Jolúzia Batista
Integrante do Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte e do Coletivo Leila Diniz

Segundo dados da Organização Mundial do Turismo, na década de 90 o turismo representava o maior empregador do mundo, encontrando-se entre os três maiores geradores de receita e divisas mundiais. De cada 15 trabalhadores/as, um estava empregado/a no setor.

Aos países latino-americanos, são inquestionáveis as possibilidades de desenvolvimento econômico e social propiciadas pela atividade turística. Tais países, por questões de ordem política e estrutural não atingiram níveis satisfatórios de desenvolvimento industrial e tecnológico, de promoção da qualidade de vida e, portanto, vêem no setor uma saída para o atraso econômico e social.

Entretanto, de forma paralela ao turismo oficial, ocorre o turismo sexual. O litoral brasileiro é um triste retrato desta realidade. Homens estrangeiros vêm para nossas belas praias em busca de aventuras sexuais em paisagens exóticas e paradisíacas. Procuram companhias que fujam ao padrão do que lhes é estabelecido em suas sociedades originais. Infelizmente, a sociedade brasileira contribui para a manutenção desta "máquina". Do lado de cá, existem homens, mulheres e adolescentes que disponibilizam seus corpos em troca de uma ascensão econômica que lhes possibilitem o acesso a certos padrões de consumo veiculados pela mídia. É claro que, em muitos casos, as pessoas são vítimas do turismo sexual, buscando esta alternativa numa tentativa desesperada de sobrevivência.

João Ubaldo Ribeiro em seu livro "Um Brasileiro em Berlim", evoca o desejo que os estrangeiros têm, em sua maioria, de virem esbaldar-se nos trópicos, "tomar drinques iguais aos arranjos de cabeça de Carmen Miranda, amanhecer dançando lambada no quarto do hotel e adormecer entre mulatas estonteantes".

Félix Brasseur, dono do Bar Chakatak, na Praia de Boa Viagem (Recife) em entrevista ao Diário de Pernambuco, disse que somente as mulheres brasileiras ainda atraem turistas para o país: "o Brasil tem cólera, violência e arrastão. Homem gosta de coisa diferente e, na Alemanha, não tem morena, nem preta. As mulheres da Alemanha são independentes demais, e as daqui são submissas."

A fim de chamar atenção da sociedade para este grave problema, o Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte elaborou o dossiê Itinerários de Prazer: sexismo e publicidade Turística em Natal. O estudo é um levantamento das peças publicitárias veiculadas no período de 1998 à 2001, no Diário de Natal - um dos jornais de maior circulação no Rio Grande do Norte - e folheteria turística. O documento propõe a construção de subsídios para uma intervenção junto ao Programa de Desenvolvimento Turístico do Nordeste - PRODETUR.

O desejo de construir o dossiê surgiu a partir da observação de militantes e pesquisadoras feministas acerca do uso do corpo da mulher nas campanhas publicitárias realizadas pelas agências locais. Também nos chamou atenção a intervenção de diversas organizações nacionais sobre a folheteria turística produzida no Brasil, notadamente as organizações de defesa da criança e do adolescente que criticam severamente a venda do turismo brasileiro atrelado à mulata "tipo exportação".

Essas organizações realizaram uma importante interlocução junto à Empresa Brasileira de Turismo- EMBRATUR, através da Campanha Nacional pelo fim da exploração sexual, violência e turismo sexual contra crianças e adolescentes. Elaboraram diversos documentos que alertavam para o fato de que esse tipo de publicidade poderia ter reafirmado o imaginário turístico centrado no trinômio "sun, sea and sex" (sol, mar e sexo). Diversos seminários se seguiram e as secretarias de turismo de algumas capitais, tais como Recife e Rio de Janeiro redirecionaram suas campanhas para a promoção da cultura, do lazer e do turismo familiar.

Mídia x Turismo Sexual

Por meio do dossiê, tivemos oportunidade de elaborar um discurso reflexivo com relação ao permissivo e ao excessivo nas imagens veiculadas do sexo feminino na mídia como um todo. O que acompanhamos na atualidade é uma plena liberação daquilo que sempre foi marcado como tabu durante toda a história? Ou é uma nova modalidade de repressão do erotismo dos corpos, dessa vez pelos códigos da linguagem visual dos meios de comunicação?

Segundo a análise de Wilson Roberto Ferreira, a representação da mulher na mídia é simbolizada por um aspecto de dominação e mistério onde todo o aparato imagético predispõe-se a construir a idéia da mulher "associada a animais selvagens (panteras, onças e feras) ou máquinas possantes, posando nuas sobre carros importados, motos, jet-skis, etc. A mulher é comparada a um animal selvagem ou máquina que necessita ser dominada por uma força maior - a masculina".

O turismo sexual surge como desdobramento de uma combinação perversa entre exclusão social, turismo de massa, e subdesenvolvimento. O turismo de massa é apontado como uma grande contribuição para ampliação do problema, na medida em que traz uma enorme quantidade de turistas, utilizando-se ao máximo dos clichês e dos atrativos exóticos locais.

   
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