Eliane Cantanhêde
Colunista e diretora da Folha de S. Paulo em Brasília.

Nessa nossa guerra selvagem e cotidiana pela ocupação de espaços, vocês, políticas, que me desculpem, mas nós, jornalistas, estamos dando de dez a zero em vocês.

A ver. Toda a chamada “grande imprensa”, que reúne os jornais de circulação nacional, investe e atrai um número cada vez maior de mulheres jornalistas. O investimento e a atração, aliás, não são apenas quantitativos. São também qualitativos.

Basta dar uma voltinha pelas redações para verificar que elas estão lotadas de mulheres. Basta dar uma olhada nas páginas dos jornais para ver que nós, as mulheres, estamos ocupando as direções, chefias, coordenações e colunas, tanto na política quanto na economia.

Nos meus últimos levantamentos, a mulher já ocupava mais de 35%, em uns casos, ou de 40%, em outros, das redações da Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Globo e Jornal do Brasil. E só não chegava a 50% por causa de duas editorias, Esportes e Fotografia, ainda redutos masculinos. Mas estamos chegando lá!

Essa proporção se repete, por exemplo, nos comitês da Câmara e do Senado. Quando a gente pensa que no fim dos anos 60 só havia uma mulher jornalista no Congresso inteiro... Nos telejornais e nas rádios, também já somos muitas, e somos um sucesso.

Na Folha, a editora-executiva é Eleonora de Lucena. Há várias colunistas, inclusive eu, na página A-2, de Opinião. No Estadão, a diretora em Brasília é a Sílvia Farias, e a colunista de economia é a Sônia Racy. No Globo, a estrela da política é a Tereza Cruvinel, e a da economia, Miriam Leitão. No Jornal do Brasil, é a Dora Kramer. Sem contar dezenas de outras, em todas as áreas e funções.

Já a mulher na política... Apesar da lei das cotas, a bancada no Congresso nem mesmo cresceu. Aliás, nenhum partido consegue pelo menos cumprir a sua própria cota, nem nas eleições gerais, nem nas municipais. Na Câmara, são 30 mulheres no total de 513 deputados federais e, no Senado, seis no total de 81 senadores. Tão pouquinho! Nas eleições municipais, o partido que mais elegeu mulheres, proporcionalmente, foi o PSB: 11%. E ele comemora, como se fosse muito!

O grande feito da mulher na política, em 2000, foi a eleição de Marta Suplicy para a Prefeitura de São Paulo. E todos os holofotes se voltaram para ela. Quando um homem se torna um péssimo presidente, governador, prefeito, é por “n” motivos, nunca “porque é homem”. Quando uma mulher é péssima em alguma coisa, é “porque é mulher”. E, quando se torna ótima, não costuma ser “porque é mulher”.

O pior, gente, aqui baixinho, é que nós, as quase 50% de jornalistas das grandes redações, ajudamos um bocado para isso. Por que será?

Há várias perguntas no ar, sem resposta, para uma série de perguntas. Uma delas é porque não aumenta o número de mulheres na política. Pode ser porque não há cultura para isso, porque a própria mulher não se interessa ou porque os homens se fecham nos seus feudos. Ou tudo isso.

Quanto à perguntinha azeda sobre a mulher jornalista: quando nós, mulheres, desbravamos novos espaços, novas profissões, novas fronteiras, desbravamos com uma certa “alma masculina”. Talvez pela competição, talvez por uma questão de sobrevivência. E é assim que nós, jornalistas, somos as primeiras a criticar duramente a mulher política.

A mulher já é crítica por natureza. Quando é jornalista, põe crítica nisso!

   
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