Vânia Marques Pinto fala sobre como pioneira na luta sindical continua inspirando gerações
- Lucas Salum e Maria Teresa Cruz - Brasiol de Fato

morta por conflitos de terra na Paraíba | Crédito: Agência Brasil
Há 43 anos, no dia 12 de agosto de 1983, a sindicalista e trabalhadora rural Margarida Maria Alves foi assassinada em frente à sua casa, em Alagoa Grande (PB). Presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município desde 1973, ela foi a primeira liderança feminina a se destacar nacionalmente em um movimento sindical historicamente dominado por homens. Sua morte, no entanto, não interrompeu a luta que ela representava. Pelo contrário, tornou-se símbolo de resistência, dando origem, nos anos 2000, à Marcha das Margaridas, mobilização que reúne milhares de mulheres em Brasília, a cada quatro anos.
Ao Conversa Bem Viver, a presidenta da Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Vânia Marques Pinto, reforça que Margarida fez história em um ambiente tradicionalmente machista e, com isso, foi e continuará sendo inspiração para mulheres do movimento sindical. “Ela foi semente, porque, a partir do momento em que a vida dela foi ceifada, ela inspirou que mais mulheres pudessem lutar pelos direitos humanos, pela reforma agrária, pelo direito das pessoas, mas também das mulheres ocuparem esses espaços”, relata.
Baiana, assentada da reforma agrária, educadora e comunicadora popular, Vânia Marques Pinto conta que conheceu a história de Margarida durante sua formação sindical.
Coincidentemente, assim como Margarida assumiu a presidência do sindicato de Alagoa Grande aos 40 anos, Vânia tinha a mesma idade quando chegou à presidência da Contag. Ela lembrou ainda que a entidade, fundada em 1963, teve por décadas diretorias exclusivamente masculinas.
“As mulheres tiveram que fazer todo um movimento para poder conseguir construir uma coordenação de mulheres que, na época, não era nem secretaria de mulheres. A gente fez toda uma luta para chegar aos 30% de garantia de participação de mulheres na nossa confederação”, relata. “Depois que conseguimos a cota de 30%, fomos em busca da paridade nos espaços de liderança”, lembra.
Questionada sobre os desafios enfrentados por mulheres no movimento sindical, Vânia foi direta ao afirmar que o machismo segue presente no cotidiano, muitas vezes de forma sutil. “A gente costuma ver em uma reunião que uma mulher está falando, o homem vai lá e repete a mesma coisa que aquela mulher já disse, como se a ideia tivesse sido dele”, relatou. “Nós temos várias contradições, essa é apenas uma delas. Vivemos numa sociedade que é patriarcal, é machista, a gente enfrenta a misoginia”, reforça a sindicalista.
Para ela, essas contradições são “inerentes a uma sociedade capitalista” e atravessam também a dupla e a tripla jornada das mulheres, que dividem militância, trabalho e cuidado da família. Um cenário que, segundo Vânia, também deve ter sido enfrentado por Margarida em sua época.
“Ela passou por isso para poder se reafirmar enquanto liderança, para ocupar o espaço que ela ocupou e para poder fazer a luta da defesa dos assalariados, que na época ela também fazia, da reforma agrária e que foi brutalmente assassinada na frente, inclusive, de seus familiares. Então, a história de Margarida é uma história muito triste, mas é também uma história para a gente se inspirar, uma história de resiliência que ela teve, nessa perspectiva de mudança da sociedade”, analisa.
Sobre a representatividade regional dentro do movimento sindical rural, Vânia Marques Pinto comentou sobre as barreiras que enfrentou, como baiana, ao assumir a Secretaria de Política Agrícola da Contag, historicamente ocupada por lideranças do Sul do país. Para ela, romper essa barreira foi importante para mostrar “que é possível uma pessoa nordestina estar comandando a confederação”, reforçando o protagonismo histórico do Nordeste na luta pela terra no Brasil, desde as Ligas Camponesas até a atualidade.
Questionada se Margarida estaria satisfeita com o atual governo Lula no que diz respeito às políticas agrárias, Vânia Marques Pinto ponderou que o cenário é complexo. Segundo ela, o terceiro mandato “pegou um cenário bastante difícil e duro”, marcado pelo desmonte de políticas anteriores, mas que ainda há avanços pendentes, como mais desapropriação de terras, acesso ao crédito e incentivo à produção agroecológica.
“Não sei se ela estaria satisfeita. Eu gostaria que a gente tivesse avançado mais e tivesse feito mais. Para a agricultura familiar, a gente tem ainda uma deficiência nessa parte da pesquisa, temos ainda uma deficiência quando a gente olha para a assistência técnica e extensão rural, então tem muito que ser feito ainda”, destaca.
A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.
Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.
São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.