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Sobre ser cristã, mulher, educadora pastoral e defender o direito à vida das mulheres PDF Imprimir E-mail

Bernadete Aparecida Ferreira
Coordenadora nacional da PMM - Pastoral da Mulher Marginalizada

Por que escrevo aos/às senhores/as parlamentares?

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Para que saibam o que eu, coordenadora nacional da pastoral da mulher marginalizada, penso sobre o direito à vida das mulheres.

Nesses últimos dias, algumas pessoas vêm me questionando, enquanto coordenadora nacional político-pedagógica de uma pastoral que trabalha com mulheres, e mulheres excluídas, qual é o meu posicionamento e o da Pastoral da Mulher Marginalizada com relação ao aborto?

Devo dizer, por hora, que a PMM por ser uma Pastoral da Igreja Católica Romana tem um posicionamento a favor da vida, como todas as suas congêneres. Sua forma de atuar e suas prioridades sempre foram e serão em defesa da Vida, e da vida em abundância (Jo 10, 10).

Mesmo assim, faço questão de escrever esse documento quase todo em primeira pessoa do singular!

Acho necessário esclarecer o que penso eu como educadora pastoral e mulher de fé.

Não somente assim. Quero escrever também como educadora que há pouco mais de 27 anos atua no trabalho com excluídos e com mulheres, e sempre com mulheres empobrecidas; 17 desses anos com mulheres em situação de prostituição, o que, acredito, me deram certo embasamento e experiência para ser dirigente da PMM, junto com um colegiado de pessoas capazes e experientes.

Quero escrever algo que brote apenas da minha interioridade; da minha sensibilidade; da minha experiência secular, pastoral e espiritual; da minha consciência e da interpretação do Evangelho de Jesus Cristo, principalmente o de S. João, o apóstolo da vida nova e da vida em abundância.

É verdade que escrevo também com a influência de ser feminista, me sinto adepta do pensamento político feminista, acredito na metodologia e nos princípios, nos pressupostos teóricos e pedagógicos do feminismo e que eles ainda e mais do que nunca são válidos no mundo de hoje.

Para a atuação da PMM, penso que seria benéfico, mas não imponho, se todas nós conhecêssemos estes pressupostos, esses princípios, essa metodologia e pedagogia do feminismo; sem fundamentalismos e preconceitos para com esse pensamento político e prática pedagógica que tanto têm colaborado para a transformação das sociedades e das culturas; do modo como elas vêem e tratam as mulheres.

Assim como nós, mulheres que trabalhamos com a Bíblia e pastoral temos nos empenhado em mostrar também às feministas de movimentos sociais que é possível uma exegese libertadora, com olhar e chaves de leituras libertadoras, da palavra de Deus e dos escritos pastorais, em benefício das mulheres. Principalmente daquelas que mais sofrem. Podemos, ainda, demonstrar que essa libertação é possível também em espaços religiosos, também na Igreja Católica.

Tenho bebido da fonte do feminismo, de forma tão profunda como sempre bebi da fonte do Evangelho e da mística das antigas religiões matrifocais para seguir minha caminhada de vida. Mas, a maior de todas as motivações para eu escrever esse documento é o fato de ter convivido, visto e amparado uma quantidade mais do que significativa de mulheres que na prostituição precisaram fazer aborto, umas um, outras dois ou três, outras ainda mais de 20 abortos cada uma!

Para escrever esse texto, também me inspirei no documento final da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, que, de forma muito favorável, exorta aos cristãos/ãs latino-americanos\as para cuidarem da dignidade e participação das mulheres. Nesse documento publicado pela Paulus e Paulinas (p.202-205), encontramos as seguintes afirmações dos bispos:

“453. Lamentamos que inumeráveis mulheres de toda condição não sejam valorizadas em sua dignidade, estejam, com freqüência, sozinhas e abandonadas, não se reconheçam nelas suficientemente o abnegado sacrifício, inclusive a heróica generosidade no cuidado e educação dos filhos e na transmissão da fé na família. Muito menos se valoriza nem se promove adequadamente sua indispensável e peculiar participação na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja. Ao mesmo tempo, sua urgente dignificação e participação são distorcidas por correntes ideológicas marcadas com o selo cultural das sociedades de consumo e do espetáculo, que são capazes de submeter às mulheres a novas formas de escravidão. Na América Latina e no Caribe é necessário superar a mentalidade machista que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e se proclama” igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem “.

