Sair do invisível trabalho de formiguinha para um bombardeio midiático com poucos precedentes no Brasil. Essa foi a realidade de muitos movimentos que há bastante tempo estavam nas ruas e, mesmo assim, também se surpreenderam com o tal gigante que pareceu ter acordado. Mas, para jogar esse balde de água fria na sociedade, muita gente teve que ajudar a enchê-lo. Nessa entrevista, Maria Paiva Lins - na voz de várias mulheres - conta um pouco da história do Movimento Passe Livre do Distrito Federal, atuante na origem de alguns dos primeiros protestos de 2013, e que, há anos, luta de forma autônoma e criativa pelo direito à cidade e por outro projeto de sociedade.

Fêmea: Como começaram os protestos de junho? Qual o papel do Movimento Passe Livre nesse processo?

Maria Paiva Lins: Bom, o MPL não começou agora. Ele surgiu depois da Revolta do Buzu, que rolou em Salvador, em 2003, contra o aumento das tarifas. Foi quando o debate sobre direito à cidade ficou evidente. Daí no Fórum Social Mundial de 2004, nós conseguimos nos articular com outras cidades e, em 2005, já tinha o MPL no Distrito Federal. Desde o início a gente sempre se apegou muito aos princípios autônomos de independência e horizontalidade e, naquele ano, ocupamos o DFTrans contra o aumento da passagem. O governo e os empresários não sabiam como lidar, porque era a primeira vez que havia um movimento organizado sobre isso. Até então não se falava em transporte como um direito, como saúde e educação. Mas em janeiro de 2006 eles decretaram o aumento. Seria a tarifa mais cara de todas. Nós passamos três meses lutando pela revogação e não conseguimos. Mas hoje a gente percebe que foi uma vitória, todo o trabalho de base: desde então, nunca mais houve aumento na passagem no DF. E também avançamos com a aprovação do Passe Livre estudantil, apesar de ainda não ser irrestrito e ilimitado e estar longe da Tarifa Zero, pela qual a gente luta hoje. Mas, esse ano, em outros estados, a ameaça era de aumento da tarifa e essa foi uma das razões que começou a chamar a galera pras ruas.

Fêmea: E qual a diferença entre as manifestações dos outros anos - que mobilizaram muito menos pessoas - e essas, que juntaram dezenas de milhares?

MPL: Acho que o fato de São Paulo ser um centro político, econômico e cultural gerou um certo bombardeio midiático. Eles já tinham tido jornadas de luta contra o aumento da tarifa em 2007, 2011 e, agora, já estavam se organizando desde antes do dia 15 de junho. Já existia um imaginário de lutas na cidade, também. Até que, no dia 15, houve uma explosão, com mais de dez mil pessoas nas ruas. O governo não sabia como lidar e resolveu partir pra cima, com a polícia, como já tinha feito várias outras vezes. Só que hoje a grande mídia não tem mais o controle da informação como anos atrás, quando podia chamar todo mundo de vândalo e inventar uma versão da história. Agora, o acesso à informação é muito mais democratizado, com a internet. Tinha toda aquela gente lá, vivendo aquilo, vendo a reação desproporcional da polícia e compartilhando tudo nas redes sociais. Chegou um momento em que aquele cenário ficou incontível e a mídia teve que mudar o discurso de uma forma absurda, muito evidente.

Fêmea: A partir daí a mídia contribuiu para as manifestações? Como ficou essa relação?

MPL: Quando a mídia começou a apoiar o movimento, ela passou a esvaziar a pauta de lutas e tentou transformar toda a nossa agenda, que tinha um caráter crítico e anticapitalista, em um movimento contra a corrupção. Toda a pauta ficou muito dissolvida, no momento em que tudo virou luta. Muitas pessoas começaram a ir para as ruas pela primeira vez e boa parte das vezes nem sabiam porque estavam lá. Aconteceram coisas muito estranhas e algumas pessoas começaram a pensar, inclusive, que se tornaria um movimento de direita.

Fêmea: Mas será que essa massificação não foi fruto de uma insatisfação política maior, apesar de ter vozes muito diferentes?

MPL: Acho que existia sim uma raiva, uma insatisfação generalizada, inclusive contra o governo, o Congresso Nacional, algumas empresas. A mobilização com certeza não tinha a ver só com a pauta do transporte. Mas para mim ficou inegável que a estratégia da mídia era esvaziar a pauta e fazer com que aquilo fosse sobre todos os problemas do mundo e não sobre um problema específico, que pudesse ser enfrentado concretamente, pelo qual a gente pudesse responsabilizar alguém. O rechaço que eu sentia nas ruas era algo menos elaborado, uma coisa meio “todo mundo é corrupto e a política é ruim”. Sem contar também com a galera que queria ir para botar no facebook, porque era legal.

Fêmea: Mas, por outro lado, foi bom ver gente que nunca tinha se manifestado ir às ruas pela primeira vez? A sociedade passou a enxergar os movimentos de outra forma?

MPL: Com certeza! O discurso não era mais “aqueles vagabundos fecharam as ruas”, ninguém mais concordaria com isso. Fora que ninguém de nós começou a atuar politicamente da forma certa. E que bom que não: a gente aprendeu muito nesse processo. Mesmo quem chegou mais despolitizado teve a chance de pensar sobre aquilo. A rua ensina muita coisa, inclusive pra quem vai com as pretenções mais patrióticas, supostamente do bem. Depois que você entra na porrada com a polícia pela primeira vez, tem um choque de realidade, sabe? Você sempre achou que a polícia tava lá para te proteger e, de repente, leva um pau porque tava gritando “mais amor”. Nessas horas, você começa a questionar certas coisas.

