Em protesto à estratégia de criminalização e perseguição das mulheres
com a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do aborto e o processo
envolvendo cerca de 10 mil mulheres do Mato Grosso do Sul, indiciadas pelo crime
de aborto, os movimentos de mulheres denunciaram - diante de entidades nacionais
dos direitos humanos, que participavam da XI Conferência Nacional de Direitos
Humanos (CNDH) – as violações aos direitos humanos das mulheres.
Os movimentos de mulheres vivem intensa perseguição e criminalização das
mulheres, reforçada e legitimada pela recente criação da CPI do aborto pelo
presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, e o processo envolvendo
quase 10 mil mulheres em Campo Grande-MS, pela suposta prática de aborto, tendo
suas vidas e intimidades expostas. Essas atitudes reforçam a estratégia de
criminalização e perseguição às mulheres e aos movimentos sociais, configurando
uma verdadeira violação aos direitos humanos e contrariando o que preconiza a
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Relatório aponta violações sofridas por 10 mil mulheres investigadas
pela prática de aborto em MS
Entidades entregam ao ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da
Presidência da República, Paulo Vannuchi, e a ministra da Secretaria de
Políticas para as Mulheres (SPM), durante a XI CNDH, relatório que aponta
violações sofridas por 10 mil mulheres investigadas pela prática de aborto
O relatório “Processos judiciais envolvendo abortamento: Negação dos direitos
reprodutivos das mulheres em Mato Grosso do Sul”, que mostra as irregularidades
na ação policial com a apreensão e manuseio dos prontuários médicos e o
posterior processamento das mulheres em Campo Grande. O relatório será lançado
nesta terça-feira, 16 de dezembro, às 16h30h, em Brasília. No processo são
violados o direito à privacidade, o direito à saúde, à liberdade, e ao devido
processo legal, entre outros direitos, previstos na Constituição Federal e nos
tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil.
Os agentes policiais não respeitaram a privacidade das mulheres, não
impediram a exposição indevida do conteúdo das fichas médicas e o seu manuseio
por pessoal não qualificado. A legislação brasileira prevê procedimento
específico para a investigação de registros médicos de pacientes, exigindo que
as autoridades judiciais apontem um especialista para manusear os prontuários,
com o objetivo de preservar o sigilo médico. Ignorando este procedimento, a
polícia utilizou os registros médicos apreendidos de forma ilegal para
investigar criminalmente milhares de mulheres suspeitas de terem se submetido a
abortamentos ilegais.
Estes acontecimentos afetaram as vidas de milhares de mulheres que, hoje,
estão sob investigação. Setenta delas já receberam sua sentença, e outras mais
são acusadas diariamente. Muitas que ainda não foram processadas vivem com medo
de serem investigadas criminalmente, podendo ter a sua vida privada revelada
para suas famílias, seus colegas de trabalho ou o público de forma geral.
Atualmente, a polícia planeja investigar cerca de duas mil mulheres cujos casos
ainda não estariam prescritos.
O relatório foi organizado pelo Ipas Brasil a
partir de visitas de campo a Campo Grande e baseia-se em entrevistas com
pessoas-chave envolvidas no caso, em documentos oficiais e na imprensa,
pesquisados e sistematizados por um grupo de entidades e redes que atuam pela
promoção e defesa dos direitos reprodutivos: Antígona/CLADEM – Comitê Latino
Americano e do Caribe pela Defesa dos Direitos da Mulher, CCR - Comissão
Cidadania e Reprodução, CFEMEA, Ipas Brasil, Themis, Rede Feminista de Saúde
Direitos Sexuais e Reprodutivos e Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e
Seguro.
Questão de saúde pública tratada como questão de polícia
A interrupção da gravidez é um grave problema de saúde pública e de direitos
humanos no Brasil. Apesar de o Código Penal brasileiro criminalizar o
procedimento, estima-se que ocorram 1.054.243 abortamentos a cada ano no país. O
abortamento inseguro está entre as principais causas de mortalidade materna.
Aproximadamente 250.000 mulheres são atendidas anualmente nos hospitais
brasileiros com complicações decorrentes de abortamentos inseguros.
A criminalização do aborto tem um efeito perverso na saúde pública e não
previne a sua prática. O caso de Mato Grosso do Sul é emblemático e demonstra
que o Estado deve buscar resposta fora da esfera penal para lidar com a
questão.
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