Eles trazem outra perspectiva de existência, promovendo a integração dos seres humanos com os demais seres que coabitam nosso mundo. Trabalham com a criação de outro tipo de ciclo. Ao invés do ciclo individual e agressivo das bombas da máfia farmacêutica, eles reverberam o ciclo que alimenta  a vida.  

Se os “sucos” tomados pelos marombados adoecem seus corpos e suas mentes, gerando o aumento da violência e da infertilidade, os nossos sucos da terra, feitos com alimentos biodiversos cultivados pelas mãos camponesas, podem impulsionar a recuperação da saúde das pessoas, da sociedade e da natureza. Porque, de fato, realizar a Transição Agroecológica envolve a transformação das relações do ser humano consigo mesmo, com os demais seres humanos e com a teia heterogênea de viventes que estrutura nossa existência planetária compartilhada.  

Como no caso dos venenos agrícolas, não há uso seguro de EEAs. Então, temos que (e vamos!) trabalhar firmemente para substituir as bombas tóxicas, que estão sendo usadas na guerra travada contra o próprio corpo e contra nossa Casa Comum, pelas bombas de sementes crioulas que vão turbinar naturalmente a fertilidade da vida! 

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Machosfera mira o voto das mulheres e ameaça a democracia, por Marlene de Fáveri

27 de agosto, 2026 Portal Catarinas Por Marlene de Fáveri

 

Discursos misóginos tentam deslegitimar o sufrágio feminino e mostram como direitos conquistados podem voltar a ser alvo de retrocessos.

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Circula nos posts na “machosfera” uma opinião calhorda comparando o voto feminino como “uma das maiores desgraças da humanidade”. À medida que se aproximam as eleições, o direito consolidado e sob ataque é o sufrágio feminino.

Há, hoje, um movimento orquestrado pela extrema direita no Brasil, boa parte copiado dos Estados Unidos, que quer tirar das mulheres o direito de votarem e, consequentemente, de serem eleitas. Por que esses discursos vêm com força agora?

Desde muito, em quase todas as sociedades, os homens exerceram controle sobre a propriedade, os filhos e as mulheres sob um regime patriarcal. Muitas mulheres, porém, cansaram do domínio e passaram a questionar a subalternidade com que eram tratadas.

O século 20 viu surgirem os movimentos feministas e a luta pelo direito ao voto em igualdade de condições com os homens. No Brasil, o movimento feminista ganhou força na década de 1920, tendo à frente nomes como a professora Maria Lacerda de Moura e a bióloga Bertha Lutz.

Juntas, elas fundaram a Liga para a Emancipação Intelectualda Mulher, grupo de estudos voltado à luta pela igualdade política das mulheres. Logo depois, Bertha Lutz criou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino que tinha entre suas pautas “assegurar à mulher direitos políticos e preparação para o exercício inteligente desses direitos”.

O voto das mulheres no país foi reconhecido em 1932 e incorporado à Constituição em 1934, mas ainda era facultativo. Somente em 1965 tornou-se obrigatório e equiparado ao dos homens.

Entramos no século 21 com a experiência da democracia consolidada (ou se consolidando) com mulheres alcançando postos de comando, eleitas nas diferentes esferas do poder político, fazendo a diferença. Essa presença cada vez maior assustou e assusta homens que se acham preteridos porque elas estão alçando postos que eles consideravam só seus por direito.

Maioria da população, mulheres ainda são minoria nos espaços de poder político

Os resultados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil tem 6 milhões de mulheres a mais do que homens: são cerca de 104,5 milhões de mulheres e 98,5 milhões de homens.

As mulheres representam cerca de 53% do eleitorado brasileiro, mas ocupam 17% a 18% das eleitas para cargos políticos, evidenciando que a participação feminina ainda está muito abaixo da proporção de mulheres na população e no eleitorado.

Ainda segundo dados do IBGE (2022), embora representem 51,5% da população brasileira, elas ocupavam, em maio de 2026, 18,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 19,8% no Senado Federal (Agência Senado, 2026).

No Judiciário, ainda que o percentual de magistradas seja de 36,8%, apenas uma mulher integra o Supremo Tribunal Federal (STF). No Executivo, somente uma mulher chegou à Presidência da República na história do país e, nos últimos 30 anos, apenas dez foram eleitas governadoras. No âmbito municipal, a disparidade se mantém: elas ocupam apenas 13,2% das prefeituras brasileiras.

Estes dados mostram que, mesmo sendo a maioria da população, a participação das mulheres eleitas não passa de 20% em relação aos homens eleitos. O que acontece? Quais discursos as amedrontam na decisão do voto? A força da cultura machista, do patriarcado e da misoginia está longe de ser erradicada.

Ódio e estruturas machistas e fascistas corroem a democracia

Em um ensaio político que busca compreender a ascensão do autoritarismo contemporâneo, a filósofa Marcia Tiburi argumenta que a extrema direita se apoia na desinformação tecnológica, no ódio e em estruturas machistas e fascistas e corroer para democracia.

