Confesso que viveu!

Elizabeth Nasser, Betinha como era conhecida, foi uma mulher feminista que colaborou com a construção da luta feminista no Brasil e no Rio Grande do Norte. Antropóloga, Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), colocou seu conhecimento e carreira acadêmica à serviço das lutas democráticas, pelos direitos dos povos indígenas, LGBTQIE e pelos direitos das mulheres. Contribuiu com a formação política de pelo menos duas gerações de feministas potiguares.

Betinha nos deixa um legado de incansável luta pelos direitos das mulheres, dos povos indígenas e pelas liberdades democráticas! Betinha Bittencourt, como eu a conheci na década de 50 ou 60, sempre foi uma pessoa de personalidade marcante. Não fomos colegas de colégio nem de universidade, apenas contemporâneas de vida. Cruzávamos nos bailes, nas praias, nas ruas de Natal. Ela sempre com seu ar entre sério e simpático, atraia amizades. Acompanhei, meio de longe, seu romance com o também antropólogo, Nássaro Nasser e a união de ambos.

Nossa maior intimidade se deu durante o processo Constituinte. Ela presidindo o Conselho da Mulher do Rio Grande do Norte, já vindo no seu caminhar feminista e eu, descobrindo essa filosofia de vida, no recém-criado Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres - CNDM. Nos quase três anos de constituinte, Betinha se fez presente nos momentos de “pico” do movimento de mulheres, em Brasília. Isto acontecia sempre que estava sendo votada a pauta apresentada na Carta das Mulheres aos Constituintes elaborada pelo CNDM, de acordo com as reivindicações nela constantes. A carta era o resultado da Campanha Mulher e Constituinte, lançado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em novembro de 1985. Desde o lançamento da Campanha, “o CNDM percorreu o país, ouviu as mulheres brasileiras e ampliou os canais de comunicação entre o movimento social e os mecanismos de decisão política, buscando fontes de inspiração para a nova legalidade que se quer agora. Nessa Campanha, uma certeza consolidou-se: CONSTITUINTE PRA VALER TEM QUE TER PALAVRA DE MULHER” (introdução da Carta).Nossa conterraneidade ajudou na aproximação. Várias vezes discutimos temas do interesse das mulheres brasileiras. Não foram poucas as vezes que cruzamos os longos espaços do Congresso Nacional, buscando juntas com outras mulheres, apoio de parlamentares, inclusive oferecendo nosso adesivo do “Lobby do Baton”.

Depois que a Constituição foi promulgada em 1988, Betinha continuou na luta, acompanhando os trabalhos de regulamentação dos artigos referentes aos direitos da mulher. Do Planalto Central, tínhamos conhecimento de suas batalhas, junto a outras mulheres do Rio Grande do Norte e de outros estados do país, em busca da ampliação desses direitos, inclusive incluindo a questão de gênero no currículo da UFRN, onde era docente. A UFRN foi uma pioneira nesta inclusão, hoje debatida em, praticamente, todas as universidades brasileiras.

Quando o Cfemea foi fundado, em 1989, Betinha parabenizou o grupo e sempre esteve presente em nossas ações, da mesma forma que o Cfemea procurou participar das ações protagonizadas pela articulação da qual foi uma das fundadoras, a Articulação de Mulheres Brasileiras.

Sabemos, desde cedo, que a vida é finita. Assim, a vida de Betinha chegou ao seu limite e hoje não temos mais sua presença física, sua graça, sua força. Ao mesmo tempo sabemos que vidas como a de Betinha, mesmo finita, podem se tornar infinitas enquanto seus feitos forem lembrados, estudados, seguidos.

Elizabeth Bitencourt Nasser jamais morrerá, pois, a história se encarregará a incluí-la no rol das mulheres que ao passar por esta vida, protagonizaram mudanças nas vidas das pessoas, especialmente na vida das mulheres brasileiras.

 

(Betinha faleceu no dia 16 de dezembro de 2020, vítima de covd-19)

 

Natal, 16/12/2020

Joluzia Batista e Iáris Ramalho Cortês

Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA

 

   
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