Encontramos também:

“454. Nesta hora da América Latina e do Caribe, é urgente escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas. Entre elas, as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas têm sofrido dupla marginalização. (...)”.

Percebo com certa segurança, que entre as mulheres pobres, índias e afro-ameríndias às quais os bispos latino-americanos e caribenhos nos exortam a escutar os clamores estão mulheres que se prostituem e, entre elas, também as mulheres que fazem aborto em situações difíceis e clandestinas.

Portanto, é com essas motivações e características, limitações e qualidades que me proponho a escrever esse documento, pois é tempo de sair do muro!

Ser cristã e estar com mulheres marginalizadas

Não é difícil ser cristã e ser mulher. O Cristianismo é uma religião que ama as mulheres; que tenta resgatar o seu valor, escondido e obscurecido por religiões patriarcais, que se sustentam estruturalmente na desvalorização e culpabilidade das mulheres. O agir cristão, no entanto, assumido pelas Igrejas, nem sempre soube lidar com esse pilar apostólico do Cristianismo. O agir histórico das igrejas cristãs também se estruturou na desvalorização, no apagamento e na submissão das mulheres.

Para mim, ser cristã é seguir as Boas indicações e Novas comunicadas pelos apóstolos e apóstolas de Jesus através do seguimento das bem-aventuranças, crendo na Vida que se renova eternamente; crendo num Reino possível de igualdade, socialização e comunhão de tudo; crendo nesse outro mundo possível que nós militantes sociais hoje propagamos.

Jesus, para mim, não é apenas o Mestre, Ele é o Amado da minha laica alma. Sinto-me feliz em comungar os meus dias com seus ensinamentos e sua Sabedoria Santa. Essa Cristologia me satisfaz enquanto ser laico e me dá respostas espirituais muito profundas para atuar no mundo, no mundo das mulheres em situação de prostituição.

A antropologia cristã, também, que é profundamente enraizada na crença na Igualdade entre homens e mulheres perante Deus/a me é muito cara, e nós na Pastoral da Mulher Marginalizada trabalhamos muito com esse princípio.

Estar com mulheres marginalizadas, em situação de prostituição é o maior dos mandamentos que Jesus me deixou. Acredito que vocação é obedecer a um mandamento especial por meio do qual o Amado me convoca e me ordena à Bem-aventurança e às vezes nos perdemos e nos achamos Um ao Outro nessa tarefa. Nem sempre é fácil cumprir esse mandamento, mas devo tentar para a satisfação da minha ordenação.

Ser cristã é buscar ser parecida com esse Amado; esse Mestre de justiça e amor interno que guia todos os meus passos e é Soberano sobre todas as outras vozes e palavras que eu pudesse ouvir. Acima das vozes feministas, acima das vozes políticas, acima das vozes acadêmicas, acima das vozes ativistas sociais, acima das vozes do lero-lero comum... Está essa Voz e ela me diz: - Fica sempre do lado das mulheres! Toma sempre posição ao lado das mulheres! Constrói sororidade!

Ser Cristã é amar ao/a próximo/a como a mim mesma; amar a Deus/a sobre todas as coisas.

Quem não se ama, não ama a próximo/a; Quem ama a Deus/a, ama ao/a próximo/a e a si mesmo/a; quem diz que ama ao/a próximo/a e não ama a si mesmo/a, não ama ninguém. Quem só ama a si mesmo/a não é cristão e nem ama a Deus/a.

Esse/a próximo/a, bem próximo\a de mim há quase duas décadas, é uma mulher em situação de prostituição. Amar a Deus, portanto, significa amá-las e amar a mim mesma. Amar a mim mesma é algo que elas me cobram muito.

Cobram-me exemplos, a auto-estima, a dignidade. Se elas percebem que eu não me amo, nada do que eu fizer ou disser terá efeito ou ressonância sobre elas. Atualmente, aprendi a me amar e aos meus porque tenho essa ligação cotidiana com as mulheres em situação de prostituição.

Obrigo-me a evitar situações de opressão, violência, humilhação, autodesprezo, miserabilidade, depreciação, desamor, descaso e violação dos meus direitos humanos.

Amar essas mulheres é buscar amá-las como Jesus as amou. De forma leve, sem julgamentos, de forma pedagógico-salvadora.