Fêmea: A ação da polícia foi muito marcante nas manifestações, né?

MPL: Foi mesmo. Na verdade, a reação policial foi fundamental para a mobilização. Ela não foi tão diferente de outros momentos que a gente já viveu, mas a visibilidade que ela teve foi inédita e as pessoas viram um lado da polícia que elas não conheciam, até então. Era um lado que só tava nas favelas, na periferia, ou contra os próprios movimentos sociais, mas longe das câmeras.

Fêmea: E isso também gerou um debate sobre violência mais amplo, não só sobre a PM, mas sobre a tática adotada por alguns movimentos. O que vocês pensam sobre isso?

MPL: O uso da violência realmente não é consenso, para os movimentos. A mídia saca isso e usa para criminalizar todo mundo, dizendo que “são um bando de vândalos”, com argumentos legalistas. O problema é que esse debate - sobre o que é ou não radicalidade - também não é muito feito nos movimentos sociais. O MPL nunca fez um discurso em defesa do vandalismo, dizendo “bora quebrar o baú”, até porque não é estratégico. Mas a gente entende que violência não é isso. Violência é o aumento da passagem, é tirar dinheiro da comida da população, para o empresário ficar mais rico. Na verdade é o sistema que é todo violento. É radical pular catraca? Tacar fogo no ônibus? Ocupar uma terra improdutiva? Esse discurso é extremamente moralista, é uma defesa da propriedade privada como se fosse sagrada. Quem você tá atingindo, quando joga uma pedra no Congresso Nacional? O que você quer dizer, quando destrói uma loja do McDonalds?

Fêmea: E como fica o diálogo com os movimentos que não apoiam essa forma de agir?

MPL: Essa coisa que estão chamando de vandalismo não é um princípio, é uma tática. E, como tática, não pode ser moralmente condenável. Em alguns momentos é válida, em outros não. Rolam as duas idealizações. De um lado, quem condena diz que a propriedade privada é sagrada, que tem que entregar “os vândalos” para a polícia. E, do outro, tem gente que acha que todo tipo de confronto e quebra-quebra é um ganho político, mas também não é assim. O que a gente precisa entender é que para alguns grupos nunca vai ser válido e para outros sempre vai ser. Mas a manifestação é um conjunto de táticas e a gente vai ter que respeitar a tática do companheiro, saber quem são os inimigos e não criminalizar quem tá do nosso lado.

Fêmea: E o diálogo sobre diferentes pautas, especialmente com o movimento feminista. Teve espaço para isso, nas manifestações?

MPL: Essa é uma pergunta complicada. Acho que houve pouca problematização dos casos de violência policial contra as mulheres, por exemplo, que é um tema que poderia ter avançado. Na verdade, acho que o movimento feminista no geral já vinha com uma discussão de pautas e uma atuação que estava meio invisível e que talvez tenha ficado ainda mais invisível nas manifestações. Tinha o processo contra o Feliciano, as Marchas das Vadias, mas na hora das ruas, acho que a gente não conseguiu avançar muito. As pessoas não incorporaram a legalização do aborto e o combate ao Estatuto do Nascituro como se fossem questões que realmente as atingisse. Essas questões ficaram ocultas. A denúncia dos gastos nos estádios - por exemplo - que era algo irreversível, na prática, ficou muito mais marcada.

Por outro lado, dentro dos movimentos mais tradicionais deu para perceber um amadurecimento da discussão sobre os direitos sexuais. E é algo complexo, porque geralmente nesses movimentos, como MST e MTST, a questão religiosa é muito forte e há uma dificuldade de avançar em certos debates. Mas o encontro nas ruas favoreceu o diálogo e, agora, cabe às feministas qualificar o debate e não deixar o momento se perder.

Fêmea: Esse debate avançou a partir da ida das feministas às ruas ou pelas mulheres dos próprios movimentos?

MPL: Como tinha muita coisa sendo discutida e a necessidade de os movimentos mais à esquerda sentarem junto, para construir, eles começaram a olhar para esses temas e abrir espaço para o debate. As ruas foram um espaço pedagógico. As pessoas conseguiram visualizar a importância da luta feminista, que muitas vezes é desqualificada dentro dos próprios movimentos. As mulheres conseguiram ser ouvidas e dizer que aquelas bandeiras eram importantes. Apesar de ter setoriais de mulheres, esses movimentos não costumavam participar das Marchas das Vadias, coletivamente, por exemplo. Mas eles tinham de um lado movimentos contra a corrupção, pela volta dos militares e, de outro, gente defendendo a legalização do aborto, contra o estatuto do nascituro. E tinham que tomar um lado. Acho que a gente avançou.

Fêmea: E como continuar avançando?

MPL: Tem uma coisa muito fundamental que é saber voltar para o invisível. Hoje o MPL tem maturidade suficiente para não entrar em crise. A gente sabe lidar com o visível e o invisível nos movimentos sociais. Como diz o subcomandante Marcos, do movimento zapatista, a história não se faz só nas grandes praças, tem todo um trabalho invisível que é o que possibilita que essas coisas explodam, que realmente transformam a sociedade. Agora é o momento de voltar para o trabalho de base e para a organização popular. Saber capitalizar isso tudo em termos de organização real das pessoas, em torno de uma pauta concreta. Às vezes o movimento dá aquela encolhida, aquele refluxo, mas o saldo se dá mesmo no dia a dia, na luta para construir alternativas.

   
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