Dr. José Antônio Jordão
Diretor do Serviço Escola de Ginecologia, Obstetrícia e Neonatologia do Hospital Ipiranga da Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo

Será que a atual legislação sobre aborto no Brasil, acrescida da conduta médica existente facilita o nascimento de conflitos em nossas pacientes? Penso que sim.

Todos sabem que as pessoas de nível sócio-econômico mais alto têm acesso a profissionais que praticam o aborto nem sempre de qualidade, mas sempre por um preço elevadíssimo. Assim às mulheres pobres, o aborto fica inacessível, não por razões morais ou éticas, mas simplesmente por razões econômicas. Com o que a paciente se preocupa ao optar pela interrupção da gravidez? Ela quer qualidade técnica e o mínimo de seqüelas. Será que ela sabe que pode ter ajuda afetiva?

Mesmo quem é contra o aborto pode ajudar a paciente afetivamente nestes momentos de crise. Se entender afetivamente estes casais, não se cometerá nenhum crime e nem provocará abortamentos.

Está claro que para o profissional é preferível fazer pré-natais, partos normais de fetos vivos, assistir gestações de alto risco bem-sucedidas do que cuidar de pacientes que não querem seus filhos. Mas nem por isso temos o direito de usar o poder médico para fazermos pré-natais de gestantes que terão "abortos de termo" para nossa própria satisfação. Devemos poder ouvir afetivamente e, na maioria das vezes, só ouvir e falar o que sentimos ao invés de discursos prontos ou receitar benzodiazepínicos simplesmente; poderá ser muito mais terapêutico.

Outro ponto polêmico em que se deve pensar é na possibilidade de oferecer às gestantes que estiverem com indicação de exames diagnósticos de doenças genéticas a realização do seu exame e posterior opção da continuidade da gestação pelo casal. Vêem-se casos de profissionais que negam esta possibilidade à paciente para que não tenham que passar pela difícil situação de lidar com um possível abortamento.

Quando o médico se encontra diante de um abortamento, precisa saber como estas questões foram elaboradas, para que sua conduta seja a maispróxima possível da realidade da paciente e para que as projeções dos desejos e conflitos sejam menores. É preciso saber que toda decisão que se toma é sempre precedida de uma "simples" pergunta interna: sim ou não? Neste momento de decisão pensa-se nas vantagens e desvantagens e opta-se por um dos lados que trará ganhos e perdas. Quando você começou a ler este artigo, pode ser que não tenha se dado conta, mas ponderou internamente em dar continuidade à leitura ou não, e até este ponto várias vezes aconteceu este mesmo fenômeno. Todas as frases lidas estão sendo comparadas aos ensinamentos, experiências e preconceitos anteriores e internos. Por algum motivo especial continua lendo; ou não? Com as pacientes também esta ambigüidade está presente. Quando pensam em abortar, entram num conflito de querer ou não querer o filho. Gostaria de lembrá-los que todas as gestantes, principalmente no início da gestação, entram neste conflito. Não é por este fato que devemos taxar e rotular as gestantes de desumanas.

Também eu, estou escrevendo por vários motivos, depois de me perguntar internamente se devo ou não. Escrevo por uma motivação interna de possibilitar a nós médicos refletir sobre nossas iatrogenias. Outro fato relevante é ter atendido um grande número de pacientes carregando graves seqüelas em nível social, orgânico e psicológico de abortos, talvez pelo fato de a atitude médica ter sido inadequada. Muitas das seqüelas poderiam ser evitadas se o equilíbrio emocional do médico permitisse condutas mais humanistas, se estes pudessem sentir e ver além do orgânico: o emocional do casal grávido que não quer o filho. Vendo nosso emocional e evitando projeções, poderemos causar menos problemas para nossas pacientes, que muitas vezes são mais graves que o próprio abortamento. Como melhorar isto?

Partindo de uma situação, que são pacientes grávidas que não desejam o filho, qual a função do médico? Não podemos ter fórmulas, receitas e condutas estereotipadas, mas sim vermos a realidade da situação e os aspectos emocionais nossos e de nossa paciente. Nossas limitações devem ser colocadas nesta relação, para podermos ajudá-la a elaborar melhor seus sentimentos para que possa decidir. Um grande empecilho é a lei vigente, mas não podemos colocar somente na lei a dificuldade de elaboração.

Existe abortamento bem elaborado?