Claro que já foi um amor cheio de medos, cheio de erros, cheio de preconceitos e cheio de negações! Cheio de adversidades e adversários. Hoje, busco amá-las de forma a apóiá-las na reconstrução e/ou reestruturação de suas vidas:

  • Acreditando nelas;
  • Acreditando na capacidade delas;
  • Acreditando no poder delas de tomar as próprias decisões;
  • Acreditando na santidade e sanidade de seus corpos;
  • Acreditando no valor de suas vidas;
  • Acreditando na capacidade delas de pedir perdão e perdoar;
  • Acreditando que elas muito amam, mesmo quando estão imersas no pecado e escravidão;
  • Acreditando na sua capacidade de fé e espelhar a verdadeira Imagem de Deus/a Vivo/a;
  • Estando ao seu lado e sendo parceira nas suas necessidades.

A Pastoral da Mulher Marginalizada também faz assim: dedica-se a caminhar junto com as mulheres, as que são mais judiadas, as que sofrem mais os apedrejamentos de hoje em dia e que são também as que mais amam, em todos os sentidos. Acreditamos na força, na vida, na inteligência e no protagonismo das mulheres em situação de prostituição e ex.

Dedicamo-nos a estar com elas, sendo uma presença firme na empreitada de auto-salvação e auto-reconstrução; acreditamos que é possível aquele momento de dizermos, como Jesus tantas vezes disse: tua fé te salvou! Para elas, somos as irmãs próximas sem tomarmos seus lugares!

Sabemos que elas muitas vezes sofrem, são machucadas, trabalham com coisas que mexem com a moralidade pública e com os conceitos mais arraigados de moral sexual da sociedade, das igrejas e religiões. Por caminhar com elas, muitas vezes somos também marginalizadas.

Sabemos que em meio a tantas desavenças e infortúnios elas querem ser amadas, aceitas e precisam ganhar o pão de cada dia, de um jeito que nem sempre gostariam, fazendo coisas que nem sempre fariam se não precisassem.

O sexo e o pão nosso indigesto de cada dia

Ganhar o pão de cada dia, essa sobrevivência é conseguida através de um tipo de trabalho que envolve o uso do mais íntimo delas mesmas: o sexo com suas entranhas.

Elas sabem que sexo deveria ser sinônimo de vida, de intimidade, de complementaridade e felicidade. Sonham com essa vida e felicidade por meio do sexo e do amor.

No entanto, sexo para elas, na grande maioria das vezes, significa a possibilidade do PÃO.

Para nós, cristãs, o PÃO é tão importante. Esse PÃO para ser partilhado, para que ninguém tenha fome; para que ninguém perca sua vida, para ser comungado, para que ninguém passe necessidade; para que a vida se renove! Para nós PÃO e PERDÃO caminham juntos, pão e renovação da vida é uma só coisa. O próprio Deus da Vida se transformou em PÃO! Elas têm o direito a esse Pão! Elas têm o direito à Vida! Pão é Vida.

Nossa oração mais preciosa é a que diz: O Pão-Nosso dá-nos hoje e Perdoai, assim como nós perdoamos! Amai assim como nós amamos, não julgai assim como nós não julgamos.

O que, no fundo, significa para as mulheres em situação de prostituição, que também têm fé num Deus/a que é a única possibilidade de salvá-las, acreditar e lutar pelo Pão nosso de cada dia?

Significa pedir: - “Senhor, dá-nos, pelo menos por hoje, esse sexo alugado de cada dia!” “Dá-nos a mínima condição de sobrevivência!”.

É a mais crua e dura verdade! Um pão provisório, mas é o pão. Elas o buscam na provisoriedade.

- Dá-nos esse sexo nosso de cada dia para que nós e nossos filhos continuemos vivos. Dá-me, pelo menos um programa, por hoje, para que eu possa levar algo para casa, para que eu e meus filhos possamos comer. Dá-me um vale transporte, um vale gás, um vale refeição, pelo menos, como pagamento. Não posso voltar para casa sem nada!

- Dá-nos essa possibilidade de vida, de continuidade de vida, do que é possível nesse momento, e perdoai! Perdoai assim como nós perdoamos tudo, os escarros, as cuspidas, as violências, as difamações, as injúrias, os apedrejamentos, os vícios para suportar, a vergonha de cada dia, a discriminação de cada dia, a culpa!

