Jurema Werneck
Médica, diretora da ONG Criola (RJ) e coordenadora da Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB)

Um

“É a hora do gol!”, foi o que disse a ativista feminista sobre as manifestações de rua. O momento em que todo o trabalho de crítica, formação e mobilização se transformou em demanda social explícita, em forma e conteúdo, com a mesma importância do gol para o atacante, o time e a torcida. E talvez seja isso mesmo.

A impressão foi que demorou demais: há cerca de um ano, ouvi de outra ativista negra feminista: “este país está em chamas!” Com a expressão, ela buscava sintetizar o quadro amplo e diverso de violações de diretos humanos no Brasil, com diferentes segmentos sociais expressando, em comum, a indignação diante da desmesura do desenvolvimentismo governamental (e sua aliança com o mercado).

Eram indígenas, quilombolas, ribeirinhos, favelados, mulheres rurais e urbanas, negras e não negras, religiosos de matriz africana, jovens negros e não negros, lésbicas, gays, travestis e transexuais, favelados e desalojados urbanos e rurais violentados pelos interesses de expansão das empresas (de energia, do agronegócio, da especulação imobiliária e outras). Denunciando o recrudescimento do racismo que impedia o acesso a direitos básicos, ao mesmo tempo em que tornava a vida de jovens negras e negros radicalmente vulnerável. Apontando o caráter pernicioso dos ataques à laicidade do Estado.

Eram diferentes organizações denunciando a violência física e simbólica cotidianas, contra o que não encontravam qualquer medida governamental ou estatal de proteção e reparação. Denunciando a invasão militar das favelas, a retomada da limpeza racial e étnica dos centros urbanos. Expondo a violação de seu direito à cultura e buscando liberdade de expressão, de luta, de existência.

Muit@s ocuparam a internet, os salões, as ruas e campos abertos e foram perseguid@s, atacad@s. Muit@s não receberam apoio (ou apoios suficientes) do restante da sociedade. Diante da imobilidade de outr@s, vivíamos a ansiedade e a insatisfação pela demora de chegar a hora do não profundo, da ruptura necessária, do basta.

Dois

Quem não se lembra? Um ano, um mês, um dia antes de junho, se dizia que o melhor já havia chegado ou estava chegando. Maracanã e outros estádios novos ou quase. Nova classe média bombando em consumo e autoestima. Governos com aprovação alta. Redução das desigualdades, erradicação da miséria, reconhecimento da diversidade - racial, étnica, de identidade de gênero, de geração, entre outras - e ações afirmativas em pleno vigor. Havíamos vencido disputas internacionais, até contra os Estados Unidos, e trouxemos para casa a Copa e as Olimpíadas! Melhor não poderia ser.

Será que nos faltava argumentos? Será que víamos o que ninguém mais via?

Aí veio junho e seu gol.

Três

E tudo mudou de repente, como o gol muda tudo. Mudou o ritmo, mudou o tempo, mudou o humor. Demorou, mas chegou. Bem-vind@s! Afinal, era o que esperávamos, era pelo que trabalhamos tanto tempo e (quase) não vinha, (quase) não acontecia.

Aconteceu: a revolta iluminou as ruas. Iluminando, nelas, as novas juventudes. Vieram e impuseram sua presença, seu protagonismo, sua raiva. O Sakamato notou rápido: o facebook e o twitter saíram às ruas. E, junto, a alegria de (re)descobrir que havia razões porque lutar, que havia vontade de fazer tudo mudar, que havia gente lutando.

Achei bonito ver naqueles rostos a descoberta do prazer da luta, que transforma a raiva em aprendizado de utopias. De uma utopia que se queria concreta, palpável, sensorial - saltar do espaço virtual para as ruas impunha a centralidade do corpo e seus encontros. Foi o que vi: o corpo, muitos corpos, em sua vontade de expansão. Sorrir, gritar, gesticular, quebrar, empurrar, correr, saltar.

