AMB - Articulação de Mulheres Brasileiras
Texto originalmente publicado como Edição Especial do Articulando, veículo de informação da AMB - Articulação de Mulheres Brasileiras, em comemoração ao 8 de março de 2001.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a discussão da questão racial no Brasil foi uma das prioridades da AMB. Não poderia ser diferente, pois acelera-se o processo preparatiório para a III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Correlatas de Intolerância que será realizada, este ano, na África do Sul, de 31 de agosto a 7 de setembro.

O movimento feminista nacional e internacional dialoga com a sociedade a partir da crítica ao sexismo e à discriminação contra as mulheres. Entretanto, parte da informação genética que dá forma a nosso discurso é a rejeição a todo e qualquer tipo de discriminação. Embora falte uma ação política mais efetiva, o movimento feminista também tem problematizado a respeito dos efeitos perversos e ‘destituintes’ de dignidade humana que o racismo, a homofobia e outras formas de discriminação têm sobre seres humanos.

O processo preparatório desta Conferência faz emergir o despreparo do movimento feminista para enfrentar um debate mais aprofundado sobre a questão racial. Já no 3º Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe (Bertioga/ 1985), se enfatizava a necessidade de refletir sobre identidade racial e os preconceitos identificados em nossas posturas e ações. Lá se vão 16 anos, e pouco progredimos nessa matéria. Mas este atraso não é exclusivo das feministas, ou do movimento de mulheres como um todo. Ele está presente na sociedade brasileira de forma geral e atinge em cheio personagens importantes da luta pelos direitos humanos e pela democracia.

No Brasil, atos de preconceito racial são considerados crimes inafiançáveis e imprescritíveis. Mas isto não tem sido suficiente para mudar padrões culturais. Embora esteja ruindo o mito da democracia racial brasileira, este é um processo lento que somente avança por força dos movimentos negros organizados, de intelectuais e artistas cuja produção enfoca esta questão, de grupos culturais ou religiosos das periferias, resistindo para manter viva sua identidade. Sem falar das comunidades reminiscentes dos quilombos, lutando pelo reconhecimento de seus territórios. São atores e atrizes que vêm esmiuçando as raízes da exclusão, e demonstrando que o componente racial, presente nas desigualdades econômicas e sociais, fica pasteurizado na cultura dominante, nos conteúdos e práticas educativas, nos hábitos cotidianos e no ‘jeito de ser’ que dá sustentação ao mito.

A população negra não tem sido reconhecida como interlocutora para desenvolver uma política de igualdade. A agenda que está posta no bojo da Conferência Mundial contra o Racismo atinge quase metade da população brasileira (segundo o IBGE, em 1991, 48% da população era preta ou parda), mas grande parte desta população não está informada a respeito deste processo de discussão, e muito menos identificada com os conteúdos a serem debatidos. Transformar essa realidade requer mais do que a democratização do ensino e do acesso ao emprego. É preciso que o Brasil viva uma espécie de revolução cultural que atinja a população brasileira em todo seu colorido racial e étnico, para deslocar-se do lugar da hegemonia branca para “um arranjo político, econômico e cultural mais plural, democrático e moderno”, usando de forma um tanto livre a frase de Osmundo Pinho.

Se os movimentos sociais podem ser uma vanguarda disposta a tomar para si esta questão, formando alianças na linha pós-moderna, nós feministas estamos neste barco, dispostas a contribuir para a radicalidade dessa construção.

   
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