É muito “o que perdoar e pedir perdão” por causa do “pão provisório de cada dia”. É muita culpa para uma vida inteira que merece ser salva. É muita injustiça.

Esse “sexo-pão” traz não só a saciedade, mas também as adversidades, os frutos indesejados, as indigestões: a falta de amor, a perseguição, a falta de saúde, as criminalizações, a gravidez indesejada, a violência sexual e estupros, os abortos, entre tantas outras coisas.

O aborto: a maior das indigestões!

As pessoas precisam saber o quanto mulheres em situação de prostituição valorizam e amam seus filhos! E quanto uma gravidez indesejada, principalmente fruto do não-amor, interfere no tipo de luta que fazem pelo pão de cada dia. Mas, gravidez indesejada não é coisa incomum no mundo da prostituição.

É conseqüência de outras indigestões dessa labuta: sexo despreparado, violência sexual, estupro, desrespeito por parte do homem, falta de condições de saúde, falta de informação, descaso do poder público etc.

Chegar ao aborto é apenas um passo, e também é comum nesse tipo de labuta.

Fazer aborto para mulheres em situação de prostituição nem sempre significa que não amem seus filhos; que não gostariam de tê-los ou mesmo que gostariam de abortar a torto e a direito. Ou, ainda, que concordem com o aborto.

Fazer o aborto se transforma numa dura necessidade de continuar a ganhar o pão de cada dia; de continuar a fazer seu trabalho na clandestinidade, um trabalho que não podem assumir perante sua família e sociedade; para continuar sustentando as outras vidas que trazem consigo. Significa, muitas vezes, a possibilidade de escapar de violências físicas e até da morte por parte de cafetões, clientes ou mesmo de “companheiros”.

Tomar a decisão pelo aborto significa ter examinado tantas outras encruzilhadas em meio à dor, à angústia, à solidão, à carência material e espiritual.

Ninguém é mais sozinha na dúvida de fazer ou não fazer um aborto do que a mulher que se prostitui; ela é duplamente solitária, ela é duplamente clandestina.

O que é o pão nosso de cada dia senão o alimento para a continuidade da vida de cada dia? Só precisa desse alimento quem já está vivo. Assim, as mulheres em situação de prostituição quando optam pelo aborto o fazem para continuar lutando pelo pão nosso de cada dia para si e para seus filhos e parentes que estão vivos, para que continuem vivos.

A decisão de abortar o que seria o broto de uma nova vida é sempre difícil! Os traumas e dores, as culpas e depressões não se encerram com o aborto. A clandestinidade não apaga a perseguição que essas mulheres fazem com elas mesmas. O mal que elas fazem a si mesmas é imensamente maior do que o aborto que fizeram.

Essa mulher culpada e sofrida tem direito à renovação de sua vida! Tem direito à redenção! Tem direito a entender que por trás de um ato seu existem causas estruturais que não são culpa sua.

Antes de tomar a decisão de fazer um aborto muitas lágrimas rolam, muitas noites sem dormir, muito pensar em todas as possibilidades, afinal elas sabem que todo aborto nas atuais condições no Brasil é uma oportunidade a mais para machucarem seus corpos; para lhes tirarem dinheiro; para sofrerem caladas a imensa dor de viver na obscuridade; de muito amar sozinhas sem serem amadas; de terem uma culpa a mais sobre seus ombros; de terem que pagar para continuarem vivas.

Quanta indigestão por um pão nosso de cada dia, tão amargo, mas o único possível!

Essa vida não é fácil! Não é fácil não se decidir por um pão tão indigesto. Não é fácil se decidir por um aborto.

É preciso que acreditemos que as mulheres tomam essa decisão após consultarem suas consciências, com uma ética guiada pela necessidade de vida e pela generosidade. É preciso acreditar nisso. Eu tenho fé que de um modo geral é assim que essas coisas acontecem.

E acredito que as mulheres têm consciência, o poder e a capacidade de consultá-las para tomar as decisões possíveis sobre suas vidas e as daqueles que estão sobre cuidado, principalmente na minoridade e na incapacidade. Mesmo em meio a tanta dor e pressão, é ao que restou de suas consciências que escutam e obedecem. É um único e pequenino caminho de vida em meio a outras chances que seriam chances maiores de morte.

