
Por Hellen Frida - Cfemea
A bissexualidade ainda é atravessada por uma espécie particular de apagamento. Não se trata apenas do preconceito explícito. Ele aparece também nas perguntas aparentemente inocentes, nas piadas, nas suposições e na insistência em nos encaixar em uma sexualidade definida a partir de uma lógica binária e também a partir da análise rasa sobre quem está ao nosso lado naquele momento.
“Você é bi? Então fica com todo mundo, né?”
“Mas você parece hétero.”
“Será que não é só uma fase?”
“Você precisa escolher um lado.”
“Você é bi, mas nunca se relacionou com alguém do mesmo gênero?”
Não. Bissexualidade não é indecisão, confusão, fase, promiscuidade ou uma etapa no caminho para descobrir uma sexualidade “definitiva”. E a experiência sexual ou afetiva não funciona como prova de orientação sexual.
Há anos venho elaborando, também a partir da minha própria vivência, o que significa existir como mulher bissexual em uma sociedade que insiste em nos interpretar por uma lógica heteronormativa e monossexual. Quando estamos em uma relação com outra mulher, somos frequentemente lidas como lésbicas. Quando estamos com um homem, desaparecemos sob a presunção da heterossexualidade. Nossa identidade parece sempre precisar ser confirmada pelo gênero da pessoa que está conosco e não por nossa própria experiência, sentir e autodeterminação. Mas a minha sexualidade não começa nem termina na pessoa com quem me relaciono.
Quando ninguém nos vê
O apagamento bissexual tem uma característica perversa: muitas vezes ele parece invisível justamente porque nós também somos tornadas invisíveis.
Podemos estar nos movimentos feministas, nos espaços LGBTQIAPN+, nas políticas públicas, nos serviços de saúde, nas famílias e nas relações afetivas sem que nossa bissexualidade seja reconhecida. E esse apagamento pode ocorrer tanto sob a heteronormatividade quanto em espaços marcados por uma lógica monossexual - aquela que pressupõe que uma pessoa deve sentir atração exclusivamente por um gênero.
Essa invisibilidade não é apenas uma questão simbólica. Pesquisas vêm mostrando que mulheres lésbicas e bissexuais estão expostas a discriminações e violências específicas no Brasil. O estudo nacional “Experiências de violência contra mulheres lésbicas e bissexuais no Brasil” identificou, entre as mulheres pesquisadas que relataram violência, predominância de violência psicológica e alta recorrência das agressões. Entre as bissexuais, apareceram com força justamente experiências relacionadas à exigência de uma definição binária da sexualidade, como se fosse obrigatório “escolher” entre ser heterossexual ou lésbica.
Dados mais recentes reforçam que essa realidade precisa ser tratada também como questão de direitos e de políticas públicas. Estudo publicado em 2026, intitulado "Desigualdades de gênero na violência contra minorias sexuais e de gênero no Brasil", na revista científica Saúde em Debate, utilizando dados populacionais da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), encontrou prevalências de violência e depressão significativamente maiores entre mulheres de minorias sexuais do que entre mulheres heterossexuais.
Outra pesquisa de 2026, publicada pela editora científica Springer, analisa de forma inédita as dinâmicas de violência psicológica, social e de gênero direcionadas especificamente a mulheres bissexuais no Brasil e na Itália, e chama atenção para formas de violência que muitas vezes sequer são reconhecidas como tal: invalidação da identidade bissexual, fetichização, objetificação e ameaça de revelar a orientação sexual sem consentimento.
Ou seja: a bifobia existe mesmo quando não parece bifobia.
Não precisamos escolher um lado
Existe também uma associação recorrente entre bissexualidade e disponibilidade sexual. Mulheres bissexuais são frequentemente hipersexualizadas, tratadas como necessariamente como infieis ou disponíveis para realizar fantasias alheias.
Uma mulher bissexual pode ser monogâmica ou não monogâmica; pode estar solteira; pode construir relações duradouras; pode ter tido experiências com pessoas de diferentes gêneros ou não. Pode passar anos ou a vida inteira sem estar em uma relação ou mesmo em uma relação com uma única pessoa e continuar sendo bissexual.
Orientação sexual não determina fidelidade, caráter, práticas relacionais ou disponibilidade sexual.
Da mesma maneira, dizer que uma pessoa bissexual precisa “escolher um lado” parte de uma compreensão binária não apenas da sexualidade, mas também do gênero. A experiência bissexual não precisa estar organizada em uma escolha entre “homens ou mulheres”, tampouco pressupõe que a atração aconteça da mesma maneira, com a mesma intensidade ou ao mesmo tempo.
Existem muitas maneiras de viver a bissexualidade. E talvez parte da potência da visibilidade esteja justamente em recusarmos a tentativa de criar novas caixas para contemplar e assegurar nossas existências diversas e plurais.
Visibilidade também é cuidado
Para nós, feministas antirracistas, enfrentar a bifobia significa olhar para quem está sendo apagada dentro das nossas próprias construções políticas.
Significa perguntar se as mulheres bissexuais estão sendo nomeadas nas pesquisas, nas estatísticas, nas políticas de enfrentamento às violências, nas ações de saúde, nas políticas LGBTQIAPN+, nos espaços feministas, negros e nas estratégias de cuidado. Significa também compreender como bifobia, racismo, desigualdade de classe, transfobia, capacitismo e outras estruturas podem se combinar de maneiras diferentes na vida de cada mulher.
Construir Territórios de Cuidado, Luta e Sustentação da Vida exige que todas nós possamos existir inteiras.
Sem precisar escolher um lado. Sem precisar apresentar provas. Sem ter nossa identidade definida pela relação que vivemos. Sem sermos transformadas em fetiche. Sem sermos apagadas quando amamos.
Neste mês de visibilidade bissexual não é apenas celebrar uma identidade. É afirmar um direito: o direito de nomear a nós mesmas e sermos reconhecidas como somos. Porque somos muitas. Sempre estivemos aqui. E queremos ser vistas.









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


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