O abortamento é como perda de um emprego, um acidente automobilístico, uma morte de um ente querido, que são momentos de crise na vida de uma pessoa. Estas vivências emocionais são impressas no psiquismo e jamais são esquecidas, mas pode-se elaborá-las de tal maneira que possam usar estas experiências para crescer como pessoa e poder lembrar destes fatos e associá-los a algum tipo de aprendizado. Partindo desta premissa, existe abortamento bem elaborado, como existe uma elaboração da adolescência, da morte de um pai, de uma separação e de outras situações da vida. Elaborar bem é poder lembrar da vivência também como aprendizado. Discordo das pessoas que afirmam que um aborto sempre traz seqüelas irreparáveis. O problema é aceitar o sempre por tudo que procurei colocar aqui. Acredito sim nas seqüelas irreparáveis, mas estas estão presentes onde não houve uma boa elaboração. Creio que uma parcela e por iatrogenia devido à má elaboração interna do papel do médico, que é procurar dar o bem estar bi-psicosocial à paciente. Se fosse possível sermos menos autoritários e inflexíveis quando pensamos em nossos princípios, ideologias e em nossa formação médica, conseguiríamos atender pessoas e não situações. Sem dúvida, há casos em que a mulher não deseja a gravidez e se for "obrigada", pelo desejo do outro e por força da lei, cometeremos mais iatrogenias? Terá um filho em que condições? Será que terá condições afetivas de ter este filho?

O papel do médico é ou deveria ser igual a um bom espelho "tcheco", isto é, refletir os sentimentos da paciente o mais próximo possível da realidade e sem distorções em virtude do emocional do médico. Mas sabe-se que muitos profissionais são verdadeiros espelhos "mambembes", onde são refletidos mais seus pensamentos e sentimentos, inoculando na paciente uma imagem distorcida carregada de conflitos (leia novamente estas duas últimas frases substituindo médico e profissional por parlamentares e paciente por sociedade). Devemos saber os porquês e como vivemos nossos "abortos da vida" (momentos criativos não realizados), como são nossas parentes grávidas, nossa mãe interna, nossas gestações, nossos filhos e outros. Estas vivências vão interferir em nossa conduta e em nível inconsciente poderemos não estar tomando uma atitude com interesse naquela paciente, mas sim em relação à nossa realidade interna.

Muitos obstetras investem no aperfeiçoamento de novas técnicas e, quando enfrentam situações de contexto técnico basal, mas de conteúdo emocional abundante, como por exemplo o abortamento, deixam cicatrizes profundas em nível emocional.

Os médicos, tendo uma postura mais humanizada diante das pacientes que provocam um aborto, não podem ficar com a onipotente impressão de que estão resolvendo todas as seqüelas. Precisam ter em mente que muitos casos se beneficiam com tais atitudes.

Não foi apresentada nenhuma técnica para enfrentar situações onde o abortamento é cogitado pela paciente, mas procurou-se descrever uma posição mais afetiva e mais completa diante destes casos. É necessário, nestas situações, respeitar-se sem ser preciso agredir a mulher. Pensando na paciente e em nós, a intenção foi de despertar um questionamento sobre condutas estereotipadas a fim de que sejam cada vez menos usadas por médicos e pela lei.

Em resumo, precisamos modificar a lei e a postura do médico, é o que a sociedade e as mulheres nos pedem.

Os médicos, parlamentares e a lei deveriam ter uma visão mais abrangente e abrir espaço para que as pessoas possam expressar seus sentimentos mesmo que sejam diferentes do nosso.

Imagine uma lei ao contrário, que todas as mulheres grávidas de malformados fossem obrigadas a abortar, e se não o fizessem seriam penalizadas. Seria loucura não acham?

Vamos dar oportunidade para que as pessoas decidam sem uma lei autoritária que controle nossos pensamentos, princípios, ideologias e a lei tenha espaço para os que são contra ou a favor.

A descriminalização do aborto não obriga que as pessoas que são contra, após sancionada a lei, sejam obrigadas a cometer o aborto. Pense nisso, a descriminalização do aborto traria mais democracia.

Precisamos exercer nossa profissão o mais perto possível do desejo da paciente e viver a realidade. Toda lei que facilita isto deve ser por nós apoiada.

Além da lei, precisamos garantir às mulheres que necessitem deaborto legal, que tenham acesso a um atendimento de qualidade na Rede Pública de Saúde. Existem vários estados brasileiros onde ainda não há esta garantia.

   
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