Ela denomina turbotecnomachonazifascismo esse conjunto de discursos infames que desqualificam as mulheres e fazem da misoginia um instrumento de poder e capital político para angariar votos.

Márcia aponta a retórica do “macho agressivo” contra os direitos das mulheres, marcada por provocações que buscam causar medo e pânico, beirando ao grotesco e ao ridículo.

Recentemente, vimos um partido com candidato à Presidência, o Missão, defender o fim do voto das mulheres com um despudor de dar asco.

O objetivo? Obter seguidores, e votos, de uma parcela de incautos/as alienados/as. Trata-se de um discurso perigoso para as mulheres, para a cidadania, para a democracia, para a política e para a sociedade.

Mulheres advogando contra si mesmas é um paradoxo

Vemos mulheres saindo em defesa dos discursos de homens que querem eliminar o direito ao voto delas. É uma contradição: imagine votar em um candidato que defende que você não tem o direito de votar?

Como pode haver mulheres que votem pelo fim de seus próprios direitos?

Presenciamos essa contradição, por exemplo, nas ações de uma deputada estadual de direita de Santa Catarina que apresenta projetos como a criação da Procuradoria Especial do Homem, escreve livros que atacam as conquistas das mulheres e do feminismo e cria clubes antifeministas, entre outras iniciativas. Mas ela foi eleita. Incoerente, absurdo, ilógico, contraditório. É um paradoxo: mulheres eleitas advogando contra si mesmas.

Como estas mulheres ligadas ao bolsonarismo não percebem que o espaço de poder continua sendo definido pelos homens? Como não se percebem como mulheres e aceitam serem coadjuvantes e não enxergam os danos do patriarcado?

São cooptadas e estão lá porque servem aos interesses do partido. Como essas mulheres não enxergam o mundo ao redor? Não se percebem enleadas nas redes de poder masculinas mesmo com tanta informação?

Talvez não percebam, ou não querem perceber, a força política que teriam se deixassem de atuar apenas como apoio dos homens e construíssem um caminho próprio que defendesse os direitos das mulheres e denunciasse a violência política de gênero. Elas também sofrem esta violência, todavia, aceitam.

Sobre estes discursos que pretendem afastar as mulheres do direito ao voto, um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisou 126 publicações feitas em 18 comunidades do Telegram.

A pesquisa identificou uma narrativa consolidada na chamada “machosfera” que busca deslegitimar o sufrágio feminino associando o exercício desse direito a uma suposta decadência social e política.

Essa naturalização aparece em frases que classificam o voto feminino como “um dos maiores erros da sociedade ocidental”, “uma das maiores desgraças da humanidade” e “a pior decisão já tomada pelo Brasil”, expressões recorrentes nas mensagens analisadas.

Esse projeto da “machosfera” objetiva o controle dos corpos das mulheres, manipular suas mentes e fazê-las acreditar que elas não sabem fazer escolhas e, portanto, não sabem votar, reproduzindo as ideias de fragilidade e incapacidade feminina para tomar decisões. Adotam uma perspectiva reacionária, machista e misógina de controle e desprezo às mulheres. Parece uma distopia como no Conto da Aia, mas é um movimento em curso.

Antifeminismo e ressentimento se transformam em estratégias de mobilização

A socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora de gênero e misoginia, no livro Machosfera: Quando a Misoginia Vira Política (Dialética Editora, 2026) investiga comunidades masculinistas e a conexão na internet.

Ela mostra como transformam discursos antifeministas e ressentimento em estratégias de mobilização política. Um negócio lucrativo e que tem sido usado para desinformar eleitores com o objetivo de obter ganhos políticos, ou seja, o voto. E as mulheres são o alvo: a ofensiva é misógina e as desqualifica para o exercício desse direito.

Nas últimas décadas, movimentos por direitos — feministas, negros e LGBTQIAPN+, entre outros — deslocaram fronteiras e contribuíram para nomear violências até então naturalizadas.

Pessoas historicamente invisibilizadas e excluídas passaram a disputar, a duras lutas, os espaços públicos, políticos e de poder. Houve avanços e, por isso, as reações negativas e os contra-ataques (backlash) se intensificam neste momento que antecede as eleições.

Acesse o artigo no site de origem.

fonte: https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencia-politica/machosfera-mira-o-voto-das-mulheres-e-ameaca-a-democracia-por-marlene-de-faveri/

 

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Integração entre Justiça e rede de proteção é caminho para efetivar Lei Maria da Penha

Cerimônia de Abertura do XX Jornada Lei Maria da Penha / Foto: Ana Araújo/CNJ
 

A atuação integrada do sistema de justiça e da rede de proteção é um dos principais desafios para transformar os direitos previstos na Lei Maria da Penha em proteção efetiva. O tema marcou os dois últimos painéis do primeiro dia da XX Jornada Lei Maria da Penha, realizada nesta quinta-feira (27/8), em Campo Grande (MS).

Ao abrir o painel sobre os avanços e desafios da legislação, a juíza auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Suzana Massako afirmou que a Lei n. 11.340/2006 mudou a forma como o Estado enxerga e enfrenta a violência doméstica. Duas décadas depois, o desafio é fazer com que essa transformação alcance a vida de todas as mulheres.

