Sueli Valongueiro Alves
Coordenadora do Projeto Cunhatã, do Grupo Curumim (Recife-PE)

O Projeto Cunhatã (ado-lescente em Tupi Guarani), o qual coordeno, tem como característica principal a troca de saberes. As vivências com os educadores, mães e principalmente com as/os adolescentes durante as oficinas, têm me levado a reflexões e transformações dos meus modelos mentais e conceitos pré-elaborados. Sinto-me em movimento, em constante aprendizado, gratificada.

Sem dúvida, durante o processo passamos por momentos que eu poderia defini-los como dolorosos, afinal falamos de exclusão, que deixam marcas muitas vezes tão sutis que quando nos deparamos com elas dá um friozinho na barriga. O olhar de forma integral e eu diria até holística da qualidade de vida destas/destes adolescentes e jovens não pode passar despercebido por uma sociedade, se sua intenção for um modelo de sociedade justa e compromissada com os seus.

A informação em saúde, direitos sexuais e reprodutivos e de referências para serviços de saúde de qualidade é uma das muitas necessidades das meninas e meninos que se encontram trabalhando, perambulando e ou morando nas ruas e praças da cidade do Recife.

De acordo com pesquisa do Centro Interuniversitário de Estudos da América Latina, África e Ásia, durante um único dia (07 de abril de 1999) foram identificados 460 adolescentes no período diurno e 172 no período noturno, em situação de rua na cidade do Recife.

Em estudo realizado em 1999 com 60 adolescentes moradoras e moradores de rua, o Grupo Curumim diagnosticou um elevadíssimo número de cáries dentárias, diversas doenças de pele, problemas respiratórios (sobretudo ligados ao ato de cheirar cola) e um comportamento sexual que aponta para o forte risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez precoce.

Partindo destes dados e com o objetivo de contribuir para a promoção da saúde e dos direitos reprodutivos da população adolescente, o Grupo Curumim, através do Projeto Cunhatã, vem desenvolvendo oficinas de capacitação e sensibilização dirigida a educadores de ONG‘s que atuam diretamente com as(os) adolescentes em situação de rua e risco social, com mães, profissionais de saúde da rede pública e ao público jovem e adolescente.

A metodologia é baseada na educação popular e as oficinas abordam temas na perspectiva de saúde integral. Auto-estima, anatomia geral, anatomia e fisiologia do sistema reprodutor, massagem aromaterápica, contracepção, prevenção de DST‘s e Aids, violência e primeiros socorros foram alguns dos temas escolhidos para a abordagem.

O direito à saúde e o conhecimento do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) são conteúdos que transversalizam por todas as oficinas despertando para a autonomia e cidadania dessas adolescentes.

O encontro com a auto-estima muda a face e o olhar destas meninas. Durante a oficina de auto-estima, cuidados com o corpo e beleza, quando tomam banho, colocam uma roupa limpa, cortam os cabelos, pintam as unhas, a alegria com a descoberta de suas belezas, muitas vezes não percebidas ou permitidas contagia a todos que participam da oficina.

Até o final deste ano, o Projeto Cunhatã atenderá 40 educadores e 50 adolescentes. A iniciativa conta com o apoio financeiro do DED - Serviço Alemão de Cooperação Técnica e com o IWHC -International Women‘s Health Coalition.

 
 
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