Esses valores, essas necessidades, essas oportunidades mínimas de vida que as mulheres em situação de marginalização e opressão têm, devem ser respeitados, como respeitamos as opções de tantas outras pessoas. O direito à vida das mulheres precisa ser respeitado! Sua capacidade de decisão e direito sobre o próprio corpo e vida precisam ser respeitados também.

Já não basta sua desesperança? Já não basta sua culpa sem culpa por pertencer a um sistema estruturado no machismo e no capital? Já não basta ter que viver uma vida praticamente sem remédio e é a única que tem?

Entendo que absolver ou condenar as mulheres que fazem aborto não é a discussão suficiente e proveitosa sobre o direito à Vida. Penso que devemos ver todo o entorno da questão como algo muito maior; ver as conjunturas, os cenários; desconfiar das respostas prontas; desconfiar das sentenças prontas; ouvir com abertura o contraditório, o “outro lado”; desconfiar das chaves de leituras que nos têm apresentado. Não aceitar simplesmente o “contra” ou a “favor”.

Devemos conceder-nos o direito, como Jesus, de nos abaixar, nos rebaixar e virar as costas nas nossas argumentações, para perguntar: Quem aqui não tem pecado? Quem aqui está livre de passar numa encruzilhada de vida ou morte? Se fosse com você, com sua irmã, com sua mãe, em situações difíceis como as que essas mulheres vivem, qual seria o seu pensamento? Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

Se mulheres que fazem aborto em situação de opressão e miséria merecem ser presas e culpabilizadas porque o fazem, merecemos muito mais, não só por essa questão social, mas também por tantas outras que toleramos: exploração sexual de crianças, adolescentes, tráfico e exploração sexual de mulheres, a pedofilia, a fome, a desnutrição e morte de crianças e adolescentes pelas ruas! Pois, tudo o que diz respeito ao direito de crianças e adolescentes todos e todas nós somos cúmplices das violações! Sociedade, Estado, famílias e indivíduos.

Esperamos a Campanha por parte da Igreja sobre a violência contra as mulheres, contra as adolescentes; essa descabida e indigerível violência sustentada, institucionalizada, introjetada em todas as instâncias e em todos os gêneros.

Esperamos da parte da Igreja a campanha da fraternidade pelo direito das crianças e adolescentes de não serem sexualmente explorados. Esperamos a campanha da fraternidade pelo direito de crianças e adolescentes a uma vida sem pedofilia por parte de adultos desajustados e também perversos. Esperamos a campanha da fraternidade contra o tráfico de mulheres, crianças e adolescentes.

Ferir o direito à vida de crianças, de vidas em potencial não é muito mais o infanticídio diário que se assiste em todo o mundo capitalista e patriarcal, pela fome, desemprego e violência? Quando ouviremos honestamente sobre isso e assumiremos nós, todos, nossa parcela de culpa?

Violação ao direito à vida não é muito mais permitir que o sistema capitalista, mercantilista, continue jogando mulheres, crianças e adolescentes na prostituição e na necessidade de abortarem, como única saída para continuarem vivendo uma vida miserável?

Não estou a generalizar. Estou a defender que não se centralize a discussão sobre o direito à vida na questão do aborto, satanizando mais uma vez as mulheres, seus corpos e seus direitos fundamentais, desviando o olhar sobre tantas e tantas outras ameaças à vida e ao planeta, as quais, quase sempre, estão orquestradas e praticadas por homens capitalistas. Não estou a defender que se façam abortos como se derrubam árvores na Amazônia!

Estou a defender que o dualismo vida x morte não seja encarado como o dualismo aborto x não aborto, mas sim cultura de vida e vida em abundância x sistemas e culturas que priorizam a morte em favor da exploração, da mercantilização, da opressão de seres humanos, em especial de mulheres que vivem sem as mínimas condições de vida.

São esses mesmos corpos de mulheres oprimidas que geram vida e que são fontes de tanta riqueza de vidas humanas no planeta os mesmos corpos culpabilizados só pela possibilidade de um dia fazer ou ter feito um aborto. A culpa imposta parece ser enormemente maior que a graça intrínseca superabundante.

O homem não gera a vida dentro de si. Será por isso que não o culpam nunca por fazer um aborto? Para que uma mulher faça um aborto, quase sempre um homem o fez antes de forma simbólica.

Cada criança não assumida por um “genitor” é um aborto que ele faz e do qual jamais será culpado, pois a sociedade o tolera, o perdoa, acha até divertido os garanhões fazerem muitos filhos como prova de virilidade e macheza.

