Regina Soares Jurkewicz
Católicas pelo Direito de Decidir

Tentaremos responder a esta pergunta colocando nosso olhar em duas realidades: a vida das mulheres que abortam e a construção de sistemas de moral no catolicismo. Freqüentemente o ato abortivo provoca sofrimento. As mulheres que o praticam experimentam vazio, tristeza, ainda que conscientemente tenham encontrado no aborto uma solução imediata e uma espécie de alívio. Tanto o Estado como a Igreja têm abandonado inúmeras mulheres à sua sorte, em mãos de parteiras, médicos mercenários e curios@s. O Estado, porque resiste à regulamentação dos serviços públicos hospitalares no atendimento ao aborto, o que evitaria que muitas mulheres, sobretudo as mais pobres sofressem as graves seqüelas de um aborto mal feito. A Igreja, porque insiste em manter seu discurso moralista, abstrato e ambíguo, negando valor moral a qualquer ato abortivo, ao invés de acompanhar pastoralmente mulheres que se vêem obrigadas a tomar tal decisão ética.

Ora, para que serve a moral construída a partir de princípios abstratos, desenraizada da vida concreta de mulheres e homens? Afirmar-se contrári@ ao aborto não tem contribuído em nada para minimizar sua prática. Setores da hierarquia eclesial católica têm procurado impor seus princípios morais, sem respeitar a dimensão leiga do Estado e seu compromisso com cidadãos/ãs adept@s de crenças diversificadas, ou mesmo não crentes.

Nós, Católicas pelo Direito de Decidir, afirmamos nossa fé como parte desta Igreja - que em seu conjunto é heterogênea - e ao mesmo tempo, defendemos a legalização do aborto como condição fundamental para que as mulheres, católicas ou não, exerçam um dos princípios mais elementares da tradição teológica cristã: a possibilidade de recorrer a própria consciência para tomar decisões éticas. O desrespeito à vida das mulheres acontece quando muitas delas são esterilizadas sem o seu consentimento, para favorecer políticas de controle de natalidade. Mas também, quando se vêem obrigadas a gerar um filho não desejado, concebido, seja por estupro, seja por falta de acesso aos métodos anticonceptivos.

Somos cientes da existência de pluralidade no discurso religioso católico no campo da sexualidade e da moral, ainda que oficialmente tal discurso pretenda apresentar-se como monolítico e dogmático. Se buscarmos conhecer a tradição católica, veremos que a rigidez em questões morais não é própria do catolicismo. No caso do aborto não há uma opinião católica única, exclusiva, com fundamento teológico. Defendemos a legalização do aborto porque não queremos renunciar à nossa capacidade moral para tomar decisões sobre nossas vidas e em particular no que se refere à sexualidade e a nossa capacidade reprodutiva.

Como católicas, fiéis ao evangelho, não podemos ignorar a realidade de milhares de mulheres condenadas ao aborto inseguro. Por trás das cifras numéricas de aborto praticados estão mulheres de carne e osso. Quem são elas? Onde estão? Talvez muitas sejam nossas conhecidas, amigas, irmãs... Muitas jamais tiveram coragem de falar do sofrimento do aborto realizado, e carregam consigo uma enorme sensação de culpa... Talvez por isso, por esse medo tão grande, continuem declarando-se contrárias a qualquer ato abortivo. É mais fácil negar o que está feito, aderindo verbalmente as posições aparentemente hegemônicas. É pela vida de todas essas mulheres, católicas ou não, que defendemos firmemente a legalização do aborto!

 
 
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