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O lançamento no Brasil do livro “Mulheres e Trabalho: Feminismo, Classe e Reprodução Social”, da acadêmica canadense Susan Ferguson, reacende o debate sobre o papel do trabalho invisível na sustentação do capitalismo. Ao BdF Entrevista, Rhaysa Ruas, professora de serviço social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das tradutoras da obra, explica que a sociedade contemporânea é hierarquizada por meio da expropriação dos meios necessários para a produção e reprodução da vida.
Segundo a pesquisadora, o gênero tem sido um marcador fundamental nesse processo, especialmente quando se considera o trabalho que garante a manutenção cotidiana e intergeracional dos seres humanos. O tema foi trabalhado por diversas correntes do feminismo ao longo de séculos.
“Pensando o feminismo hoje, é muito importante a gente considerar que trabalho tem dois sentidos: o do trabalho produtivo, produtor de valor, esse trabalho que é quantificado e que é valorizado, visível na sociedade capitalista; e o trabalho naquele sentido geral, ontológico, trabalho enquanto qualquer atividade humana, prática, que interfere e se relaciona com a natureza e a modifica”, afirma.
Ruas destaca o conceito do cuidar, muito atrelado ao papel da mulher, em uma sociedade atravessada pelo patriarcado. E avalia que, no final das contas, as sociedades estruturadas fora do capitalismo é que olham para esse processo de aprisionamento da mulher na dinâmica dos cuidados domésticos e fornecem soluções, até por meio de infraestruturas públicas. A tradutora comenta, por exemplo, que na União Soviética existiam lavanderias públicas, restaurantes populares, escolas e centros educacionais, e os afazeres domésticos eram ensinados também aos meninos.
“Ao colocar a questão da reprodução da força de trabalho e localizar a opressão ali, colocou a necessidade da criação de uma infraestrutura pública que desse conta para que as mulheres fossem, de fato, emancipadas politica e materialmente, inclusive emocionalmente, porque tem toda uma carga de culpa, de peso emocional, psíquico, nessa obrigação de cuidar”, destaca.
Rhaysa Ruas também critica o que chama de “feminismo da igualdade” ou liberal, que foca na inserção da mulher no mercado remunerado para garantir independência. A assistente social argumenta que essa perspectiva universaliza a realidade de uma pequena parcela de brancas e burguesas, ignorando que mulheres pobres e racializadas sempre trabalharam sob exploração bárbara. “A relação entre gênero, raça e classe é uma unidade constitutiva do capitalismo”, defende, lembrando que, enquanto na Europa se discutia o “reino da liberdade”, mulheres negras eram escravizadas nas Américas e tinham até o direito de constituir família negado.

Além disso, Ruas avalia a cobrança social de a mulher ser mãe, mas a falta de infraestrutura provoca o que ela define como “maternidade ultrajada”. “Esse é um conceito que eu tenho desenvolvido, porque para todas nós também não há infraestrutura social que sustente a nossa maternidade. Então, nos exigem uma maternidade excelente, mas nos tiram condições para exercer essa maternidade. Os nossos locais de trabalho não têm creche, a gente não tem acesso à saúde pública gratuita de qualidade, porque o SUS está subfinanciado, precarizado”, destaca.
Para ela, a emancipação feminina deve estar ligada à recuperação do tempo e à transformação do cuidado em uma responsabilidade coletiva. “Reconsiderar o que é trabalho é fundamental para a gente pensar a sociedade hoje e recuperar o tempo para que a gente viva com qualidade”, conclui a professora.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

LEIA TAMBÉM
Mulheres e trabalho: feminismo, classe e reprodução social
R$80.00
Autor: Susan Ferguson
Prefácio: Lívia de Cássia Godoi Moraes, Mariana Roncato e Patrícia Rocha Lemos
Tradutores: Rhaysa Ruas, Carolina de Oliveira Freitas e Maíra Daher Dutra da Silva
Páginas: 280
Ano: 2026
ISBN: 978-65-83954-05-3
“Susan Ferguson tem sido uma liderança nos esforços para desenvolver a teoria da reprodução social… seu foco na história do trabalho no pensamento marxista e feminista reformula brilhantemente nossa compreensão do conceito.”
— LISE VOGEL, autora de Marxismo e a opressão das mulheres
“Lança uma luz penetrante sobre as interações entre classe, raça e gênero na reprodução do capitalismo global contemporâneo. Um marco na teoria feminista socialista.”
— URSULA HUWS, autora de A formação do cibertariado
“Uma análise magistral de três séculos de reflexões feministas sobre o trabalho, traçando com cuidado como se formaram as linhas de fratura da teoria da reprodução social.”
— HISTORICAL MATERIALISM
“Mulheres e trabalho resgata os ensinamentos das mulheres negras e assim restabelece as condições para a urgente renovação teórico-prática do marxismo.”
— RHAYSA RUAS, autora de Unidade na diversidade
O feminismo está novamente na agenda política. Em todo o mundo, mulheres estão ocupando as ruas em protesto. Mas por que algumas feministas lutam por mais mulheres como chefes de empresas multinacionais, enquanto outras lutam por um mundo sem empresas multinacionais?
Para entender essas abordagens divergentes, Susan Ferguson investiga as ideias que inspiraram as mulheres a protestar, explorando as formas como as feministas colocaram o trabalho no centro da luta pela emancipação. Três trajetórias se destacam: o “feminismo da igualdade”, o “feminismo da igualdade crítica” e o “feminismo da reprodução social”. Ferguson defende o feminismo da reprodução social como uma proposta política de combate à opressão.
Ao dialogar com as críticas feministas ao trabalho, Ferguson propõe que a emancipação das mulheres depende de uma reconfiguração radical do trabalho como um todo e defende a renovação do arcabouço da reprodução social como uma base poderosa para uma política feminista inclusiva.
SUSAN FERGUSON é professora associada na Universidade Wilfrid Laurier, Canadá.










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