Entre essas montanhas de filhos não assumidos, com certeza, há também os filhos clandestinos dos homens de carne e osso que são pilares que sustentam a Igreja Hierárquica real e simbólica.

É esse o machismo estrutural da sociedade e da Igreja, que toleramos, e que fingimos não ver. A dupla moral é inaceitável e insuportável, mas acontece. Não devemos deixar de usar essa realidade como argumento em defesa dos direitos das mulheres.

Assim o Cristo o faria, e fingiria, de costas, escrever no chão para não apontar o dedo na cara de cada um dos fariseus de nossos dias, para não constrangê-los, para não enxergar o olhar amedrontado de cada um com suas culpas e vê-los se afastarem, com suas carapuças encorpadas.

A maior das razões de uma mulher prostituída continuar na prostituição é dar o sustento e a sobrevivência de seus filhos. Elas não são “abortistas” em potencial porque muito fazem sexo e engravidam em decorrência disso, como acusaria um desses fariseus!

Elas são doadoras de vida em potencial, porque muito amam e amam seus filhos. Dar uma vida digna, estudo, bom alimento para os filhos significa tudo para elas. Os filhos que elas podem assumir os assumem por inteiro, com muita dignidade!

No entanto, sustentamos sistemas que não se preocupam a mínima com direitos de crianças, adolescentes e mulheres, sem constrangimentos, com muita indignidade e parcialidade! Omitimo-nos perante as necessárias rebeldias!

Eu acredito que nós da PMM não incitamos e nem levamos ninguém a fazer aborto quando decidimos por entender as mulheres com quem convivemos, essas nossas irmãs; quando decidimos entender suas razões, seus sofrimentos.

A ação é de acolhida, não julgar, não culpar

Acredito que a decisão pela acolhida, pelo perdão, pela crença de que as decisões das mulheres nas encruzilhadas de vida ou morte são razões de vida; e que são conduzidas, de alguma forma, por uma ética de generosidade.

Acreditar nisso é a minha chance de poder continuar a rezar o Pai/ Mãe Nosso/a - Pão Nosso de cada dia nos daí hoje - com o coração pacificado, é acreditar que todos e todas nós temos direito a esse pão.

Nós, na PMM, decidimos lutar por melhores condições de vida para as mulheres em situação de prostituição, contra a exploração sexual de crianças e adolescentes e contra o tráfico de seres humanos. Decidimos lutar por políticas públicas e ações estruturais que venham a beneficiar a vida das mulheres e de seus filhos.

Queremos que elas tenham o respeito que merecem; que elas tenham o direito à vida, e à vida em abundância, como diz S João; que elas tenham direito à verdadeira fé e religião, como também nos diz S. João em seu Evangelho. Pois, a fé sai de dentro da pessoa não de fora. Assim como suas decisões são iluminadas pelas consciências e espírito, por dentro e não por fora. As maiores sentenças e decisões sobre si mesmas, portanto, são as que vêm de dentro e não as de fora. O julgamento também deve ser o de dentro e não o de fora! Quem julga é Deus.

É assim que Jesus agia. E acreditava que assim como a vida das mulheres era determinada por suas opções, a fé intrínseca delas também era suficiente para salvá-las.

Nós queremos que as mulheres sobrevivam com saúde, amor, integridade de seus corpos e que realmente possam continuar suas vidas, longe da necessidade de fazer ou não fazer um aborto.

Mas, se um dia elas precisam fazer um aborto, penso que, sem pestanejar um minuto, deveríamos ficar ao lado delas para acolhê-las e ampará-las, defendê-las sempre e continuarmos nossa luta pela vida. Como, com certeza, muitas de nós educadoras pastorais já tivemos a oportunidade de fazer, também na clandestinidade. Assim como EU já fiz, não só uma, mas várias vezes.

Continuamos apoiando-as na luta para que o seu direito a não se prostituir seja respeitado. Lutamos, portanto, pela vida em plenitude das mulheres.