Não havia rostos, não havia siglas, não havia nomes. Ou: os nomes eram Anonymous, Ninjas, Black Blocs, Gigantes, Amarildos, ninguém, todomundo... Pareciam ter saltado direto das histórias em quadrinho para as ruas, sem líderes. Ou: eram muitos os líderes, cada qual convocando suas tribos. E não havia bandeira. Ou: era uma confluência de lutas. Era a multiplicidade. A (des)ordem. A nova ordem! O país estava novamente em chamas - e era o fogo que gera, que aquece, que incendeia o caldeirão da mudança...

Quatro

Não há garantias de que a mudança irá além do que já mudamos. Falta reconhecer o protagonismo de sujeitos coletivos subordinados, suas realidades, suas críticas e lutas que nos trouxeram até as ruas. Falta desmascarar os proprietários das mídias sociais, eles próprios agentes da mercantilização dos corpos, da vida. Falta ampliar as redes sociais de carne e osso, face a face. Falta aprofundar o desejo e a forma do futuro próximo. Falta questionar as técnicas de luta em que a encenação da violência tem mais importância do que o confronto à violência real que levou Amarildo, que levou Celso Figueiredo Guarani Kaiowá, que leva tantas mulheres que confrontam a violência de seus homens, que torna as noites de travestis, transexuais, lésbicas e gays um pesadelo, e que faz da vida de negras e negros de todas as idades um desafio a cada segundo. Estetizar a violência não é suficiente para alterar este quadro. Falta muito. Mas falta menos.

Reconheçamos: até aqui, a conjuntura mudou. A visão de país mudou, a visão da luta mudou. Mudou também a forma de fazer: o tempo dos seminários, das capacitações, das reuniões passou. Agora é rua. E é outra rua. No lugar dos carros, as manifestações. No lugar de transeuntes, marchas e mobilizações. A rua fez contraponto ao shopping, o múltiplo fez contraponto ao único, a revolta deslocou o conformismo, o sujeito foi substituído pelo(s) grande(s) coletivo(s). A interatividade midiática cedeu lugar à ação direta. Os grandes temas ganharam concretude, lugar: o corpo, suas necessidades, sua insatisfação. O corpo, de novo, é meio e mensagem - que anuncia o tempo da ideologia encarnada, da palavra de ordem que é conduta, realidade palpável, audível, sensível, saboreável.

O jogo não acabou, agora é o segundo tempo.

Cinco

Estamos desafiadas a seguir lutando, agora renovadas. Novas vontades, novas fórmulas. Nosso desafio é aprender com as ruas, é aprender a ensinar às ruas, com todo mundo que luta, todas as gerações, todas as causas. Nos encontramos nas ruas e é preciso reconhecer e acolher quem encontramos nelas. É preciso devolver ao público o que a mercantilização sequestrou. Mobilidade, lazer, encontro, abrigo, luta política e ideologia.

A rua pode voltar a ser o já que foi: fronteira entre individualidades e, ao mesmo tempo, espaço de trocas. Lugar onde a diferença - as tantas identidades - deve ser o motor da unidade não hierárquica. Unidade que precisa ser, antes de tudo, temporária, fluida, de ocasião, ponto de partida para novas diversidades, novos encontros.

Seis

O espaço público está em disputa novamente. Se olharmos para as ruas vamos ver que todos se apresentaram para disputar: lá estão todas as forças, as conservadoras, as conformistas, e as forças da mudança. Este é o momento de fazer escolhas, pois a generosidade do espaço público reivindica uma etiqueta explícita. É preciso que a etiqueta das ruas advogue inclusão e mobilidade dos múltiplos; que preserve as criatividades, buscando também criar a língua comum do diálogo que entende o conflito e o supera, a partir do respeito e da responsabilidade. Que persiga o de projeto de sociedade enunciado: uma sociedade multicêntrica e, necessariamente, maior que o Estado. Que prescinda das polícias e dos dogmas. Cujo imperativo seja, como parecem querer dizer as ruas, lutar sempre.

Ocupamos as ruas. Nosso desafio agora é permanecer nelas.

   
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