Ao longo da história da humanidade, a violência imposta por diferentes expressões do fundamentalismo vem deixando feridas abertas. O remédio de novas guerras não tem cicatrizado essas marcas. Ao contrário, tem produzido sociedades ainda mais atemorizadas, sofridas, doentes e mutiladas.

Não são novas as forças que movem os motores da injustiça e da guerra que hoje funcionam a pleno vapor em várias partes do planeta Terra. Mas é preciso que sejam novos os olhares sobre elas, para que possamos compreender sua engrenagem e perceber qual combustível as alimenta.

Um dos elementos vitais para os fundamentalismos sobreviverem e/ou ressuscitarem é a existência de condições propícias à aceitação da dominação. Por isso, é preciso desfazer os condicionamentos que nos levam a aceitar - nas relações mais íntimas até aquelas que se desenvolvem na esfera pública - como natural o domínio pela coerção, que se funda na relação mais elementar entre seres humanos, baseada na sujeição da mulher pelo homem.

É preciso reconhecer o androcentrismo e etnocentrismo presentes em tantos projetos e práticas políticas que garantem supremacias. Reconhecer que o dito "universal" e suas bases políticas de igualdade de direitos, ergueu-se sobre alicerces brancos, masculinos, ocidentais e heterossexuais, e sobre a incapacidade para o diálogo, a negociação e a inclusão. Isto significa questionar estes paradigmas, sustentando o desafio de construir alternativas radicais para enfrentar os inúmeros conflitos, inclusive entre civilizações e culturas. Trata-se de um processo constante de vigilância e auto-crítica, orientado pela ética dos direitos humanos e pelos valores democráticos para edificar a verdadeira solidariedade.

É preciso denunciar qualquer expressão do fundamentalismo, em qualquer parte, e recusar "o pequeno e indesejável fundamentalista" que persiste em cada um, ou cada uma de nós. Os fundamentalismos só podem ser superados com a transformação dos indivíduos, dos cidadãos e cidadãs, dos sujeitos políticos. Isto significa limpar o terreno e semear o campo para que possam germinar relações políticas e econômicas igualitárias, equânimes, solidárias e éticas. Cuidar para que frutifique uma sociedade mais instigante e excitante, onde as diversidades sexual, racial, religiosa, étnica e de toda a natureza, possam de fato ser valorizadas.

Mais que isto, os seres humanos querem e precisam concretizar relações íntimas, verdadeiramente afetivas e prazerosas, igualitárias, baseadas no respeito, no cuidado e na confiança mútua.

É preciso que a construção da cidadania global seja alimentada pela possibilidade de imaginar um futuro onde todas as pessoas tenham futuro. Neste novo milênio, a humanidade deve ser capaz de construir espaços coletivos para que as diversas identidades participem da construção de um "nós" inclusivo, plural, mutante, e não isento de conflito. Esta é a dimensão básica de uma tarefa política alternativa.

Um outro mundo é possível. Mais que isto, um outro mundo, muito melhor, é possível.

 
 
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