“A pergunta que fazemos agora é: qual distância ainda existe entre a promessa de proteção e a proteção, de fato? Já sabemos que nenhuma instituição será capaz de responder a isso de maneira isolada”, afirmou.

Proteção que chega às mulheres

A ouvidora nacional da Mulher e supervisora da Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, conselheira do CNJ Jaceguara Dantas, lembrou que a Lei Maria da Penha nasceu da busca de uma mulher pela proteção da própria vida e pelo direito à Justiça.

Jaceguara relacionou essa trajetória à de Esperança Garcia, mulher negra escravizada que, no século XVIII, escreveu às autoridades para denunciar as violências sofridas por ela e pelos filhos. A conselheira observou que Maria da Penha Maia Fernandes também recorreu à escrita e à mobilização de organizações de direitos humanos para enfrentar a omissão do Estado brasileiro. O caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e impulsionou a criação da lei.

A conselheira defendeu ainda o fortalecimento da rede de proteção nos municípios menores, onde a insuficiência de serviços especializados aumenta a vulnerabilidade das mulheres e dificulta a prevenção da violência e do feminicídio.

Jurista, professora da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do consórcio que participou da elaboração da Lei Maria da Penha, Ela Wiecko ressaltou que as políticas públicas precisam ser construídas a partir das experiências das próprias mulheres. “A escuta das mulheres é fundamental”, disse, ao mencionar o projeto Antes que Aconteça.

Ela Wiecko também questionou o uso da palavra “avanço” para descrever as mudanças das últimas duas décadas. Embora reconheça as transformações ocorridas, advertiu que o patriarcado e o racismo continuam estruturando as relações sociais e criando resistências à aplicação da lei. “Temos de pensar menos nos avanços e fazer mais para mudar as práticas sociais e culturais estabelecidas nas relações entre homens e mulheres”, afirmou.

Prevenir antes que seja tarde

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que nenhuma instituição conseguirá prevenir a violência isoladamente. Para ela, os serviços devem atuar de forma coordenada, sem obrigar a vítima a percorrer diferentes órgãos até encontrar proteção.

“O sistema precisa ajudar essas mulheres, e não forçar a ajuda em vários espaços”, declarou. Segundo os dados apresentados pela ministra, o país registra quatro feminicídios e 12 tentativas por dia. “Por que ainda perdemos tantas mulheres para a violência? Nosso desafio é prevenir antes que seja tarde”, questionou.

Márcia Lopes destacou a responsabilidade assumida pelos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário com o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio. A articulação, explicou, deve alcançar as causas estruturais da violência de gênero, que não se restringe ao ambiente doméstico.

“A violência de gênero está no trabalho, na política e nas ruas. Ela não fica dentro de casa. É uma violência que atinge todas as mulheres e está ligada às relações de poder”, afirmou.

A ministra também apontou os grupos reflexivos para homens autores de violência como instrumentos importantes de responsabilização e mudança de comportamento. O desafio, acrescentou, é avaliar se as políticas e os mecanismos de proteção estão conseguindo impedir o agravamento da violência.

Vigilância permanente

No último painel de debates, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Rogério Schietti Cruz defendeu que os homens reconheçam as marcas do machismo em sua formação e mantenham vigilância sobre pensamentos, palavras e ações, inclusive no exercício da magistratura.

“Sou, como todo homem, machista. Fui educado em uma faculdade machista e estudei um Direito machista. O Direito é produto de uma cultura de homens e carrega essa marca”, afirmou. O ministro também alertou para a subnotificação. Conforme estimativa mencionada por ele com base em pesquisa do CNJ, cerca de 67% dos casos não seriam denunciados. Entre as razões estão o medo de julgamento, a falta de acolhimento, o receio de agressões contra os filhos e a dependência financeira.

“O feminicídio é uma realidade, mas temos como evitar o escalonamento da violência com o uso correto dos instrumentos de avaliação de risco e a escuta humanizada das vítimas”, concluiu. A XX Jornada Lei Maria da Penha segue nesta sexta-feira com debates e a busca por novas orientações ao sistema de justiça para o aprimoramento de sua atuação no enfrentamento à violência contra a mulher.

Ao lado do ministro, a conselheira do CNJ Kátia Arruda defendeu o enfrentamento de todas as formas de violência, especialmente a institucional. Segundo ela, o machismo é construído cotidianamente e precisa ser combatido em todas as frentes, inclusive pelas próprias mulheres, que também devem reconhecer como ele se reproduz dentro delas. “Como diz uma amiga minha, nós, mulheres, sofremos violências sutis e expressas. Quem afirma que nunca sofreu ou é tola ou é cega”, declarou.

Acesse as fotos do evento

Texto: Regina Albuquerque
Revisão: Cauã Samôr
Edição: Beatriz Borges
Agência CNJ de Notícias

 

FONTE: https://www.cnj.jus.br/integracao-entre-justica-e-rede-de-protecao-e-caminho-para-efetivar-lei-maria-da-penha/

 

 

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