Milhares de trabalhadoras rurais estão se mobilizando para a Marcha das Mar-garidas*, que será realizada em Brasília, dia 26 de agosto. Com o lema 2003 Razões para Marchar, 50 mil mulheres irão reivindicar terra, água, salário mínimo digno, direito à saúde pública com assistência integral, o fim da violência sexista e todas as formas de violência no campo.

Raimunda de Mascena, coorde-nadora da Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais da CONTAG, fala sobre a importância política da Marcha: "Este grande acontecimento mostra que vamos manter nossa autonomia política diante do Governo Lula. Temos responsabilidade com o Governo democrático que elegemos e, por isso, vamos apresentar e negociar nossa pauta de reivindicações. Também temos esperança nos compromissos assumidos por Lula com a luta das mulheres e com o país, durante a campanha. Esperamos, contudo, que a política econômica do Governo Federal não se sobreponha às expectativas e necessidades do povo".

Os diagnósticos e propostas das trabalhadoras rurais estão presentes no documento "Texto base para debates". No capítulo Acesso das Mulheres à Terra, há um breve histórico sobre o processo de organização das trabalhadoras rurais, desde a década de 80, no sentido de transformar as relações de gênero e acabar com a subordinação da mulher ao homem.

A Marcha das Margaridas quer discutir com as trabalhadoras rurais os motivos pelos quais, no Brasil, existe tanta desigualdade na distribuição da posse da terra entre mulheres e homens. Será feito um esforço para que os direitos das mulheres à terra se tornem uma prioridade da luta do movimento sindical, dos movimentos de luta pela terra, das igrejas, das ONGs e, sobretudo, prioridade para o Estado Brasileiro.

Quanto à temática Meio Ambiente, o texto aponta a questão das barragens e hidrelétricas, que "vão na contramão da susten-tabilidade. A alternativa hidrelétrica era apresentada como fonte energética limpa, renovável e barata. Cada projeto era justificado em nome do interesse público. Mas as obras provocaram deslocamento forçado de populações, acompanhadas por compensações financeiras precárias. O processo de reassentamento, quando houve, não assegurou as condições de vida antes existentes". Entre outros assuntos ambientais, o texto aborda uma alternativa sustentável de desen-volvimento: a agroecologia.

Discussões sobre um Salário Mínimo justo mereceram um capítulo no documento: "Por entenderem que a economia não é um fim em si mesmo, mas sim um instrumento para a melhoria das condições de vida e trabalho dos brasileiros e brasileiras, as entidades que promovem a Marcha das Margaridas defendem que o valor real do salário mínimo seja dobrado no período de quatro anos. Este aumento real do poder de compra do salário mínimo deve ser acompanhado de políticas concretas que assegurem uma efetiva distribuição de renda, ganhos em produtividade e que impeçam o repasse deste aumento para os preços."

Na área da Saúde da Mulher, a Marcha aponta os principais problemas de saúde das trabalhadoras rurais, as situações de risco e doenças decorrentes das condições de vida e de trabalho dessas mulheres. Também há críticas ao processo de implantação e funcionamento do SUS (Sistema Único de Saúde), e ao PAISM (Programa de Atenção Integral a Saúde da Mulher). As trabalhadoras rurais apresentam, ainda, estratégias para se intervir na política nacional de saúde.

Por fim, a Marcha das Margaridas propõe debater a Violência Sexista, aquela em que a mulher sofre pelo fato de ser mulher e é exercida pelos homens. A intenção é levar em conta não apenas a violência praticada nos espaços privados (domésticos), mas também nos espaços públicos, como o movimento sindical, partidos políticos e locais de trabalho que muitas vezes reproduzem práticas de discriminação e violência baseadas no sexo, idade, raça, etnia e orientação sexual.

Para outras informações,acesse marchamargaridas.contag.org.br.

Mobilizações

Vanete Almeida, integrante do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sertão Central de Pernambuco está acompanhando, de perto, todos os preparativos de sua região: "As mulheres estão animadíssimas. A organização começa pela parte econômica, onde elas fazem rifas, bingos e forrós para juntar recursos. Também estamos tentando conseguir dinheiro para o transporte até Brasília. Vanete, que também integra a Rede Latino-americana e do Caribe, da Mulher Trabalhadora Rural, destaca a violência doméstica, como um dos principais temas de discussão: "No meio rural, é uma questão nova. Nós estamos encorajando as mulheres para denunciar. Devido ao isolamento, existente no campo, as dificuldades são maiores. Imagine a situação de uma mulher que é espancada numa região onde o vizinho mais próximo mora a 20 quilômetros de distância. É muito mais difícil pedir ajuda."

(*) A Marcha das Margaridas é organizada pela Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais (CNMTR), da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), federações estaduais de trabalhadores na agricultura e Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (MSTTR), além de diversas entidades parceiras.

 
 
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