Entendi que preciso lutar pela descriminalização do aborto no brasil - um resumo

Eu não vou falar pela PMM, embora seja sua coordenadora nacional. Mas, examinando minha consciência, minha experiência, o fato de eu também ser mulher, o fato de eu ser intrinsicamente cristã e ser mulher de fé, o fato de eu trabalhar com mulheres em situação de prostituição que precisam às vezes recorrer ao aborto, e o fato de que eu, como humanista e cristã, devo lutar pela vida, me levou a optar por defender a descriminalização da prática do aborto no Brasil, pelas seguintes razões:

  1. Quase sempre somente as mulheres são criminalizadas pela prática do aborto; quase sempre são mulheres pobres;
  2. Mulheres que se prostituem, de vez em quando precisam fazer aborto, a despeito dos inúmeros métodos contraceptivos que poderiam escolher; pelos quais também são culpabilizadas quando os escolhem;
  3. A criminalização do aborto não diminui a sua prática, ao contrário, aumenta cada ano o número de abortos no país;
  4. As mulheres não merecem ser presas porque fizeram o aborto tomando decisões sozinhas, em situações difíceis e constrangedoras, muitas vezes para defenderem a continuidade da vida de terceiros, colocando sua própria vida em risco;
  5. Quem ganha com o aborto ilegal são os exploradores, pessoas que só querem ganhar dinheiro, e não se preocupam com a saúde das mulheres e nem com suas possibilidades de vida, colocando também essa prática sob o controle do crime organizado;
  6. A descriminalização do aborto prevenirá que o aborto seja uma prática clandestina para gerar lucro, por exemplo, para utilizadores de embriões para outras finalidades que não a vida, tal como a cosmética;
  7. A descriminalização do aborto permitirá o controle sanitário e financeiro sobre esta prática, bem como o acompanhamento da mulher e de sua saúde psicológica e espiritual após a realização de um aborto;
  8. A descriminalização do aborto facilitará o acesso das mulheres ao aborto terapêutico, que é permitido hoje no Brasil por alguns dispositivos legais. Hoje, por falta de investimento financeiro e decisão política do Estado; por falta de informações e por receio de profissionais e gestores muitas mulheres desconhecem esses direitos;
  9. Quando procuram os serviços têm dificuldades para o atendimento, faltam locais de atendimento e terapia, ou passa o tempo possível para a intervenção terapêutica pelas burocracias e morosidade nas decisões, principalmente nos casos de gravidez em decorrência de estupros;
  10. A descriminalização do aborto não obriga nenhum profissional de saúde, que por opção ética não o queira, a fazer um aborto;
  11. A descriminalização do aborto não obriga e nem induz ninguém a fazer o aborto;
  12. A descriminalização do aborto não permitirá, como se faz alarde, que o aborto seja feito em qualquer fase da gestação, pois ela visa, entre outras coisas, assegurar a vida e a saúde das mulheres;
  13. A descriminalização diminuirá o número de abortos no Brasil, pois diminuirá o assédio comercial e mercantil para essa prática;
  14. As mulheres que decidirem por abortar o farão com assistência médica, como obrigação do Estado. Os cuidados médicos permitirão que elas tenham mais condições de trabalhar, menos vidas serão ceifadas e elas poderão lutar pelo pão de cada dia para si e seus filhos;
  15. Cerca de 800 mil a um milhão de abortos clandestinos acontecem no Brasil por ano e milhares de mulheres morrem em decorrência disso, com a descriminalização do aborto estaremos prevenindo a morte de milhões de mulheres; defendendo, portanto, o direito à vida;
  16. A descriminalização do aborto não impede a conscientização de mulheres e homens para a maternidade e para a paternidade responsável; não impede que continuemos nossas lutas pelos direitos humanos integrais e universais de todas as pessoas, por uma sociedade e cultura mais eqüitativa para as mulheres e crianças;
  17. A descriminalização do aborto não impede que desenvolvamos nossos métodos naturais e biológicos de planejamento familiar; não impede que lutemos pelo direito assegurado por lei federal, dever do Estado, de todos e todas ao planejamento familiar;
  18. A descriminalização do aborto não me impede de pastorear rumo a uma vida em plenitude, com essas mulheres, que segundo Jesus é as que mais amam, e que segundo Jesus é as que me precederão no Reino dos Céus; Algumas delas fazem aborto e não posso, como educadora pastoral cristã, virar as costas para elas e nem culpá-las!
  19. A descriminalização do aborto não me impede de continuar lutando pela vida das crianças e das mulheres com quem trabalho que não querem ser nem santas e nem desencarnadas, mas, com certeza, são heroínas na labuta diária pelo direito à Vida.
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