Jovens sem-terra, pescadoras, quebradeiras de coco, camponesas e pequenas agricultoras têm sobrevivido em meio à tempestade. Diariamente, as trabalhadoras rurais são vítimas de um modelo político, econômico e cultural que estimula o machismo, a discriminação e a violência.

No país, existem pelo menos seis milhões de agricultoras analfabetas. Quanto à área da saúde, elas convivem com doenças e epidemias. Enfrentam ainda as grandes filas em postos de saúde e hospitais.

Apesar das condições adversas, a esperança de melhor qualidade de vida permanece dia-a-dia, dentro de cada trabalhadora rural. Raimunda Celestina de Mascena, coordenadora da Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura), nos fala sobre as conquistas e desafios da categoria.

CFEMEA - Atualmente, qual é a condição sócio-econômica da mulher trabalhadora rural?

Raimunda - “Apesar das mulheres estarem se organizando dentro dos movimentos, eu não diria que estamos numa situação muito boa em função do processo, criado historicamente pela humanidade, que resulta na submissão das mulheres aos homens. Quando a gente vai para o meio rural, essa situação se acentua bem mais. As mulheres não têm o seu próprio salário, até hoje não são reconhecidas como trabalhadora rural. Ela lava, passa, cozinha, cuida de filhos, cuida dos mais velhos e isso não é reconhecido como trabalho. Dizem que as mulheres fazem isso por amor ou culpa do destino.

Essa realidade acaba se refletindo na situação social, econômica e política das mulheres do meio rural. Porque existe uma grande luta interna para se quebrar a rejeição criada dentro da própria casa.

As dificuldades também aparecem fora de casa, quando as mulheres estão numa posição de comando, nas associações, sindicatos e Federações e Confederações. Todo cargo requer uma posição de autoridade e isso causa um enfrentamento muito grande com a sociedade”.

CFEMEA - Após quase um ano da Marcha das Margaridas, como está o andamento dos itens da pauta? As reivindicações estão sendo atendidas?

Raimunda - Na questão do acesso das mulheres à terra, nós conseguimos avançar. Também conseguimos mudanças positivas quanto aos juros cobrados pelo Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Em relação à capacitação de técnicos e técnicas que atendem os assentamentos, conseguimos que esses profissionais tivessem cursos de capacitação que consideram as diferenças entre homens e mulheres.

Nossa pauta é desafiadora! Pela primeira vez, na história do país, as mulheres entregaram uma pauta onde há a questão de classe, mas também um recorte de gênero. Nem todas as questões foram atendidas porque existe um embaraço dentro dos órgãos do Governo no sentido de se entender quais são as questões que contemplam as mulheres.

CFEMEA - Como estão os preparativos para a próxima Marcha das Margaridas?

Raimunda - “Para nós, a Marcha continua sendo uma atividade com significado muito grande. Reafirma a mulher enquanto sujeito. Com certeza, a segunda Marcha está próxima. A partir de agora, nós vamos começar a trabalhar nosso planejamento de metas. Começaremos a construir a 2a Marcha das Margaridas. Acredito que, em 2003, nós estaremos em Brasília com o dobro de mulheres que tivemos em agosto de 2000”.

CFEMEA - A maior participação das mulheres em movimentos sindicais poderia facilitar a luta das trabalhadoras rurais por seus direitos?

Raimunda - “Em 1998, nós estabelecemos a política afirmativa de cotas como uma das nossas bandeiras. A cota de participação de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do movimento sindical. Com isso, nós avançamos bastante no que diz respeito à participação das mulheres nesses espaços. Mas ainda temos muita dificuldade para ocuparmos esse espaço, já que é propriamente masculino, pensado para homens.

Em função das mulheres serem associadas aos sindicatos, atualmente nossa organização tem base, tem raízes. De certa forma, está mais fácil exercermos a nossa cidadania. Não diria que tudo está resolvido. Não está! Mas, olhando o que vivemos nos anos 80, vemos que já houve muita mudança.

O nosso anseio é que a gente possa democratizar cada vez mais a gestão dentro do movimento sindical com a participação das mulheres. Porque nós não acreditamos num projeto de sociedade no qual as mulheres não participam. Não é possível uma alternativa diferente de país quando mais da metade das pessoas são oprimidas.

Nós acreditamos na igualdade e no conjunto das diferenças. Somos chamados um movimento misto porque aceitamos o desafio de questionar nossas próprias estruturas e construir uma sociedade onde mulheres e homens possam conviver, uma sociedade onde as relações não sejam tão desiguais como vêm sendo até hoje”.

   
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